Os filhos de Francisco

Preparo-me para a programação de filmes que chegarão em nossos cinemas, vendo, por meio dos trailers, o que de melhor está por vir. Pelo computador assisto traillers de ação e drama, violência e romance, ficção e terror.

Ação: chuva torrencial na área urbana da cidade inunda pela octogésima vez o Vale dos Desconhecidos, derrubando casas, soterrando histórias e baús, lembranças e jóias.

Drama: Este é uma continuação épica! Após a destruição da vila pela tempestade, na cena, o governante aparece com cara de quem nunca viu aquilo, e de braços cruzados! No trailler aparece a legenda: 5 anos depois! E o mesmo governante, surge aplaudido numa distribuição de bolsas-comédia.

Violência: Fugindo do estereótipo do atual cinema autoral, vejo uma senhora, sozinha e sem perspectiva, recebendo uma senha para atendimento de número 327. Para não fazer merchandising gratuito, o filme não mostra em que estabelecimento ela se encontra.

Romance: Presidente de centro-esquerda, caindo para as bordas da direita, namora o partido que tanto odeia, fazendo efeito e causa sobre a máxima de que “os opostos se atraem”, título inclusive do filme, apelidado antecipadamente de Não Sei; frase esta repetida centenas de vezes na história do filme.

Ficção:  70% do globo finalmente descobre que não vivemos só de bananas, que também temos planos de dominar o cosmos, que temos um astronauta brasileiro, um campo de lançamento chamado Alcântara e carros movidos a óleo de dendê.

Terror: Índios da região amazônica traficam diamantes e madeiras, mostrando cabeças brancas que, de tão inteligentes, os julgam irracionais ao ponto de serem mantidos em reservas, enquanto os mesmos desfilam em Rondônia, de celulares e calças Levi’s em picapes envenenadas.

Boquiaberto pela programação, me distraio apenas quando o apresentador do telejornal afirma que, dois dias depois de ser preso, o ex-governador aproveita o habbeas-corpus para tomar um drinque no Fasano, e a procuradora, ou juíza, com fisionomia de quem acabou de sair de um conto dos irmãos Grimm, espancava a criança que a “bruxa Grimniana” tanto queria adotar! Fico imaginando os institutos de pesquisa entrevistando a massa.

Adentrando em minha ótica desapaixonada, percebo que realmente pertenço a um povo abençoado, que, como São Francisco de Assis, não se importa com o luxo e faz alegria em meio ao jejum e aos trapos. Um povo que se contenta com pouco. Que adora operações tapa-buracos, ao tempo em que tapa o sol com a peneira. Que acha que a presidente é maniqueísta, e não se atém que nenhum político conseguirá fugir do sistema político – o verdadeiro pai da facção.

Somos culpados por dar, mas, principalmente, por receber esmolas. Enquanto tivermos essa aceitação franciscana, o melhor que se tem a fazer, para poupar-se tempo, é, distraídos como eu, calar a boca, e voltar-se a programação televisiva, pensando se vale realmente a pena ver de novo esse canal.

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