O escárnio significa o fim das virtudes?

Do medo ao escárnio, a ministra Carmen Lúcia resumiu nossa triste realidade

Quando os órgãos de comunicação fizerem, neste mês, aquelas manjadas retrospectivas, na seção de frases e aforismos eu elejo como mais representativa do ano a da ministra Carmen Lúcia Antunes Rocha, do Superior Tribunal de Justiça. Foi muito comentada, na semana passada, a declaração da ministra: “Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a ação penal 470 e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja.”

Ei, aproveitando o embalo, caro leitor e atenta leitora: vocês não veem a ministra Carmen como uma tia querida e severa? Sei lá, pra mim parece, com aquele rosto expressando um misto de meiguice e brabeza, os cabelos à la Cruella De Vil (não sabe quem é? Assista ao filme “101 Dálmatas”). Toda criança tem uma ou mais tias assim: na imposição da disciplina, dá-lhe marca de chinelo na bunda; em compensação, no aniversário é dela que vem aquele presente massa. A tia Carmen, no caso em questão, tá com o chinelo na mão.

A frase da jurista traz muito pano pra costurar debates (bom tema pra redação em vestibular). Afinal, ela começa enaltecendo uma virtude, a esperança, vitoriosa sobre uma emoção natural do ser humano, o medo. Veja, caro leitor, que não estou considerando o medo como algo negativo; é uma emoção, às vezes necessária para evitar acidentes. Havia medo, no sentido de que nós brasileiros pudéssemos recear uma guinada muito brusca. A esperança venceu.

Aí veio o tal mensalão, trazendo desta vez um fator negativo, o cinismo. Afinal, ainda que não se arrole entre os pecados capitais, o cinismo, irmão gêmeo da hipocrisia, é pior que muitos da lista. Dá pra colocá-lo como um sub-pecado da soberba. A frase mais cínica que existe, em minha opinião, é aquela que começa com “Eu nunca…”. Não importa como se complete, no final soa a puro escárnio.

E aí chegamos ao terceiro ponto na fala da ministra, quando o escárnio substitui o cinismo. Caramba! É uma sacanagem substituindo outra! Começamos com um sentimento comum ao ser humano, o medo (positivo ou negativo, depende das circunstâncias). Prosseguimos com uma virtude, a esperança. Descemos para o cinismo, algo abominável. E agora decaímos ainda mais, para o escárnio!

É o fim das virtudes? Do escárnio iremos pra onde? Qual o degrau de baixo? Será que a esperança ainda tem algum prestígio? Quanta carne moída está depositada nos bancos suíços? E a Dina, passa? Passa, Dina? E os touros das milionárias ejaculações? Orra cara, meu! E quanto de vento já temos estocado?

Ah, pra terminar com algum alento, confiemos em outro trecho da fala da ministra Carmen: o crime não vencerá a Justiça. Chinelo neles, tia!