Pequeno ensaio sobre a leveza

Tem-se evocado a leveza como atitude necessária e radical contra a dura névoa desses dias líquidos, contra o fardo bem amarrado do cotidiano, a persistente bigorna que atrapalha o sono e nos faz tropeçar na corrida sem linha de chegada pelo sucesso. Tem-se clamado por dias mais azuis e mais claros nos fins de semana e que a angústia ao menos seja espalhada pelo dorso dos anos e não seja um poço aberto numa segunda-feira sem fim. Que haja leveza nas palavras – do cumprimento ao sermão –, no afago, no sexo, no erro e no grito. Que ao menos haja pausa entre uma luta e outra e as noites não sirvam apenas para reparar as feridas da batalha. 

Mas que os fracos não se enganem. Que a leveza não é tempo bom e claridade. Nem aragem de vento, ausência de cores tristes ou ar anestesiado de peso e balas perdidas. Não é fragilidade, nem pureza, nem temor. Nem mesmo é o intervalo entre duas dores iguais, um domingo para se renovar esperanças, aquele momento raro que os olhos sossegam após um susto. A leveza não é uma pena flutuando com lemes invisíveis. A pena é leve porque voa mesmo alijada de corpo, carne e coração. É dessa coragem, desse mistério, dessa inexplicável condição que é feito o maciço da leveza, onde repousam delicadezas das mais profundas espessuras. 

O pássaro renunciou o voo para plumar liberdades tal qual a árvore se despiu das folhas para agasalhar o chão e semear novas sombras. Houve morte e luto, luta e sangue, dor e espinho. A leveza não é um balão colorido nem a débil bolha de sabão. A leveza está na força do pulmão, na nascença do fôlego, na explosão do ar na redoma da garganta. A leveza é, antes de tudo, uma potência, até chegar a ser o próprio nervo da fé entre os ossos, a farpa do arame que nos protege, a vértebra que sustenta todas as nuvens que criamos. A leveza está no estômago das rochas, alimentadas por conchas e corais, escamas e naufrágios. A leveza está na arrogância dos barcos que desafiam o mar. Está na ilha que abdicou ser continente para ter a nobreza das tempestades secretas. 

Não deseje leveza aos fracos, portanto. A leveza é uma estranha grandeza para os fortes, mesmo que o forte desconheça os próprios arrimos. Aos fracos, deseje a beleza do fogo, até que os dias amanheçam em vulcão numa estação propícia para o plantio de temporais. Registre-se que há, no entanto, uma leveza singular na fraqueza. Aquela da fome e do perfume. Aquela do impulso, do espanto e da pétala. Aquela da sede, da flor e do desejo de eternidade – essa a leveza mais pura de Deus, a fraqueza mais divina dos homens.

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