O Plano Diretor e as cinzas da Fênix

Luiz Cézare Vieira

Coordenador do Plano Diretor Participativo na Bacia do Itacorubi

Divulgação

No dia 27 de março, nos salões do Clube Doze de Agosto, uma Fênix renasceu das cinzas: o Plano Diretor Participativo de Florianópolis. Chocada em agosto de 2006, no Teatro Álvaro de Carvalho, esta pobre ave completou seis anos de triste história e parece condenada à sina mítica de ser cinza ou quando muito ao destino trágico das galinhas que ganharam asas mas não voam.

Nos dois anos iniciais, milhares de cidadãos foram às ruas e construíram o conteúdo popular do Plano com mais de 2.000 diretrizes emanadas da leitura comunitária. Entre elas uma ganhou destaque: a gestão participativa e democrática. Em julho de 2008, participantes de todos os distritos da cidade lotaram o salão do Clube Doze para uma audiência pública que parecia alvissareira. O Ipuf sistematizou e resumiu as diretrizes, marcando nova audiência para aprovação final da leitura comunitária. Os cidadãos saíram do clube com a visão poética de uma bela e urbana Fênix sobrevoando as verdes baías da Capital.

Com desculpas de período eleitoral, o plano foi secado e a ave entrou em combustão e virou cinza. Depois da quebra do contrato social com a extinção unilateral do Núcleo Gestor, outro ator entrou em cena, a Fundação Cepa, cujo trabalho culminou na audiência fatídica do teatro Álvaro de Carvalho e na explosão da indignada voz rouca das ruas.

O que aconteceu em Florianópolis neste passado recente pode ser resumido em poucas palavras: a opinião pública tentou colocar na pauta política um debate profundo sobre os rumos de uma cidade em rota do caos. Tanto o prefeito quanto a Câmara de Vereadores ignoraram esta regra básica da democracia.

Outro fato impressionante foram as repercussões de uma entrevista no final do ano passado do digno cidadão Guga Kuerten. Guga falou bem, mas de modo algum foi original. Milhares de florianopolitanos vêm dizendo enfaticamente a mesma coisa há seis anos, mas a sociedade do espetáculo só repercute as falas dos famosos. Isto é déficit de república, atraso cultural.

Os voluntários que participaram da última audiência no Clube Doze de lá saíram sem visão poética, vacinados que estão contra a sucessão e a dureza dos fatos que apontam para a cidade que não queremos. Novamente darão sua contribuição para o aperfeiçoamento do plano, que depois passará pelo teste do corredor polonês da Câmara de Vereadores.

Nos últimos anos os cidadãos anônimos dedicados ao Plano Diretor estabeleceram uma profecia coletiva: que Florianópolis, além de suas belezas, fique conhecida como uma cidade republicana de novo tipo, com gestão participativa, socialmente inovadora e a com a democracia exercida como forma de aperfeiçoamento da convivência humana. O tempo urge e esta Fênix precisa voar.