O ruidoso silêncio

Como às vezes o silêncio de um olhar é mais expressivo que uma torrente de palavras

Cena corriqueira: primeiro dia de aula de uma das séries iniciais do ensino básico (para minha geração, ali pela segunda ou terceira série do ginásio). Tem aluna nova na turma. O pai é bancário, assume uma gerência na cidade, a família se transfere, aluga casa, os filhos são matriculados no colégio etc. etc. Acontece com frequência, em qualquer lugar ou época dessa imensa nação.

Tá, voltando ao primeiro dia de aula. A nova aluna, de seus 12 ou 13 anos, não sabe onde se esconder quando o diretor a apresenta à turma – a maioria convivendo desde o jardim de infância. Feitas as apresentações, a acanhada e tímida menina ainda é forçada a ir até o quadro-negro escrever o germânico sobrenome cheio de consoantes. Além da timidez, sobressai-se outra característica, física: é bem bonita.

A piazada, hormônios adolescentes em ebulição, se ouriça. Nada, porém, de palavras. No exemplo em foco, vivemos os meados do século passado, cidade pequena, tempos em que os jovens praticavam a disciplina trazida de casa e do colégio das freiras. Só quando o diretor incentiva, a turma se une no coro de “seja bem-vinda!”. A novata, coitada, reflete na camisa branca do uniforme todo o rubor do rosto.

Meninas avaliam, guris idem. Mas tudo em educado silêncio. Dois ou três sentem uma rápida aceleração no batimento cardíaco. Com o passar dos dias, das semanas e dos meses, a menina se enturma, o silêncio entre as iguais se transforma em confidências e cumplicidade. Mas os meninos, especialmente os que sentiram o coração bater mais forte, continuam quietos. Externar sentimentos, só com o olhar – mesmo esse, disfarçado, fugaz, logo desviado.

Não raro, a história termina um dia com troca de alianças. Mas tudo começou em silêncio, na troca de olhares. A propósito, veja só que frase bonita: “As mais lindas palavras de amor dão ditas no silêncio de um olhar”. Ainda que tal lirismo lembre os grandes poetas, foi um artista plástico e inventor o autor do verso: Leonardo da Vinci. Será que teve algo a ver com o enigmático sorriso da esposa de Francesco del Giocondo, eternizada no famoso retrato? Silêncio…

A expressão do silêncio, motivo desta crônica, é frequente na história desse nosso planetinha. Fico imaginando o relacionamento entre nossos ancestrais hominídeos, num tempo sem linguagem. A força do silêncio e do olhar devia ser tremenda. No reino animal, sabemos, o poder da sedução está na força física: o macho mais forte torna-se dominante. O ser humano, porém, creio que já se valia de atributos mais sutis desde o alvorecer da humanidade. Dotado de inteligência e capacidade de raciocínio, por isso mesmo chamado “sapiens”, o homo ancestral não podia sair por aí desmontando cabeças no porrete; afinal, a força do grupo era necessária na execução de tarefas de sobrevivência como caçar. Então, a conquista exigia o atiçamento de outros sentidos, sendo a visão o principal. Como disse Da Vinci, nada como o ruidoso silêncio da troca de olhares.

Acho que o mundo anda muito barulhento. É interessante, às vezes, exercitar o poder do silêncio. O poder do olhar é forte. Experimente.