O bosque

O ônibus parou longe, por engano do motorista, e foi preciso caminhar mais que o desejável para chegar ao destino traçado com meticuloso planejamento, na semana anterior. Ao alcançar o bosque, as meninas fizeram fila atrás da professora e começaram a cantar, de mãos dadas, com a inocência e o senso de oportunidade que o momento requeria: “Pela estrada a fora, eu vou bem sozinha/levar esses doces para a vovozinha”. O planetário era logo ali, mas aquele lugar se afigurava, aos olhos das crianças, como a floresta onde tudo acontece, onde bruxas e monstros horrendos poderiam sair de trás de uma árvore, a qualquer momento, como nos desenhos animados.

Na ingenuidade do grupo, que também tinha alguns meninos absortos na contemplação superficial da paisagem, ninguém notou a presença de seres que poderiam passar ora por alienígenas, ora por discípulos de monges tibetanos em momento de meditação. Casais faziam juras em um canto, e logo adiante um grupelho segurava a respiração para absorver melhor a essência de algo fumado com trejeitos e devoção. Também havia quem optasse por um trago, porque as aulas eram maçantes e só estando uma dose acima da humanidade, como dizia o bebum-mor Humphrey Bogart, seria possível suportar horas e horas de tanta teoria…

Os pequenos acompanharam a sessão no planetário e descobriram a orquestra magistral que rege a dança dos planetas, estrelas e todos os corpos celestes. E saíram convictos de que o mundo é belo, pequeno e mal habitado – porque vem sendo ostensivamente solapado pelos próprios inquilinos. Na volta, no bosque, as meninas já não pensavam em Chapeuzinho Vermelho, mas no futuro da Terra e neste universo cuja grandiosidade desafia o gênio humano. Eram pequenas, estavam no ensino fundamental, mas já tinham o dom de intuir a tragedia da raça.

Quando soube, pela tevê, que o bosque fora palco de uma batalha campal, uma delas perguntou à mestra se aqueles tipos que vira na saída estavam sendo expulsos dali por sua estampa de marcianos ou se o lugar, tão aconchegante e aprazível, era disputado por forças do além que não ousavam divulgar suas estratégias de combate.

A professora tomou aquilo como resultado do excesso de horas em frente à televisão, e se limitou a dizer: “Não, minha filha, os alienígenas estão ali faz tempo, o que eles querem agora é tomar o poder, porque só ele faz sentido”. A garota não entendeu, mas disse aos pais, sobressaltada, em casa: “os aliens descem no lado do planetário e querem dominar a Trindade ainda este ano”.

Loading...