O rio embaixo da cidade

Muitos rios deságuam no rio cachoeira, rios escondidos. Um especialmente é patrimônio histórico escondido, e dizem que se lamenta aos outros rios, algumas vezes porque está feio, outras porque está perdido, tem momentos em que não se suporta, não entende a comporta que o mantém ausente, um rio fantasma que escoa por tubos encaixados um no outro sob o centro da cidade.

Tem histórias escondidas que dizem que antes da Barca Colon chegar toda pomposa e atracar no rio cachoeira, outros barcos menores já circulavam pelo rio Mathias. A gente anda pelo Centro e nem percebe que estamos em cima de um rio. Escondido embaixo do Shopping Muller, embaixo da Biblioteca Pública Municipal, do terminal de ônibus, da praça Dario Salles, se mostra só um pouquinho na quase na praça do correio, e ali, sente muita vergonha. De seu leito flutuoso sobra apenas um risco preto com cerca de três metros de largura. Deságua preto, fétido, se é que é água embora seja líquido, se é que é líquido sendo ele tão denso.

O rio embaixo da cidade, percorrido pelo escuro das tubulações, só entende o porquê da escuridão, mesmo, quando se lança no Cachoeira. Sempre se perguntou os motivos de ter sido esquecido, de terem preferido asfalto a seu caminho liquefeito. Deve ser por vergonha, pensa. Talvez a população tenha alergia. Queria entender porque ninguém fala nada em resgatá-lo, como se, escondido abaixo da rua, estivesse, a salvo dos olhos, salvo ele próprio de suas mazelas. Ouve nos passantes que o rio mais famoso, o Cachoeira, onde ele se junta, tem melhorado um pouquinho…pô, e eu, onde que eu fico?

Se o outro fica todo limpinho eu e eu assim, continuarei sujando ele! É o que se pergunta… mas quem ouve um rio? Quem ouve o que está escondido? Quem ouve o que não se quer ver? Quem ouve o marginalizado? Quem ouve o que fede? … Ninguém ouve. É melhor canalizar para baixo da terra, esconder as coisas para baixo do tapete, colocar tapumes para esconder a feiura, retirar dos mapas para não quebrar a bacia, matar por asfixia um rio que alimentou de madeira a primeira construção desta cidade: um barracão de madeira, onde hoje está a biblioteca, onde ficaram guardados os documentos e pertences dos imigrantes que desembarcavam…

O rio embaixo da cidade chora enquanto rio. Queria sulcar a terra, já não consegue. Queria deitar-se às gaivotas, ser beirada para as capivaras, não pode mais nada. Queria voltar à superfície, e no entanto, mais canalizado vai ficando. Por isso, em noites de lua cheia, querendo chamar a atenção como criança carente, infiltrado de vingança porque dizem que rios são como seres humanos, ele enche, se infla, se expande, e em conluio com a lua, sai pelos tubos, pelos bueiros, pelas bocas de lobo, pelas fendas e aberturas, pelos buracos da cidade, e deságua no Centro. Tristeza de uns. Para ele, é felicidade.

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