O talentoso sapateiro Neso relembra o título que conquistou pelo Caxias: Campeão Catarinense de 54

Eufrásio Pereira de Mira vive entre as lembranças dos campos de futebol e o trabalho diário na sapataria do bairro Guanabara

Fotos Rogério Souza Jr./ND

Maria, a eterna namorada, junto com o marido: uma relação que eles nem lembram mais quanto tempo faz, mas está prestes a completar sete décadas

Revirar o improvisado arquivo de fotos, muitas delas já reproduzidas e ampliadas, é um prazer para Eufrásio Pereira de Mira. Ali estão imagens dos campos de futebol e dos times nos quais ele jogou, conhecido como Neso. “Faz 60 anos que fui campeão catarinense”, orgulha-se, mostrando a foto do elenco do Caxias F. C. já com as faixas de campeão catarinense de 1954 – mesmo ano em que o clube adotou o pinguim como mascote e ganhou o apelido “Gualicho”, nome de um cavalo preto com mancha branca, papão de páreos nos hipódromos brasileiros.

Recentemente, a reportagem do ND voltou à sapataria do Mira, no Guanabara, cinco anos depois da primeira entrevista – o Perfil do sapateiro, devidamente emoldurado, está pendurado logo na entrada. Desta vez, ele está usando a camisa do JEC, ansioso pela final do campeonato, que acompanha pela televisão. “Me deu uma artrose no joelho, e é difícil ir à Arena”, justifica, mostrando a perna direita enfaixada.

Agora, como há cinco anos, a entrevista é constantemente interrompida para que o sapateiro atenda os fregueses que não param de entrar, trazendo sapatos e tênis para consertar. “Esse fica por 5 pilas, pode pegar amanhã cedo. Ah, quer pagar adiantado? Então já fica pronto hoje no fim da tarde”, diz Mira, entregando o troco ao cliente que trouxe um tênis para consertar.

Outra presença constante na sapataria, como uma segurança particular, é a cadela Perla, “o único cachorro que ri”, como garante o ex-meia do Caxias. Logo em seguida chega Maria, a companheira inseparável há 68 anos. Surgem controvérsias quanto à data do casamento. “Foi logo após a Segunda Guerra, em 1947”, informa o marido, nascido em 15 de maio de 1926. “Que nada, faz 68 anos que aguento ele”, corrige Maria, nascida Cidral, em 19 de junho de 1928. “Isso aqui era caminho de roça, tinha só uma vendinha ali adiante”, relembra Maria, olhando pela janela para o bairro Guanabara, onde nasceu e foi criada. “Meu pai era carroceiro da Buschle & Lepper, e eu trabalhei numa fábrica de celulóide”, lembra, provavelmente se referindo à Fábrica de Celulóide João Hahmann. Foi justamente na época da fábrica que Maria conheceu Neso.

Ele conta: “Além da sapataria, eu tinha uma barraquinha de garapa, onde o pessoal da fábrica fazia lanche. Ela era a mais bonita de todas”. O elogio não é cascata de marido apaixonado, e pode ser comprovado numa foto de Maria no esplendor da juventude. “Veja como ela era mesmo linda”, derrete-se a filha, também Maria, uma dos sete filhos do casal – de cinco anos para cá, a quantidade de netos aumentou para 17 e de bisnetos, para 18.

Arquivo Pessoal/ND

“Ela era a mais bonita de todas”, diz o apaixonado marido, sobre sua eleita

Lembranças dos campos

A trajetória de Neso pelos campos de futebol começou no juvenil do Caxias, em 1940, passando pelo Flamengo (clube que tinha sede social no Bucarein, onde hoje é o Círculo Operário), Floresta (o campo ficava onde atualmente se ergue o ginásio Florestão), Estiva e Santos da avenida Cuba. Em 1953 e 54 foi profissional, bicampeão catarinense pelo Gualicho. “Estas são as melhores recordações da carreira”, diz o ex-camisa 10, referindo-se ao bicampeonato. Já veterano, ainda jogou pelo time do Moinho (na época Samrig), onde trabalhou.

Assim como em setembro de 2009, ele está otimista com o JEC: “Vamos ser campeões!”.

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