O privilégio da certeza

Não venho aqui despejar minhas certezas na tua cara de incrédulo. Simplesmente porque não as tenho. E, se as tivesse, te ofereceria talvez como flores, e não como pedras. Digo talvez porque, claro, essa é mais uma entre tantas incertezas que carrego. E também não estou certo se carrego alguma certeza comigo. Talvez alguma tenha ficado escondida em algum bolso secreto da juventude. Talvez, ainda hoje, eu tenha ao menos algum pedaço dela sobrevivendo no oco da sola do pé. 

A gente acaba nem percebendo, preocupados que estamos em somente caminhar. Se parássemos, nem que fosse por um mínimo segundo, provavelmente sentiríamos aquela fisgada no calcanhar, um leve desconforto entre os dedos ou, quem sabe, até uma mancha de sangue coagulado que cansou há muito de escorrer sobre o árido chão da pele. Não olhe agora, mas não há de se duvidar que ali próximo ao mindinho esteja a ponta quebrada de um antigo espinho de certeza. 

Nunca se sabe. Às vezes, a gente acha que é coisa de ontem de manhã, nos esquecendo do quanto éramos tão cheios e certos de tudo lá nas vizinhanças dos 15 anos. Éramos, praticamente, árvores que davam espinhos e que nunca perdoávamos as flores alheias. São com essas memórias – incertas, obviamente – que chegamos nesta encruzilhada onde mal sabemos que caminho seguir, exatamente porque os caminhos não se cruzam. O galo dos ventos, antes reconhecido como profeta dos tempos e das direções no alto de torres, igrejas e telhados, passou a cantar para todos os lados, mesmo em dia de calmaria. Pelo visto, o redemoinho se tornou mais confiável que a bússola. 

 Não sei dizer, hoje, se a casa azul que tinha na minha rua era mesmo azul. Eu me lembro dela na cor azul, mas, talvez, pode ser que nem casa havia. E a rua, como me certifiquei depois, também nunca foi minha. Certeza mesmo eu tinha que o céu era azul – um azul mais claro que o azul da casa – por causa do azul do mar. Depois de tamanha fé descuidada, não arrisco dizer nem se o mar é feito de água ou se o céu é feito de nuvens. Ou se é tudo ao contrário: mar de nuvens, céu de ondas, azul desazulado. Para mim, que não sei voar nem mergulhar, já pouco importa. 

Lamento por você, que diz ser pássaro no ápice do voo quando, ao que parece, se afoga em pleno ar. Não quero, de jeito de nenhum, as certezas lançadas pelas escotilhas. Eu só quero descrer menos para passar a acreditar mais em outras cores, casas e céus.  Não tenho qualquer dúvida quanto a isso. O meu compromisso é apenas com aquilo que nunca prometi. Lá na frente, tudo o que não disse será transformado em dogmas – que é outro jeito de se nomear os espinhos.

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