Personagens e personalidade urbana em Florianópolis

A identidade de uma cidade vai muito além da memória representada pelas edificações históricas ou manifestações culturais

A identidade de uma cidade como Florianópolis transcende a questão patrimonial, da memória física baseada em edificações históricas; ou das manifestações culturais de raiz, como o boi de mamão, a festa do Divino, a procissão do Senhor dos Passos, entre outras. Há também os personagens que marcam presença nas ruas, nas rodas, confrarias, cafés, botequins e outros ambientes. São eles, nativos ou não, que contribuem para formar a personalidade da cidade.

A morte recente de Carlos Alberto Silva, o “Homem do Chifre”, propagandista que ilustrou durante mais de 20 anos as ruas da capital catarinense, Balneário Camboriú e também Criciúma – onde era conhecido como Pavone, nome da loja de calçados que divulgava –, causou comoção pelas circunstâncias em que ele vivia ultimamente, dependente químico em estágio avançado e irreversível.

 Carlos Alberto fez história nas ruas centrais e morreu em consequência da dependência química. Registro de 6/12/2014 - Carlos Damião
Carlos Alberto fez história nas ruas centrais e morreu em consequência da dependência química. Registro de 6/12/2014 – Carlos Damião

Pernambucano, ele teve momentos de glória graças ao dinheiro que arrecadava entre lojistas e políticos, abordados em qualquer lugar, sem cerimônia. A ex-deputada Angela Albino lembrou um episódio no calçadão: ela andava com pressa, a caminho de um compromisso, quando seu trajeto foi interrompido pelo propagandista. Para variar, ele pediu uns trocados. Ela negou e seguiu seu rumo. Carlos Alberto, megafone em punho, encontrou uma maneira de se vingar e proclamou em alto e bom som:

– Como tu estás gorda, hem, Angela Albino?

Logo ela, que sempre foi esguia.

Vendedores e bordejadores

Carlos Alberto fez história em Florianópolis, como dezenas de outros personagens típicos das ruas. Há inúmeros exemplos. Da memória, surge de pronto a figura de Lourdes da Loteria, uma mulher que abordava as pessoas com uma maneira muito peculiar. “Bilhetinho, engenheiro?”. Ou “bilhetinho, doutor?”. Ou “bilhetinho, deputado?”. O perfil profissional dos abordados nunca correspondia ao que ela definia na hora. Lourdes esgueirou-se entre as rodas do centro de Florianópolis durante 20 anos ou mais. Morreu tragicamente, em consequência de um incêndio que atingiu sua residência.

Havia também na Felipe Schmidt um figuraço, vestindo macacão, que rodava pela rua entoando com voz de trovão “O Glôôôôbo”, o jornal O Globo vendido ao público leitor ávido por notícias e análises, nuns tempos em que ninguém sonhava com internet e redes sociais.

Roberto Carlos, um rapaz moreno bem arrumadinho, com pinta do cantor da Jovem Guarda; outro Roberto Carlos, também conhecido como Sobrinho, que aborda políticos, autoridades e juízes chamando-os de “tios” e pedindo dinheiro; Lidinho, o passista que faz performances incríveis, são personagens populares do cotidiano na atualidade.

Nossa gentil informalidade

Sem comparar com as figuras mais populares, comuns ou incomuns, é possível recordar personalidades que também marcaram as ruas centrais da cidade. Entre os falecidos, Dakir Polidoro, da Hora do Despertador, Wilmar Pacheco (doutor Pitanga), Seixas Neto, nosso homem do tempo, Senador Alcides Ferreira, o médico J. J. Barreto, o professor de inglês Athos Jacinto, os colunistas Miro e Beto Stodieck, o compositor e cantor Luiz Henrique Rosa, a sambista Nega Tide, o jornalista Manoel de Menezes, o escritor Jair Francisco Hamms, a miss Layla Freyesleben, o rebelde Amilton Alexandre (Mosquito), entre tantos e tantas que souberam flutuar na gentil informalidade de Florianópolis, entre o Ponto Chic, o Mercado Público, a Confeitaria do Chiquinho e bares como o Cristal, Meu Cantinho, Roda, Kibelândia, Roma, Petit.

Construindo os perfis humanos

Aldírio Simões e Chico Amante no Mercado Público: pesquisadores da “alma” da cidade - Acervo Carlos Damião
Aldírio Simões e Chico Amante no Mercado Público: pesquisadores da “alma” da cidade – Acervo Carlos Damião

Dois pesquisadores ajudaram a construir a identidade dos personagens de Florianópolis: Aldírio Simões e Francisco Hegídio Amante, o Chico Amante. O primeiro, além de contar histórias (verdadeiras ou exageradas), escreveu um clássico da crônica local: “Retratos à Luz da Pomboca”, editado em 1997. São 74 perfis de personalidades marcantes.

Chico Amante escreveu as obras “Somos Todos Manezinhos I” (1997) e “Somos Todos Manezinhos II” (2007). A tônica dos livros é a mesma de Aldírio, valorizando figuras locais que se destacaram em inúmeras atividades, do comércio à política, da cultura à medicina ou ao magistério, do serviço público ao voluntariado ou ao esporte.

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