O império do funk no Carnaval de rua

A assustadora invasão de carros tunados, na área central de Florianópolis, expulsou as bandinhas e os blocos carnavalescos tradicionais

Carlos Damião

Equipamentos potentes na Praça Pereira Oliveira
Carlos Damião

Nem o mercado escapou da fúria sonora do funk

O grande segredo do Carnaval de rua em Florianópolis sempre foi a ausência de regras. Os blocos de sujos fizeram história seguindo a linha da liberdade, do anonimato, da alegria e da descontração total. Mas estou me referindo a Carnaval, não a baile funk, uma coisa horrorosa que vem invadindo o Centro há muito tempo e, pelo que vi no sábado, tornou-se grave na folia deste ano. Perdi a conta de quantos carros tunados se espalharam pelas principais ruas, com maior concentração nas regiões da Praça Pereira Oliveira e Mercado Público. Sem qualquer limite, os rapazes e moças que invadiram a área central da cidade colocaram as caixas de som no volume máximo, numa espécie de competição infernal para a escolha de quem fizesse mais barulho e conseguisse intimidar ou expulsar os blocos tradicionais. Fui encontrar um grupo de carnavalescos, organizado e bonito, tocando samba para um pequeno grupo de foliões, na Rua Tiradentes, bem longe da violência sonora praticada no miolo urbano. Está certo que os jovens da periferia queiram se divertir, mas o que eles fizeram no Centro, no sábado, é mais ou menos o que praticavam (e às vezes ainda ousam fazer) na Ponta do Pitoco, na Lagoa da Conceição, azucrinando a vida dos moradores e forçando a polícia a intervir e mandá-los de volta para suas cidades de origem, em geral São José e Palhoça.

Berrando alto

No calçadão da Rua Trajano, um funcionário de uma lanchonete contava a um grupo que tomava café sobre a loucura que estava sendo o sábado naquela região. Fiscais do município passaram para advertir sobre cadeiras e mesas, mas pouco se importaram com a presença de carros tunados que ocuparam os espaços públicos – aliás, também em frente à sede da prefeitura. E a lanchonete teve que dispensar o grupo musical contratado para animar a folia no calçadão com músicas carnavalescas. O funk falou (berrou) mais alto.

Carnaval cercado

Por causa da esculhambação provocada pelo funk e pelo gênero bate-estaca, o Carnaval de rua mais tradicional de Florianópolis acaba ocorrendo em áreas cercadas. Caso dos maravilhosos blocos Vento Encanado (na sexta-feira) e do Sou + Eu (no sábado), com foliões da cidade num clima de diversão carnavalesca autêntica. São locais onde os amigos, os conhecidos e as famílias ainda se encontram sem maiores preocupações.

Extorsão aberta

Flanelinhas fizeram a festa na região central na noite dos desfiles do grupo especial. Eles conseguiram invadir espaços cercados, romperam os obstáculos e passaram a cobrar de R$ 20 a R$ 30 pelo estacionamento de veículos. Motoristas indignados não tiveram opção a não ser pagar o exigido pelos abusados. Raramente policiais ou guardas municipais intervêm em favor da cidadania.

Liga é show

Os desfiles na Passarela Nego Quirido, na noite de sábado, foram impecáveis. A Liesf (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis) comprovou mais uma vez sua competência na administração da atração mais importante do Carnaval. Conforme o presidente Joel da Costa Júnior, “cada ano é um aprendizado”. E com certeza a comunidade do samba sabe reconhecer o esforço e as dificuldades que a Liga enfrenta para garantir tanta beleza.

Só pela web

Sem transmissão pelas TVs, os desfiles da Passarela Nego Quirido ficaram restritos à internet, com a cobertura ao vivo dos principais portais de notícias, entre os quais o ND On-line. A Liesf também transmitiu em seu portal: contratou uma equipe especializada para documentar a passagem de todas as escolas pela pista do sambódromo.

Show na pista

Carnaval é espetáculo. E as escolas capricharam nas suas apresentações, cada vez mais criativas e cativantes. Até bailarinos do Bolshoi no meio do samba (Protegidos) tivemos na Nego Quirido. E a União da Ilha da Magia ousou mais uma vez, com um tema de grande impacto cultural, a relação Brasil-Haiti, com a recuperação da história do pequeno e sofrido país colonizado por espanhóis e dominado por franceses.

Casos de…

Esquecer mulher ou filha em postos combustíveis era, até sexta-feira, o fato mais insólito das férias portenhas no Sul do Brasil. Mas os argentinos conseguem se superar no quesito passionalidade, que é uma marca de seu comportamento. Na sexta, marido e mulher brigaram dentro do automóvel no retorno a seu país. Ela decidiu descer e encarar a viagem de ônibus.

… família

Muitos quilômetros depois, o marido e as filhas entraram em colapso nervoso. Sem saber o que fazer, recorreram à Polícia Rodoviária Federal, no posto de Palhoça. Os patrulheiros lançaram alertas aos outros postos, em direção ao Sul, até que, por meio de um smartphone, conseguiram localizar a mulher. O reencontro da família – fotografado e filmado e divulgado nas redes sociais – foi emocionante.

Sem orgulho

“Vamos combinar, amigo, melhor não contarem muito sobre essa guerra. Orgulho?”. Flavio Felix, sobre a coluna do fim de semana, em que resgatei a história do memorial dedicado aos mortos na Guerra do Paraguai, localizado na Praça 15 de Novembro.

Carlos Damião

A concentração do PQP, com Áureo Moraes em destaque

A festa do PQP

Pauta que o Pariu, o bloco dos jornalistas catarinenses, atraiu um grande público ao seu tradicional local de concentração, a Escadaria do Rosário. Áureo Moraes, como sempre, roubou a cena, com suas performances artísticas e o desempenho como “Imperador da PQP”. Figuraço. Na festa foram escolhidas a rainha Yasmine Holanda e as princesas Cláudia de Conto e Ellen Sezerino.

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