O que me move

“Seu Marinaldo, o que te move? Só não vale dizer, as pernas!” Foi essa a pergunta que uma aluna da Escola Municipal Paul Harris, Mônica de Lima, me fez ao fim de uma fala sobre literatura, escrita e leitura.

Penso que o que nos move são as palavras, mas a pergunta dela foi tão ampla, os olhos  tão curiosos, ouvidos tão atentos, que seria pouco dizer que palavras me movem, porque, enfim, sou alimentado e movimentado também por coisas que não se comunicam pelo verbo, inclusive por elementos que não pertencem ao mundo objetivado e nomeado: tem sensações em mim que a mim, me calam.

Sou movido pela rosa dos ventos sem saber a direção do pensamento e a ocasião em que ele nasce. Sou movido pelo meu passado, repaginado e garantido nas minhas recordações no futuro. Sou movido pelas pessoas, pela vaidade quando recebo aplausos, e pelo recolhimento até pensar a respeito ou mesmo repudiar no ímpeto, quando me sinto agredido. Sou movido pelas paixões que tive e pelas que incendeiam meu arsenal de probabilidades.

Move-me a chuva quando caio nela: uma criança desperta. Move-me a gratidão pelas coisas imperceptíveis: beijo esquecido quando lembrado, arma apontada em forma de palavra, criança acreditando que sou rato quando finjo que sou e quase acredito. Na movimentação da vida fico pensando nos impactos do ir daqui para lá. Às vezes movo-me como se tivesse dentro de uma bolha que nunca estourasse, uma bolha que me permitisse tocar tudo sem na realidade tocar verdadeiramente, tendo a película me protegendo enquanto toco em brejos, sarnas, tentações, pedras pontudas.

Movo-me, às vezes, em direção contrária, tenho um passado tão bom que é impossível não ir visitá-lo, e algumas construções em forma de leque que abro quando ninguém está me vendo. Penso no que move o mundo, e ele mesmo se movimenta enquanto finge-se parado. Agora, talvez, estou no momento em que no espaço estaria de ponta-cabeça, na parte de baixo do círculo, mas me movimentando como se estivesse lá em cima, olhando de cima para baixo, o que seria útil dizer de cabeça baixa, porque a humildade é um movimento alternativo para a ambição depois de ter chegado ao cume.

Movem-me moradores de rua, artistas de rua, cachorros de rua, as próprias ruas que, labirintas, nos levam para dentro dum mundo desconhecido, onde podemos nos perder. Mas não há melhor maneira de conhecer um lugar se não for perdendo-se nele, e isso também me move, a descoberta de que posso adentrar e sair da agonia, depois de horas dentro dela.

Movem-me as pessoas simples mais do que os presidentes, os analfabetos mais que os intelectuais, a bicicleta mais que o carro, o rir de si mesmo mais do que a empáfia, a fé mais do que o mito, a essência mais do que as tessituras filosóficas, a magia mais do que a ciência, a consciência mais do que o poder, a intuição mais do que a balburdia, a ansiedade mais do que eu queria, e a alegria de poder responder alguém tão puro, tentando eu perambular dentro da pureza.

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