Pais e alunos lamentam o anúncio de greve dos professores da rede estadual de Santa Catarina

As opiniões se dividem na maior escola pública do Estado, porém a maioria entende que o governo deve atender as reivindicações da categoria

Janine Turco/ND

Kátia Coutinho Campo vai precisar deixar as duas filhas com a avó

O anúncio de greve feito na assembleia estadual realizada na terça-feira (17) pelo Sinte-SC (Sindicato dos trabalhadores em Educação de Santa Catarina), deixou pais e alunos preocupados mais uma vez. Apesar de ver a história se repetir, a maioria não ficou surpresa com a notícia. No IEE (Instituto Estadual de Educação), a maior escola pública estadual de Santa Catarina e da América Latina com 4.900 estudantes, os alunos contam que desde o início do semestre os professores já alertavam sobre a possibilidade de greve no caso de não haver acordo com o governo.

A greve deve começar a partir de segunda-feira, mas na manhã desta quinta (19), os professores do IEE paralisam as atividades das 9h15 até 10h15 para discutir sobre a adesão à greve e as próximas ações. No ano passado, cerca de 380 mil estudantes da rede estadual de ensino ficaram sem aula por 62 dias.

A professora de inglês, Tatiana Passaga, 47, se diz cansada e após 29 anos trabalhando em sala de aula pretende abandonar a profissão para estudar Direito. Ela quer se aposentar “com saúde sem precisar ficar contando moedas”. “Amo, sim, o que eu faço, mas não dá mais para suportar isso. Também não queremos greve, mas não tem outro meio, é uma necessidade. Já ouvi gente dizendo que professor é malandro, não quer trabalhar, mas eles não sabem o quanto estamos cansados de buscar uma solução”, desabafou Tatiana.

Outro professor, que não quis se identificar, afirmou que enquanto o docente não for valorizado será impossível melhorar a qualidade de ensino. “Ninguém mais quer dar aula por isso, não há condições de trabalho, não temos estrutura”, reclamou.

Estudantes lembram que a greve do último ano não resolveu o problema

Os pais e alunos dividem opiniões, mas a maioria entende que a situação só chegou neste ponto por causa da falta de atenção e investimento do governo. A técnica de enfermagem, Denise Maria Xavier, 47, concorda com a greve apesar do transtorno. “A classe não é valorizada. É ruim, porque nossos filhos perdem aula e a gente tem que se virar. Ano passado eu levei ela para o trabalho comigo, mas se os professores não pararem nada muda”, opinou.

Para Dalva Regina Crepaldi, 43, que tem duas filhas na terceira série e terceiro ano do ensino médio, os professores deveriam pensar em outra forma de protesto que não interferisse nas aulas. “Ano passado foi difícil com a pequena, pois ela estava em fase de alfabetização. Este ano o problema maior vai ser com a mais velha que precisa estudar para o vestibular”.

Kátia Coutinho Campo, 23, vendedora, entende a situação dos professores, mas lamenta porque suas filhas são prejudicadas. Ela cobra uma ação mais efetiva da APP (Associação de Pais e Professores) e se houver greve precisará deixar as crianças com a avó. “Em 2011 disseram que fizeram reposição de aulas, mas minha filha teve na verdade vários passeios e festinhas na escola, aula mesmo, não teve como deveria. Queremos uma educação eficiente, uma APP efetiva, que também se manifeste em favor dos alunos”, reivindicou Kátia.

Os alunos do primeiro ano também estavam descontentes e questionando a validade da greve. “Acho injusto com a gente, mas é uma responsabilidade que o Estado deveria assumir. Os professores têm que lutar, mas a greve do ano passado não resolveu, não sei se agora vai mudar”, disse Dakny Bassedone, 15. “Se o governo diz que não vai negociar enquanto eles estiverem parados e os professores dizem que não voltam se não tiver negociação, onde vamos parar? Como a gente fica nesta história?”, indagou Luiz Antonio Costa, 15. 

Thyago Henrique Nascimento, 17, cursa o terceiro ano e pretende prestar vestibular para psicologia no fim do ano, mas já sabe que para passar vai precisar se esforçar mais do que o habitual. “Hoje três professores já confirmaram que vão fazer greve. Não teremos aulas de matemática, que pra mim é uma das mais necessárias. O jeito vai ser estudar em casa e em grupo com os amigos, para não esquecer o conteúdo. Infelizmente não há o que fazer”, lamentou Nascimento.

+

Notícias