Onda de homicídios em Itapoá é desafio para a polícia

Atualizado

A falta de provas e pistas que possam ajudar na identificação são o principal motivo para a demora na captura dos suspeitos de cometer os nove dos dez homicídios registrados este ano, em Itapoá, no Litoral Norte de Santa Catarina. Apesar das investigações avançadas, a localização dos autores ainda é um mistério para a polícia.

Nos últimos 11 meses, dez mortes foram registradas na cidade – Foto: Ricardo Alves/RICTV

Este ano, a cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, registrou dez homicídios em 11 meses, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado. O dobro de mortes violentas registradas na cidade em todo o ano de 2018. No ano passado, cinco pessoas foram assassinadas.

Para a polícia, grande parte das mortes está ligada ao tráfico de drogas, pois há na cidade pontos onde se tem grande concentração na venda de entorpecentes. Outro fator importante, que pode ter influência nos números, é o registro de uma “migração do crime na região”, segundo o tenente Richardson Bortolini Lima da Polícia Militar.

“Pessoas de outros estados, que estão envolvidos com esse tipo de crime, vêm procurando locais pequenos para atuar, o que acaba contribuindo para o aumento de ocorrências na cidade. Só para ter uma noção, foram cumpridos 53 mandados de prisão este ano por delitos cometidos em outros locais”, explica.

Divisa entre estados não está relacionada à dificuldade na captura

Apesar de grande parte das investigações estarem em estágio avançado, apenas o caso registrado no dia 23 de novembro terminou com a prisão dos suspeitos na autoria do crime. Ou seja, os outros nove homicídios ainda aguardam desfecho.

Itapoá é uma cidade litorânea situada na divisa entre Santa Catarina e o Paraná. Porém, para o delegado da Polícia Civil, Saul Bogoni Júnior, este fator não influencia na demora da captura dos suspeitos.

“A maioria dos crimes está relacionada com grupos que atuam na região de Itapoá e Joinville, então, nós acreditamos que, o fato da cidade estar na divisa, não é um fator que causa dificuldades na captura. O que mais atrapalha nas buscas é forma como os autores cometem o crime”, explica o delegado.

Segundo ele, como grande parte das mortes está relacionada com a ação de facções criminosas da região, a dificuldade na identificação se dá pelo fato de os autores estarem encapuzados no momento do homicídio.

Questionado sobre a possibilidade de que, após os crimes, os suspeitos tenham fugido para outros municípios, o delegado informou que não havia detalhes que pudessem confirmar a hipótese. A maioria das investigações segue em sigilo.

Em um dos casos, mãe e filha foram mortas a tiros – Foto: Ricardo Alves/RICTV

Com duas viaturas e poucos policiais, não há planos da PM para aumento do efetivo

Atualmente, segundo a Polícia Militar, o efetivo em Itapoá conta com duas viaturas: uma que atua 24 horas e outra que trabalha 12 horas. Ao todo, 25 policiais trabalham na cidade.

Mas, para a Prefeitura, o número ainda é abaixo do que é necessário para diminuir os números de criminalidade no município. Por isso, o executivo vem, nos últimos anos, solicitando ao Governo do Estado melhorias na estrutura do policiamento da cidade.

“Itapoá é um local com uma extensão territorial muito grande, o que acaba dificultando o policiamento. Por isso, a prefeitura vem fazendo diversas solicitações para o aumento e a melhora do efetivo, mas até o momento não tivemos retorno”, informou o secretário de Segurança Pública de Itapoá, José Antônio Stoklosa.

Além disso, eles alegam que estiveram no último mês em uma nova reunião com o comando da PM do Estado, justamente para tratar sobre a questão do efetivo.

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Em nota, o Comando da Polícia Militar de Santa Catarina informou que, no momento, não há planos para um aumento no efetivo de Itapoá. Porém, a polícia vem trabalhando em um convênio com o executivo para melhorias no atendimento.

“Basicamente, neste convênio, seriam acionados os policiais da reserva para atuarem em órgãos públicos da cidade, como Câmara e Prefeitura. Esse policiamento seria custeado pelo executivo. Porém, ainda não há planos de quando deve ser implantado”, explica Stoklosa.

Enquanto o efetivo não vem, para suprir e diminuir a criminalidade, a polícia também vem realizando operações de rotina na cidade, principalmente para o combate do tráfico de drogas.

“Apesar dos homicídios serem uma preocupação, a maior reclamação das pessoas são os constantes roubos e furtos que ocorrem na região. Por conta disso, estamos trabalhando com um preventivo forte para evitar todo o tipo de crime no município”, afirma o tenente Lima.

A reportagem também solicitou à Polícia Civil dados do efetivo na cidade, porém não obteve retorno até a publicação.

Apenas um crime teve seus suspeitos presos – Foto: Polícia Militar/Divulgação

Relembre os nove casos de homicídio em Itapoá:

  • Um casal foi encontrado morto no dia 23 de janeiro dentro de casa, no bairro Pontal. Segundo a Polícia Civil, o homem foi localizado na sala enquanto a mulher estava no quarto do casal. Ambos tinham 30 anos de idade e foram vítimas de disparos de arma de fogo. A identidade dos dois não foi divulgada e a suspeita é que a morte seria relacionada ao tráfico de drogas;
  • Em abril, um homem de 26 anos foi assassinado com um tiro nas costas na Barra do Saí. Segundo a PM, vizinhos teriam ouvido o momento dos disparos e ao verificar o que aconteceu, encontraram a vítima caída no chão. O tiro, segundo os peritos, teria perfurado o pulmão e o coração do jovem.
  • Também em abril, o corpo de um homem foi encontrado carbonizado em um lixão próximo a Estrada Cornelsen. Segundo a PM, a vítima que não foi identificada, aparentava ter entre 20 e 30 anos. A Polícia Civil também investiga o caso.
  • Em maio, um jovem de 22 anos foi encontrado morto com um tiro na nuca, na praia da Barra do Saí. Segundo a PM, o jovem não tinha passagens pela polícia. A suspeita é que ele teria sido executado.
  • No dia 31 de agosto, um policial reformado foi encontrado morto em um matagal em Itapoá. De acordo com a PM, o corpo estava às margens da Avenida Saí Mirim e tinha marcas de tiros no rosto e na região do abdômen. A vítima era natural do Paraná, mas vivia a aproximadamente um ano na região. Segundo testemunhas, a vítima seria usuária de drogas.
  • Em outubro, mãe e filha foram mortas com um tiro na cabeça. Ambas estavam em casa quando dois homens teriam arrombado o local e atirado contra as vítimas. De acordo com a PM, as duas teriam envolvimento com o tráfico de drogas. O caso continua sendo investigado pela Polícia Civil;
  • Na madrugada do dia 15 de novembro, um jovem de 26 anos foi morto com aos menos cinco tiros em Itapoá. De acordo com testemunhas, dois homens encapuzados entraram na casa da vítima e realizaram os disparos. Além disso, de acordo com a polícia, um dos suspeitos teria incendiado o local do crime durante a tarde. A Polícia Civil investiga o caso.
  • No dia 23 de novembro, um jovem de 25 anos foi morto a tiros em Itapoá. Segundo a PM, ele estava em uma casa com a família, no bairro Pérolas do Atlântico, quando foi abordado por um grupo de seis pessoas que atiraram em sua direção. Após o crime, o grupo fugiu em dois carros em direção ao Paraná, onde foram detidos. Um envolvimento com tráfico de drogas teria motivado o crime.

*Errata: em um primeiro momento a reportagem publicou que eram 12 policiais militares, porém o efetivo na cidade é de 25. Além disso, o número correto é 20 mil habitantes, segundo a última estimativa do IBGE e não 12 mil. 

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