Personagens reais – 3

Toda semana ela vinha e me contava uma história. Lembro bem a primeira, sobre uma ladra de flores, obcecada por jardins e por canarinhos. Isso acontecia toda sexta-feira, depois de ser hasteada a Bandeira. Naquela época a gente cantava o hino em posição de sentido. Metade ficava com preguiça e a outra metade ficava orgulhoso, de braço bem esticado cantando bem forte o Pátria Amada! Pois bem, ela vinha toda semana e contava histórias pra todo mundo da sala, mas eu, egocêntrico, as fazia de minhas. Seu nome, Ivone, responsável pela Biblioteca da escola Ana Maria Harger. Não sei quantos anos tinha, mas se era adulta e eu criança, então já era velha pra minha idade! Lembro dela contando com devoção o porquê da girafa ter um pescoço tão comprido. Ainda hoje, tantos anos depois, reconto essa fábula para pequenos e velhos. Foi ela a responsável por ler o meu primeiro poema, e creio ter sido ela a primeira a acreditar que eu realmente era poeta. Foi ela que me mostrou as histórias bíblicas, numa época em que falar em Deus na escola, ainda não era errado!

Quem diria, anos depois, fui conhecer outra como Ivone, e de nome parecido, Alcione! Mas daí já era adulto, e pasmem, ela me fez grande! Vestida de Emília, a vi pela primeira vez na Biblioteca Pública Municipal, com ela virei parceiro, e, voluntário, fui descobrindo a arte em mim. Tempos depois ela virou coordenadora, e eu, funcionário público. Mesmo gerenciando, ela continuando ensinando a palavra contada, a beleza da rima, a delicadeza da fábula, e nos engravidou e histórias sobre índios e sobre negros, sobre infância e sobre felicidade. Hoje ela deixou a biblioteca depois de 12 anos, eu ficarei com saudade, mas sei que ela vai voltar, porque ela é página dali, e não será um palimpsesto onde escreverão coisas em cima, ela será sempre uma obra prima a marcar a história daquele lugar.

Escrevi essa crônica motivado pelo desejo de homenagear, por meio dessas duas mulheres, essa prestimosa função que tem as contadoras de histórias, as professoras que promovem o texto, as pessoas da escola que nos oferecem as fábulas. Hoje temos centenas de profissionais no mercado. A Dona Ivone, que ainda deve morar no bairro Guanabara, é a síntese pra mim, do que são hoje as atendentes de biblioteca, as animadoras da leitura, os professores que se propõe a contar, e contar palavras é uma delícia! Aproveito para beijar a testa com a palavra Amor de Gilmara Santos e Luzia Taglianetti que contam histórias comigo, e dizer a Alcione que te espero de braços abertos para praticarmos nossa profissão de fé pela literatura.

Obrigado contadores, pessoas que se despem do adulto e deixam à mostra a criança dentro delas. E fazem de lenços, espaçonaves; e das vozes delas, vozes alheias; e de um pingo uma tempestade; do sonho um algodão-doce; e da gente uma eternidade! Elas me viram do avesso! E do avesso, descubro que sou bem mais interessante que por fora, porque todos os livros que me mostraram cresceram livros em mim, e agora, tudo o que eu li, ali se esconde. É como se fosse um livro escondido dentro do outro.

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