Perdas no campo preocupam produtores catarinenses

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Um dos setores do agronegócio que mais depende do agrotóxico é o da fruticultura. Na maçã, por exemplo, os defensivos agrícolas podem representar mais de 40% do custo de produção.

Epagri e Cidasc acompanham a cadeia produtiva e fiscalizam os campos catarinenses – Divulgação/ND

Sérgio Neres da Veiga, coordenador de Extensão em Fruticultura da Epagri, cita o exemplo da mosca das frutas, um inseto que causa muito prejuízo para quem produz pêssego, maçã e uva. Segundo ele, embora tenha alguns métodos alternativos, como isca, armadilha e monitoramento, em algum momento será necessário empregar o uso do defensivo químico. “Em um dos processos, a quantidade de moscas que fica retida na armadilha indica a hora certa para aplicação, o que torna o uso mais racional”, diz.

O especialista observa que embora tenha diminuído o volume de agrotóxico empregado nas diferentes culturas no Estado, ela ainda é a única forma de combater algumas pragas e doenças. “O que é preciso, nesses casos, é orientar o produtor e fiscalizar para que ele aplique o defensivo da maneira correta, no tempo certo. Se tudo for seguido à risca, o impacto é ínfimo na população e em quem aplica”, comentou Sérgio Neres.

Desse raciocínio surgiu a ideia da criação de um centro de treinamento para capacitar aplicadores, uma parceria entre Cidasc e Epagri. O programa, que deve ser implantado em Videira, ainda está na fase de projeto para arrecadar recursos. Até lá, programas como o Alimento Sem Risco, que monitora o índice residual nos alimentos, e a própria orientação da Epagri e fiscalização da Cidasc, devem garantir o controle da aplicação dos agrotóxicos.

Uma lupa sobre o uso de defensivos

Distante das questões fiscais relacionadas ao agrotóxico, a Epagri e a Cidasc são os braços do Governo do Estado de Santa Catarina no acompanhamento da comercialização, utilização e busca por alternativas ao emprego do defensivo agrícola.

Produtores temem pelo pior com a cobrança dos impostos – Divulgação/ND

Gestor da Divisão de Fiscalização de Insumos Agrícolas da Cidasc, Matheus Fraga não acredita em uma transição de cultura a curto prazo que abra mão do agrotóxico, por conta do surgimento de novas doenças e pragas. “Aceitando esta realidade, podem ser feitos investimentos em pesquisa, na orientação dos produtores para aplicação correta dos produtos e, na fiscalização”, lista ele.

Desde junho, a Cidasc opera um sistema totalmente informatizado que controla uma cadeia com 900 estabelecimentos autorizados para a venda, 110 profissionais, entre engenheiro agrônomo, florestal ou técnico agrícola, e 180 mil propriedades. “Conseguimos saber quanto há no estoque, para quem está sendo vendido e a cultura em que será aplicada”, diz.

Além de controlar a emissão de 1 milhão e 200 mil receitas somente no último ano, a Cidasc realizou cerca de 5 mil ações em propriedades e estabelecimentos, o que resultou em mais de 300 infrações.

Lideranças unidas

Sem alternativas do Governo do Estado de Santa Catarina para derrubar a aplicação de 17% de ICMS sobre o preço do agrotóxico, o segmento do agronegócio nem pode comemorar o ótimo desempenho no primeiro semestre de 2019. O setor apresentou crescimento de 21% nas exportações, em relação ao mesmo período do ano passado, liderando a balança comercial do Estado. A pecuária e a agricultura foram responsáveis por 70% do valor total comercializado fora do país.

Ramificada em cadeias produtivas que contemplam todos os catarinenses, o sentimento de ingratidão por parte do Executivo sensibilizou outros segmentos, que temem um efeito cascata com inflação, êxodo rural, inadimplência, entre outros cenários.

Segundo a Faesc, a estimativa é de que haja um aumento de até 25% no preço de alguns produtos.

Produtores temem pelo pior com a cobrança dos impostos

Mário Grisoti, 57 anos, planta soja e milho em duas propriedades no município de Palmitos, no Oeste de Santa Catarina, que somadas em área possuem pouco mais de 18 hectares. Duzentos e cinquenta quilômetros dali, em Campos Novos, Lucas Chiocca, 39 anos, cultiva em 2 mil hectares, todos os anos, soja, milho, feijão, trigo, aveia, centeio e azevém.

Embora diferentes no tamanho, ambos afirmam que não conseguiriam produzir sem a utilização dos defensivos agrícolas, mesmo o produto representando entre 15% (Mário) e 40% (Lucas) da produção. “Quem diz que dá para fazer sem agrotóxico, nunca pegou no cabo da enxada. As pragas e doenças aumentaram muito e não tem o que fazer. A população cresce cada vez mais e os produtores são chamados a produzir. Sem o uso do defensivo, a produção é toda perdida e o mundo passa fome”, diz Grisoti.

Engenheiro agrônomo, Chiocca tem participação efetiva na cooperativa local e é vice-presidente da Pró Soja de Santa Catarina. Ele observa que falta compreensão do Governo para as práticas em relação ao agrotóxico no Estado.

“Eu vejo muito produtor com 100, 300 hectares, em que ele mesmo aplica o agrotóxico para usar o mínimo possível e ter um pouco mais de ganho. Este imposto só vai quebrar produtor, tirar a competitividade de Santa Catarina no mercado, aumentar o êxodo rural e encarecer o produto na gôndola”, diz Lucas, que estima em 50% o aumento no pacote de feijão.

Ambos produtores ainda não sabem como farão para se adequar à cobrança de 17% de ICMS sobre os defensivos agrícolas, mas já se arrependem de ter apoiado o governador Carlos Moisés da Silva para o cargo. “Me sinto culpado por ter escolhido alguém que não deixou isso claro na campanha”, concluiu Lucas.

Posicionamento das entidades

“Fazer incentivos para a produção de alimentos saudáveis, não é taxando os defensivos/insumos agrícolas, mas sim criar projetos e programas incentivando e mostrando os benefícios para o agricultor e os consumidores. A Fetaesc sempre incentivou a produção orgânica, mas nunca criminalizou a produção convencional. Precisa sim é trabalhar na mudança da matriz tecnológica, para a redução dos defensivos agrícolas”.
Presidente da Fetaesc, José Walter Dresch

“A posição do Governador não tem sustentação na realidade, nem na ciência. É fruto – como ele tem manifestado – de uma convicção pessoal. Mas, também é reflexo da ignorância sobre o universo rural barriga-verde e do mais profundo desconhecimento de um dos setores que, nas últimas décadas, tornou-se a locomotiva da economia estadual”.
Presidente da Faesc, José Zeferino Pedrozo

“Ele (o governador) não está considerando o quanto vai aumentar o custo dos alimentos com a tributação. Parece uma decisão sem orientação técnica, para se diferenciar dos outros Estados. Mas não sei se ele mediu bem as consequências”.
Diretor-executivo da Fecoagro, Ivan Ramos

“O presidente da Fecam, Joares Ponticelli, reforça ainda que mudanças nos incentivos fiscais do setor agrícola poderão causar graves impactos na cadeira produtiva da economia catarinense, causando retrocesso econômico e impactos sociais, como a evasão das famílias do campo”.
Nota da Fecam

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