Os políticos e a imoralidade epidêmica

Laudelino José Sardá

Jornalista e professor

Divulgação

O parlamentar que pratica corrupção está sendo infiel ao seu partido? Sim, a menos que o partido não queira o fim dos corruptos. Foi essa a conclusão dos que se surpreenderam com a justificativa dada pelo presidente nacional do DEM, Agripino Maia, de que não poderia requerer o mandato do senador Demóstenes Torres, acusado de corrupção com Carlinhos Cachoeira, porque ele não cometeu infidelidade partidária. Ora, infidelidade é sinônimo de traição, deslealdade, mas o DEM parece entender que roubar dinheiro público não significa ser infiel. Logo, Agripino não está preocupado com a imoralidade.

Os partidos vivem a persuadir a nação com falsidades, para justamente impedir que as verdades sejam sentidas e capazes de desencadear reações na sociedade. A nação é recheada de mentiras políticas que blindam desonestos e mercenários, e nada pode fazer porque o Congresso Nacional é quem legisla e, assim, os políticos determinam como eles querem o Brasil.

É tosco e agressivo o argumento de que o brasileiro não vota com consciência. E por acaso há consciência parlamentar equivalente ao peso da sua obrigação ética com a nação? E a legislação brasileira é boa? Não saberia afirmar, mas é improdutiva e frustrante a lei que, aparentemente severa, é incapaz de castigar o corrupto. É comum o parlamentar defender, da tribuna, a justiça, como bem fantasiava Demóstones, mas nenhum deles treme diante das leis. Haveria outra razão senão a impunidade?

Vereadores, deputados e senadores aumentam seus próprios salários, criam vantagens pessoais, misturam remuneração de mandato com o de cargos do executivo, simulam viagens e têm mais de dezenas de funcionários por parlamentar. Basta acessar a página da Assembleia Legislativa (SC) para constatar o número de servidores lotados em cada um dos gabinetes. Foi por culpa do general ditador Castelo Branco que os vereadores passaram a ganhar salário. Antes eram voluntários, determinados a ajudar a sua cidade. Hoje, há vereador recebendo mais de R$ 13 mil por mês, em meio ao caos social e urbano. Não há dúvida de que o legislativo é importante à saúde da democracia, só que está possuído pelo fisiologismo epidêmico.

A fragilidade dos partidos decorre da total ausência de substância ideológica. Os horários dos partidos na tevê acabam ensejando momentos de neurastenia, em que o cidadão ri por não acreditar no que ouve e vê: o retrato da decadência política. “Líderes”, a exemplo de Carlos Lupi, Roberto Jefferson e outros, são as molduras de suas legendas, recheadas de mentiras, futilidades e cosméticos, em tentativas hipócritas de atrair a atenção dos cidadãos cansados de guerra. Millôr Fernandes dizia: “viva o Brasil, onde o ano inteiro é primeiro de abril”.