Onde fica o beleléu?

Uma dúvida espreita a mente, vinda de um lugar obscuro e desconhecido, um reino de incertezas. Onde fica, afinal, o beleléu? Será que é lá na pequepê? Na casa do Carvalho? Lá na caixa-prego? Onde o Judas perdeu as botas? Na esquina com o quinto dos infernos? A dúvida se condensa em muitas outras. Seria o beleléu um lugar, de fato? Existente num plano físico, estruturado pelas grandezas da altura, largura e profundidade? O certo é que ninguém sabe, exata ou aproximadamente, onde fica o beleléu. Ficamos pela imaginação de cada um. 

Talvez o beleléu seja um vácuo no espaço e no espírito. Uma espécie de limbo onde habitam coisas boas e ruins. Um purgatório da mente para eximir o homem da culpa em não saber os lugares devidos das coisas. Um cemitério de guarda-chuvas perdidos. Um reino ordenado pelas desordens humanas. “Onde foram parar meus malditos óculos de leitura?”. “Cara, foi pro beleléu, esquece!”. O beleléu é uma bolha no infinito. Existe e inexiste ao mesmo tempo, se desfaz sem ao menos ser feito. 

Talvez seja um mundo paralelo criado para armazenar tudo o que não cabe no mundo real. É a válvula de escape, a desculpa esfarrapada, o lugar sem-fim, o problema sem solução. “Manda tudo pro beleléu e está resolvido!”. Mas as coisas não são tão simples. A perda de um objeto no beleléu pode ter desfechos terríveis. Talvez ninguém se lembre de um namoro casual que foi pro beleléu, mas a Gabriela não esquece até hoje o dia em que perdeu sua (primeira) Barbie. Apanhou do pai. 

O beleléu pode ser a lata de lixo ou o lixão da cidade. Pode ser o fim da rua, uma casa escondida lá no Quiriri, aquele escuro sinistro embaixo da cama, aquela pasta secreta no computador, o esgoto do banheiro, o ralo da pia, o porão da casa, o “puxadinho” cheio de tranqueiras lá no fundo do terreno… Se todas as coisas que já foram pro beleléu fossem devolvidas, onde você colocaria tudo? Seria um problemão, mas nunca se ouviu dizer que algo “veio do beleléu”. As coisas apenas vão para “lá”. Parece via de mão única: nada volta. 

O beleléu pode ser em qualquer ponto do Universo, mas é comum pensar que é sempre um lugar ruim. O Inferno, o Buraco Negro, a Caverna do Dragão, o Labirinto do Fauno, o Ventre da Baleia… Apesar das muitas metáforas, não se deve desprezar um mundo só porque o desconhecemos. Por outro lado, é alto o índice de professores de matemática, juízes de futebol, políticos, sogras e operadores de telemarketing que são mandados para aquele lugar. Imaginário ou real, o beleléu não pode ser ignorado. Se fosse Pasárgada, eu já estaria lá. Se fosse o Planeta dos Macacos, quem você mandaria?

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