O feriado de Tiradentes e a rua do Centro Histórico de Florianópolis

Moradores e comerciantes falam sobre a vida da rua que leva o mesmo nome do mártir da Inconfidência Mineira

Débora Klempous/ND

Rua, no centro da cidade, faz homenagem a Tiradentes

Neste sábado, 21 de abril, é comemorado o Dia de Tiradentes, data que relembra a história de Joaquim José da Silva Xavier, homem que, segundo a história, foi mártir da Inconfidência Mineira e um dos primeiros a buscar a Independência do Brasil. Ele assumiu a responsabilidade do movimento e, por isso, enforcado.

A história marcou tanto que em quase todas as cidades do Brasil há uma rua, avenida, praça ou monumento que carrega esse nome. Em Florianópolis, a rua Tiradentes fica no centro da cidade, onde ainda se mantém casarios antigos, como o prédio histórico da Câmara e Cadeia, arquitetura do século 18. E o edifício que hoje abriga o Arquivo Histórico Municipal, que conserva os registros oficiais da administração municipal desde 1715.

A rua conta com mais de 40 estabelecimentos comerciais, entre lanchonetes, lojas de móveis usados, acessórios, farmácias, escola e quatro prédios residenciais. A dona de casa Albertina Rosa Cardoso, 49 anos, mora no 11º andar de um condomínio na rua Tiradentes há 19 anos. Com a mesma vontade do herói da Inconfidência Mineira, luta pelo cuidado e valorização da região onde mora. O seu prédio fica na parte de trás da Casa de Câmara e Cadeia. Há cerca de cinco anos ela movimentou os vizinhos e comerciantes para exigirem que o município tomasse uma atitude por causa das frequentes invasões de usuários de drogas no local.

Albertina imprimiu mais de 100 panfletos, com recursos próprios, e distribuiu na região convidando todos para uma audiência pública que discutiu a situação e segurança dos moradores.  Mas  no dia da audiência, apenas ela e mais quatro pessoas apareceram. “Somos Tiradentes, lutando o tempo todo. Mas acho que um dia vamos morrer enforcados, sem ver as coisas acontecerem. Muitos falam, mas poucos agem. Estou cansada e quase desistindo de brigar por tudo isso”, lamentou Albertina.

A rua Tiradentes da década de 60

Poucos metros à frente, o jornaleiro Nereu Coelho, 68, observa o movimento e compara com a época em que começou a trabalhar na Joreli, em 1964. A tradicional banca de jornais, livros e revistas, da qual hoje é proprietário, mudou seu público ao longo dos anos e precisou se adaptar, principalmente à tecnologia e à internet.

Alguns clientes viraram amigos e até frequentam a banca. O jornaleiro sente falta dos velhos tempos. “Os clientes de hoje não conhecem a gente, não há essa relação de amizade”, disse. Segundo Coelho, na década de 1960, a rua Tiradentes era essencialmente residencial, e os clientes chegavam à banca em busca de novidades. Hoje, a via se transformou e são os jovens que trazem as novidades para o proprietário. “Antes eles dependiam de nós para saber do novo. Hoje, os jovens têm acesso mais rápido à informação.”

Atualmente, o maior número de visitantes da banca é de jovens e adolescentes, movimento motivado especialmente pelo colégio instalado na rua. No intervalo, as estudantes Talissa Müller,17, e Pamela Chan, 16, que estão às vésperas do vestibular, relembravam a história de Tiradentes enquanto olhavam a placa da rua. “É aquele cara que penduraram a cabeça dele para os outros verem como exemplo, não é? Eu acredito no que me contam”, brincou Pamela, entusiasmada.

Conspirações

Apesar da história, Deivid Barbosa, que trabalha na rua Tiradentes, questiona o fato que marcou o Brasil. Para ele, a história é ótimo registro, mas nem sempre é fiel. “A história se perde muito, não é possível relatar como foi de fato. Acho que Tiradentes serviu como um “laranja”. Na hora de enfrentar, os outros correram, só ele falou e, por isso, morreu”, opinou.

A loja em que Barbosa trabalha fica em um trecho da rua que se tornou referência cultural da cidade. Ele lamentou o descaso com o espaço e apoia o resgate da cultura no local. “A travessa traz um movimento interessante para a região. Sempre há música boa aqui, mas agora a música foi proibida, só pode no sábado, durante o dia, e nós perdemos com isso”, disse Barbosa.

Biografia de Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu em Minas Gerais em 12 de novembro de 1746. Sua mãe era brasileira, e o pai, um proprietário rural português.  Ficou órfão de mãe e pai ainda jovem e até a maioridade ficou sob os cuidados de um tio.

Quando adulto, se tornou dentista. Por isso, ficou conhecido como Tiradentes, e também seguiu a carreira militar chegando ao posto de alferes.  Tiradentes foi um ativista político da época do Brasil colonial, atuante em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os planos dos inconfidentes da época era estabelecer um governo independente de Portugal. Mas antes que o movimento tomasse maiores proporções, a conspiração foi denunciada aos portugueses.

Tiradentes foi o único que assumiu a responsabilidade do movimento e, por isso, morreu enforcado e esquartejado em 21 de abril de 1792, aos 45 anos. A coroa portuguesa colocou a cabeça dele em um poste e espalhou seus restos mortais pela cidade para mostrá-lo como exemplo, desencorajando qualquer revolta contra o regime colonial.

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