No Dia Nacional da Alfabetização, estudantes da EJA de Florianópolis contam suas histórias

Atualizado

“A gente vem aqui para aprender a ler o ônibus, entender as receitas e aprender coisas desse mundão”.

É assim que começa a conversa com Ana de Oliveira de Souza. Sentada na carteira da sala de aula, por volta das 20h30 de uma terça-feira abafada e chuvosa na Escola Básica Almirante Carvalhal, em Coqueiros, a senhora de 68 anos conta como decidiu entrar pela primeira vez em uma escola e tornar-se aluna. 

Moradora há quase 20 anos de Florianópolis – Capital com a melhor taxa de alfabetização do país -, Ana nunca pôde ir à escola no ensino regular. Natural de Campos Novos, no Meio-Oeste, quando criança precisou trabalhar na roça e cuidar do pai, já que a mãe morreu quando tinha apenas 7 anos.

Na juventude, força e vontade existiam, mas o trabalho, o casamento e os nove filhos ocupavam todo o tempo. “Eu chorava antes de dormir todos os dias porque queria ler os livros entender as coisas”, diz.  

Agora, com os filhos todos criados, o mundo ao redor é outro. Desde que começou a frequentar as aulas da EJA (Educação para Jovens e Adultos), em 2017, as consoantes e vogais fazem cada vez mais sentido. Tornaram-se parte de sua rotina, escritas em um caderno em letras de forma.

Ana de Oliveira de Souza, 68 anos – Foto: Caroline Borges/ND

Criado em 1966, o Dia Nacional da Alfabetização é celebrado nesta quinta-feira, dia 14 de novembro.

Nesta mesma data, o governo construía o MEC (Ministério da Educação e Cultura) e dava início às diretrizes e metas nacionais. Uma delas, e talvez a mais difícil de todas, tem sido um dos principais objetivos de Florianópolis: zerar a taxa de analfabetismo.

No município, o esforço empregado pelos professores e gestores da educação deu à cidade o título da Capital da Alfabetização.

Segundo dados mais recentes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulgada pelo IBGE no final do ano passado, Florianópolis tinha 1,6% da população acima de 15 anos analfabeta em 2016, mas encerrou o ano seguinte com apenas 0,8%.

Além de Florianópolis ser referência nas práticas de alfabetização, Santa Catarina também cumpre com as diretrizes e é destaque. A mesma pesquisa revelou que o Estado tem a segunda menor taxa do país, atrás apenas do Rio de Janeiro. Em 2017, apenas 2,5% da população era analfabeta.

Convivência e discussões

Além de aprender a escrever e ler, na escola Ana se junta aos amigos, assiste filmes e conversa sobre quase tudo. Na noite de terça, perto do Dia da Consciência Negra, o assunto da aula foi racismo e invisibilidade.  

Atenta à fala da professora, a senhora pega um lápis com as mãos de unhas pintadas com cor de rosa e, devagar, escreve o que está no quadro.

No fim da aula, orgulhosa e com um sorriso envergonhado no rosto, mostra o caderno à reportagem. No topo da folha com pauta está escrito ‘Vista a Minha Pele’, título do curta-metragem que acabara de assistir.

Leia também:

Como muitos estudantes trabalham durante todo o dia, além de passe escolar e material didático, a rede oferece alimentação aos alunos.

Após a primeira parte da aula, a janta é outro momento de confraternização, em que jovens e adultos se reúnem. Em um canto do refeitório está Erial Anselmo, de 39 anos. 

Entregador de jornais há 26 anos, pouco foi às aulas quando pequeno. Precisou trabalhar cedo. Estudando na EJA, agora já consegue escrever seu nome e entender boa parte do que lê. Seu desejo é melhorar de vida pela educação: depois de concluir o ensino fundamental, pretende cursar o ensino médio. 

Após perder o emprego há cerca de um mês, Erial vive agora de extras. A expectativa é conseguir um novo serviço que não atrapalhe os estudos.

“Não quero mais trabalhar à noite. A gente vem muito cansado para a aula e fica mais difícil”, conta.

Contra o analfabetismo, o entendimento do próprio mundo

Sônia Carvalho e Zenilda Pina – Foto: Caroline Borges/ND

A modalidade de Educação para Jovens e Adultos foi implantada no país em 1966 e busca minimizar o impacto da exclusão social e de classe vivida por aqueles que não tiveram acesso ao ensino regular. 

Quando Zenilda Pina, de 42 anos, começa a ler, todos os alunos se calam. Os olhos se voltam para o centro da sala, onde a professora fita a folha. Da sua boca, as palavras saem devagar. Na aula, quando ela fala, todos ouvem. Para os alunos, aprender seria ainda mais difícil sem a educadora.

“Às vezes eu vou para a casa pensando como eu posso ajudar mais, só que tudo é um processo e cada um tem o seu, a gente precisa respeitar”.

Segundo a gerente da EJA em Florianópolis, Sônia Carvalho, a diminuição do índice de analfabetismo na cidade ocorreu justamente após gestores compreenderem a importância da educação para a vida da população.

Esse entendimento foi desenvolvido pelo educador e filósofo brasileiro Paulo Freire. Ele acreditava que, para vencer o analfabetismo, os alunos precisavam ler o mundo a partir da própria experiência, cultura e história.

“Não importa a idade, cor ou onde moram, todas as pessoas devem ter o direito ao acesso e permanência. Existe também o nosso cuidado de entender o mundo e a história das pessoas”, diz a gerente. 

Dionísia Soares Varela, de 58 anos – Foto: Caroline Borges/ND

Esse é o caso de Dionísia Soares Varela, de 58 anos. Moradora do Abraão, mas nascida em Lebon Régis, estudou até a quarta série e precisou interromper os estudos para trabalhar. Há cerca de oito meses frequenta a instituição e conseguiu relembrar o pouco que havia aprendido na infância. 

Recentemente ficou doente, alguns dias sem ir à aula. Na terça-feira, foi recebida pela professora Zenilda com um sorriso de boas-vindas. “A gente sempre é recebida assim, com alegria”, disse. 

Além da oferta de classes nas escolas durante o dia e à noite, a secretaria de Educação do município disponibiliza o estudo nas comunidades de difícil acesso. No núcleo do Continente, além da Escola Carvalhal, um professor vai até a associação de moradores da Vila Aparecida e ali ministra aulas.  

Neste ano, 1.285 jovens e adultos estão matriculados na EJA em Florianópolis. Deste total, 248 estudantes, assim como Ana e Eriel, estão no primeiro segmento e aprendem a ler e escrever.

O restante está na fase de conclusão do ensino fundamental. No município, são 25 locais que atendem os estudantes.

Dona Maria, a poetisa

Após finalizar a EJA, os estudantes concluem o ensino fundamental e podem iniciar o desafio do ensino médio. Mas antes recebem uma festa. 

A ex-estudante da modalidade Maria Moraes de Andrade, 78 anos, não se lembra exatamente a data da formatura, mas a sensação de concluir o ensino fundamental está viva na memória.

Poetisa e apaixonada pela literatura, ela garante que o dia da festa foi um dos mais especiais. “Os passarinhos cantavam, tudo era colorido e bonito. Foi o dia em que eu mais sorri”. 

Nascida em Siderópolis mas criada em Criciúma, no Sul do Estado, a senhora de olhar meigo viveu boa parte da vida em Rondônia, trabalhando na agricultura. Em 2010, após a morte do companheiro, mudou-se para Florianópolis e decidiu começar a estudar. 

Dona Maria, a poetisa – Foto: Fotos: João Favila/Secom/ND

Munida com a vontade de aprender, entrou na EJA no Núcleo de Neti Estudos da Terceira Idade, localizado na UFSC. Depois do certificado, ela partiu rumo a mais uma etapa. Em 2017, conseguiu concluir o ensino médio no Ceja.

No fim do mês passado, a mãe de três filhos lançou o livro de poesias “Da enxada pro lápis”, que reúne 124 versos de temas variados que abordam toda a sua vida. 

Ao conversar com a reportagem na tarde dessa terça-feira (12), Dona Maria, a poetisa, garantiu que alfabetização é similar ao ato de retirar as vendas dos olhos.

Para a senhora que passou grande parte da existência na escuridão, entender as palavras é “descobrir o mundo e ter a chance de mudá-lo”. 

Veja a poesia preferida da autora:

“O poeta cantador:
Eu conheci um poeta
Que cantava suas poesias na janela do seu amor
Que sorrindo ela abria a janela
Para o Poeta cantador
Esse poeta
Ele via o mundo de tal beleza e amor
Que tudo que ele via
Ele era um poeta cantador
Esse poeta que eu falo
Eu conheci ele
Sim, senhor
Ele é o meu pai
O poeta cantador”

Educação