Novembrada: 40 anos depois, ex-governador Jorge Bornhausen revela visão sobre o episódio

Atualizado

Às vésperas de completar 40 anos do ocorrido, o ex-governador Jorge Bornhausen falou pela primeira vez à imprensa sobre a Novembrada, protesto histórico ocorrido no Centro de Florianópolis que entrou para a história do país como um símbolo de resistência, que acabou por acelerar o fim da Ditadura Militar no Brasil.

Na sacada do Palácio Cruz e Sousa, o então governador Bornhausen (à dir.) ao lado do presidente Figueiredo no dia histórico – Foto: Dario de Almeida Prado/Arquivo Agecom/UFSC/ND

Em entrevista exclusiva ao Portal Floripa Centro, ele lamentou a postura do então presidente da República, João Figueiredo, a quem responsabilizou pelo confronto com os manifestantes. “Ele se sentiu ofendido na honra e causou todo esse lamentável episódio”, disse Bornhausen, acrescentando que considerou a reação de Figueiredo como ‘despropositada’.

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Ao mesmo tempo, afirmou que o enquadramento na Lei de Segurança Nacional dos estudantes detidos na Novembrada foi uma ‘medida extrema’ da qual sempre discordou.

O ex-governador, de 82 anos, já havia detalhado sua visão sobre o episódio de 30 de novembro de 1979 no livro “Jorge Bornhausen, uma biografia”, do jornalista Luiz Gutemberg. Assim, juntando as recentes informações repassadas pelo ‘Dr. Jorge’, com os dados da biografia, foi possível chegar à versão completa da Novembrada de um dos principais personagens do episódio que sacudiu o país há quatro décadas.

Figueiredo saúda desde a sacada

“Nunca vou esquecer aquela manhã de novembro de 1979. O cerimonial pediu que os pronunciamentos fossem realizados desde a sacada do Palácio Cruz e Sousa. E assim foi feito.

Em 2016, o ex governador Jorge Bornhausen recebeu a Medalha Anita Garibaldi, na Assembleia Legislativa –  Flávio Tin/ND

Duas mil pessoas estavam diante do Palácio e receberam o presidente com aplausos e bandeirinhas. E Figueiredo foi à sacada acenar-lhes. Foi quando se manifestou, pela primeira vez, o grupo de estudantes. Eram 20, ou pouco mais que isso, barulhentos, organizados, repetindo palavras de ordem habituais. Ensaiaram uma vaia em contraponto aos aplausos, que eram bem mais fortes.”

O gesto da discórdia

“Nesse momento, rindo, Figueiredo fez-lhes um gesto juntando os dedos polegar e indicador. Tentava mostrar aos que o vaiavam como eram poucos, enquanto os que aplaudiam – e abrindo os braços mostrou a extensão da multidão – eram bem mais numerosos. Posso atestar, porque estava ao seu lado, que enquanto fazia o gesto, o presidente dizia: ‘Vocês são tão poucos, enquanto a multidão que aplaude é tão grande’. Mas o gesto foi entendido, de longe, pelos estudantes como obsceno. Imediatamente, começaram os insultos.”

A reação dos manifestantes

“Um, dois, três/ quatro, cinco mil/ quero que Figueiredo/ vá a puta que o pariu’, repetiam ritmicamente os manifestantes estudantis. Imediatamente, entramos novamente no Salão Nobre do Palácio para a solenidade oficial de boas-vindas. Mas o coro provocativo da Praça 15 era ouvido com uma nitidez impressionante. Já não se ouviam mais aplausos. Predominava o ‘quero que Figueiredo / vá a puta que o pariu’. Era como se a multidão a favor, intimidada, houvesse silenciado para assistir à demonstração dos estudantes.”

Figueiredo sai do Palácio para brigar

‘Bornhausen, você é testemunha para a história! Xingaram minha mãe!’. A exclamação do presidente não se adequava à circunstância. Estarrecido, eu não queria acreditar. A solenidade de boas-vindas havia terminado, começava a ser servido o coquetel e o presidente, transtornado, tomando-me pelo braço, repetia agressivamente: ‘Xingaram minha mãe, eu não admito’.

“A última coisa que me ocorreria seria associar os gritos de ‘puta que pariu’, vindos da rua, à mãe de quem quer que fosse. Muito menos, quando se tratava de uma provocação política. Mas o presidente queria lavar a honra da sua mãe. Antes que eu esboçasse um gesto, ou mesmo articulasse uma só palavra, ele se precipitou em direção às escadas que levavam à entrada do Palácio: ‘Vou lá embaixo resolver na porrada’.”

“Ele conseguiu se desvencilhar dos homens da segurança que foram alcançá-lo para contê-lo, a poucos metros dos manifestantes. Obrigado a voltar ao Palácio, Figueiredo parecia frustrado por ter sido impedido de defrontar-se pessoalmente com os rapazes que o insultavam.”

Confronto no Ponto Chic

“O que aconteceu no Palácio não foi nada diante do que ocorreria minutos depois no Ponto Chic. Após o incidente, sugeri que fôssemos diretamente para o churrasco programado em Palhoça, mas o presidente disse que deveríamos cumprir o programado: caminhar até o Ponto Chic, no calçadão da Felipe Schmidt. Com a mobilização policial após o confronto, os manifestantes abandonaram a praça e contornaram o quarteirão do Palácio, chegando no Ponto Chic pelo outro lado, onde se deu novo confronto. Um corpo-a-corpo, autêntico vale-tudo, felizmente restrito ao embate físico, com chutes e murros, sem disparos de arma de fogo.”

Mesmo cercado e sob protestos, Figueiredo quis tomar café no Ponto Chic – Foto: Casa da Memória/Arquivo/ND

“A segurança de Figueiredo, com muita dificuldade conseguiu preservá-lo, porque ele era o mais empolgado com a possibilidade do engalfinhamento. O estado geral da comitiva era deplorável. Então, finalmente, tal como aconteceu no Palácio, a PM foi autorizada a intervir pelo comando da segurança presidencial. Só então terminou a refrega. O ministro das Minas e Energia, César Cals, havia levado um murro no rosto. O presidente da Caixa Econômica, Gil Maciera, tinha a mão ferida. Finda a luta campal, voltamos a nos reunir e tomamos os automóveis que nos levaram ao churrasco em Palhoça.”

Enquadramento dos detidos

“Ao fim do dia, tínhamos um presidente irritado e boa parte da comitiva estropiada e esfarrapada depois da refrega no Ponto Chic. No fim da tarde, quando seguíamos para o aeroporto, Figueiredo me comunicou que iria mandar enquadrar os manifestantes na Lei de Segurança Nacional. Foi uma medida extrema com a qual nunca concordei.”

Liberação dos estudantes

“O presidente foi embora, mas o clima de conflito ficou, e se ampliou. A identificação dos manifestantes, todos estudantes, e suas respectivas prisões, gerou manifestações. Decidi procurar o ministro da Justiça, Petrônio Portela, para pedir a libertação dos estudantes. Ouvi um solene não. Dias depois, angustiado, procurei o comandante do 3º Exército, com jurisdição sobre Santa Catarina, e que era o general Antônio Bandeira, considerado um dos expoentes da ‘linha dura’ do Exército. Depois de me ouvir expor a gravidade e injustiça da situação, ali mesmo, imediatamente, determinou pelo telefone, a liberdade dos estudantes. Só depois, Bandeira comunicou sua decisão ao ministro da Justiça.”

Governador mais rejeitado do Brasil

“Respirei aliviado (pela libertação dos estudantes), mas assim como o episódio liquidou com o ‘João, presidente do povo’, a mim custaria um longo e penoso período de impopularidade. Imagine que cheguei, nas sondagens do instituto de pesquisa Gallup sobre avaliação dos governadores, a ser o mais mal avaliado que o recordista em rejeição, Paulo Maluf. Somente com muita aplicação conseguiria, três anos depois, fazer meu sucessor (Esperidião Amin) e, eu mesmo, eleger-me senador.”

Os presos

  • Entre 2 e 9 de dezembro de 1979 foram detidos sete estudantes: Rosângela Koerich Souza, Geraldo Barbosa, Hamilton Alexandre ‘Mosquito’, Nilton Vasconcelos Júnior, Marize Lippel, Adolfo Dias e Lígia Giovanella.
  • Todos foram liberados em 12 de dezembro de 1979.
  • Os estudantes foram a julgamento em 17 de fevereiro de 1980, na Justiça Militar em Curitiba.
  • O promotor pediu o enquadramento deles na Lei de Segurança Nacional, acusados de terem agredido verbalmente o presidente.
  • Por três votos a dois, os sete foram absolvidos.

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