Outrora, agora

Pegar as coisas boas e adaptá-las aos nossos tempos. Sentir novamente alguns aromas e gostos; rever cenas; voltar no tempo sem entrar numa máquina, só em adaptações

E que tal, meu caro Görresen, viver o passado agora?

A questão vem a propósito da crônica do colega de espaço Hilton Görresen, acerca das reminiscências, de reviver o passado, e de quanto de graça se perderia. Não posso deixar de concordar com quase tudo que foi escrito. Afinal, se hoje tenho saudade de outrora, creio que mais se deve ao fato de estar chegando aos sessentinha do que pelo modus vivendi dos sessentas (anos 60). Quem, na última curva dos cinquenta, não desejaria ter novamente seis ou sete aninhos? Claro que não gostaria de reviver as insuportáveis dores de barriga de antanho, provocadas quase sempre pela precária higiene de um tempo sem água tratada, sem esgoto sanitário, sem fiscalização… A água vinha do poço, e do balde direto pra caneca. Íamos lá fora, na casinha. Banho era de coxo. Não havia geladeira. E dá-lhe bálsamo branco!

Mas, repito: que tal viver outrora agora? Pegar as coisas boas e adaptá-las aos nossos tempos. Sentir novamente alguns aromas e gostos; rever cenas; voltar no tempo sem entrar numa máquina, só em adaptações.

Por exemplo: ainda assisto toda sexta-feira a um episódio da série “Perdidos no Espaço”. Lá nos anos 60, assim que nossa casa foi a segunda da rua a ter televisor, o seriado estava no auge. Numa distante sexta-feira, 20 horas, quando começou o primeiro capítulo a que assistíamos, creio que chegava à metade da primeira temporada. Logo no início, o Dr. Smith “trabalhava” arduamente, tentando tirar uma soneca, quando uma engenhoca alienígena lhe pregou um tremendo susto. Eu, meu primo e meu diadek nos apegamos de tal forma ao grudento seriado, que ansiávamos pela sexta-feira, quando às 8 da noite em ponto as Lojas Madison anunciavam o horário que patrocinavam (eram tempos de um único patrocinador por programa). Meu avô avisava: “Vai começar Madison”.

É claro que hoje o seriado não me desperta a mesma emoção juvenil. A precariedade da produção é óbvia. Mas, ainda assim, me divirto, revivendo as sextas-feiras de outrora. A sala silenciosa, os três fiéis telespectadores prendendo a respiração a cada aviso de “Perigo! Perigo!”. Hoje assisto no monitor do computador, num site dedicado a antiguidades. Reservo o final da tarde de sexta. Basta começar, com a tradicional frase “…na semana passada, como bem recordam…”, e me transporto para nossa sala na rua do Seminário, ocupando uma das confortáveis poltronas, vidrado no velho Semp preto-e-branco, de vez em quando precisando ajustar a imagem que insistia em correr pros lados ou na vertical. Hoje assisto, desde a segunda temporada, em cores. Detalhe: ainda que deteste ver filmes dublados, as séries eu faço questão de assistir do jeito que via na época, o Smith sendo dublado pelo inesquecível Borges de Barros (o Mendigo da velha Praça, lembra?).

Pra completar o clima de outrora, só falta ter por perto um copão de capilé. Era o que mais gostava para ajudar a digestão, após uma janta com ovo frito, linguiça e pão. Aliás, outra boa dica pra reviver outrora agora. Ovo, linguiça e pão encontram-se facilmente; claro que não é o mesmo ovo que acabávamos de retirar debaixo da galinha, o pão que a baba fazia no forno de tijolo e a linguiça fresquinha da venda do Evaldo Treml. Adaptemo-nos, ora. E vivamos o outrora, agora.