Nossa casa comum

Campanha da Fraternidade acerta ao abordar o saneamento básico como tema deste ano

Onde ficam os limites da nossa casa? Ora, direis, residindo num apartamento, o lar termina ali na porta principal; em sendo uma casa, no portão da rua. Simples assim, certo?

Não! Isso não é simplicidade, mas simplismo. É diminuir a complexidade do conceito.

Aprendi quando criança, com minha família, que a rua fazia parte da nossa casa. A cidade toda era nosso lar. Vandalizar algum bem público era o mesmo que estragar algo dentro da residência. No colégio, as irmãs nos ensinaram que a sala de aula não terminava na porta, mas chegava até o portão da rua. E mais: o próprio estabelecimento era uma extensão do lar, como um grande cômodo a mais.

Com o passar dos anos, percebi que nossa casa, na verdade, é uma imensa esfera com cerca de 12.700 quilômetros de circunferência e uma superfície de meio bilhão de quilômetros quadrados.

E hoje vejo, também, que não estamos cuidando bem dela.

Por isso, afirmo que a Igreja Católica acerta em cheio ao propor o tema deste ano da sua tradicional Campanha da Fraternidade – que completa meio século de existência. “Casa Comum, nossa responsabilidade” é o tema, com o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). O versículo está no capítulo 5 do livro de Amós, na Bíblia hebraica.

O objetivo principal da campanha deste ano, segundo a CNBB, é “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum”.

Saneamento básico, ainda que tão importante, é um tema vilipendiado pela raça humana. É inconcebível que, perto da terceira década do século 21, continuemos convivendo com o maldito fantasma do esgoto a céu aberto e da sujeira correndo direto para os rios e oceanos. Faz bem a igreja em enfiar o dedo nessa ferida aberta. É pra doer mesmo!

Sempre ouço aquela cantilena batida: “esgoto não dá voto”. Ou seja: prefeito ou governador que investe em saneamento básico não faz boa campanha política. Ora, vá chafurdar no esgoto quem pensa dessa maneira!

Lembro-me muito bem de quando surgiu o Samae em Rio Negrinho, lá na virada dos anos 60 para os 70. Até então, todas as casas precisavam ter poço artesiano como única forma de acesso à água potável. Tomávamos água tirada com um balde direto do poço, sem qualquer tratamento. E dê-lhe bálsamo branco pra aliviar dor de barriga! Quando o Serviço Municipal de Água e Esgoto começou a encher a cidade de valetas, foi uma revolução. Ainda me recordo de alguns comentários incrédulos sobre a inutilidade da água tratada e encanada. Bem, o Sr. Tempo se encarregou de dar razão a quem começou aquilo (se não me engano, o prefeito era meu tio Álvaro; corrija-me se estiver errado, meu povo de serra acima). O serviço, na verdade, era só de água, pois esgoto até hoje não cobre a cidade (aliás, qual município catarinense tem 100 por cento de cobertura?).

Nossa Casa tá com cheiro ruim, essa é a verdade. A Campanha da Fraternidade faz bem em nos dar mais um alerta. Falta fazermos nossa parte.