Polícia justifica atraso em inquérito sobre denúncia de estupro em beach club de Jurerê

Atualizado

Após a blogueira de moda Mariana Ferrer, 22 anos, revelar em sua rede social que foi dopada e estuprada em um beach club no Norte da Ilha em dezembro do ano passado e criticar a atuação da polícia, uma vez que o inquérito não foi concluído cinco meses após o crime, uma coletiva de imprensa foi convocada pela Polícia Civil com o intuito de esclarecer o andamento da investigação.

Cafe de La Music diz que está apoiando as investigações desde dezembro – Reprodução/ Instagram

A revelação da influenciadora digital, com mais de 180 mil seguidores, foi feita em uma publicação no Instagram na noite de segunda (20). A jovem denuncia que a polícia estaria protegendo o criminoso e o local do crime, Cafe de La Musique, por se tratarem de pessoas com poder.

“Depois que descobriram quem é o estuprador e qual o local do crime, o tratamento comigo e minha família mudou. É como se cada pessoa estivesse sendo corrompida e eles quisessem enrolar o inquérito para desistirmos de lutar por justiça. A sensação é de estar num filme de terror”, relatou a jovem.

O advogado do estabelecimento também esteve na coletiva de imprensa que ocorreu às 15h30 desta terça-feira ( 21) na sede da Secretaria de Segurança Pública. João Marcelo Schwinden de Souza disse que a casa “está apoiando as investigações” e que os responsáveis pelo estabelecimento só tiveram conhecimento do fato “após terem sido comunicados pela polícia”.

O relato da blogueira chama a atenção pelo requinte de detalhes. Ela inicia o depoimento dizendo que teve “a virgindade roubada” junto com os seus “sonhos”. Mariana denuncia que foi dopada por um estranho e que foi levada para um local do qual não tinha conhecimento até então, mas que seria conhecido como “matadouro” e que só pessoas “com muito dinheiro” teriam acesso. O advogado não comentou sobre o suposto local secreto.

A jovem tinha título de embaixadora da casa, ou seja, era considerada uma anfitriã, assim como outras garotas jovens. “Fui dopada e estuprada em um beach club dito seguro e bem conceituado da cidade, onde eu era embaixadora e pensava se tratar de um local idôneo, por isso aceitei o convite para trabalhar lá”, contou no texto publicado na rede social.

O que diz a polícia

Coletiva de imprensa ocorreu na sede da Secretaria de Segurança Pública – Polícia Civil/Divulgação/ND

Estavam presentes na coletiva de imprensa a diretora de Polícia da Grande Florianópolis, Eliane Chaves; o delegado titular da Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso), Paulo de Deus; e a delegada responsável pelo inquérito que também atua na Dpcami, Caroline Pedreira.

Os delegados contrapuseram a versão da vítima de que a polícia estaria “protegendo” o suspeito e a casa. A justificativa para a demora em concluir o inquérito, aberto em 16 de dezembro do ano passado, foi o atraso de um dos laudos periciais – o exame toxicológico – que, segundo o Instituto Geral de Perícias, depende de insumos importados e caros.

“O inquérito policial não tem um rito determinado, depende do que vai acontecer. As investigações podem se prolongar um pouco mais por conta de
um nome que precisa ser citado em depoimento, um laudo pericial que pode demorar um pouco mais. Tanto é assim que a Justiça nos deu mais 90 dias pra concluir a investigação”, declarou Eliane.

Sob a cortina do “segredo de justiça”, uma vez que trata-se de investigação de estupro e o sigilo é um pré-requisito para proteger a vítima, os delegados não deram detalhes do caso. Apenas confirmaram que há um suspeito e que ele mora em outro estado. Os advogados do suspeito, inclusive, já fizeram contato com a polícia, mas ele ainda não foi ouvido.

A polícia também não tem data marcada para ouvir o suspeito e não sabe se ele virá pessoalmente prestar o depoimento ou se será ouvido por meio de carta precatória na cidade onde reside. Os delegados não descartam a participação de outras pessoas e também não deixam claro se os laudos periciais – tanto o exame de corpo de delito quanto o toxicológico – são conclusivos.

“A investigação deságua em um suspeito. Mas existem outras linhas de investigação. É um inquérito de certa complexidade. Apesar do interesse na elucidação do fato, não podemos ser levianos. O crime de estupro causa um estigma muito grande, então, apesar de eu como mulher me sensibilizar com toda vítima de crime sexual, tenho que atuar de forma técnica”, respondeu Caroline.

Embora já tenha ouvido testemunhas, esteja sob a posse dos laudos periciais e imagens das câmeras de monitoramento da casa, a delegada responsável pelo inquérito afirma que as provas não são satisfatórias para indiciar o suspeito.

“Eu queria poder dar respostas imediatas, mas, no momento, não temos provas robustas contra quem quer que seja. Existem elementos de informação e circunstancias, fatos a serem apurados e pessoas que serão ouvidas. Garanto que terá uma conclusão”, completou Caroline.

No depoimento postado no Instagram, a vítima relata que não tem lembranças do agressor e que ele não se aproximou dela enquanto estava lúcida. A única bebida que comprou, afirma, foi uma dose de Gin.

A delegada não descarta a possibilidade de solicitar novos exames periciais. Outras testemunhas ainda devem ser interrogadas. Caroline não revelou quantas pessoas já foram ouvidas até o momento. O depoimento do principal suspeito deve ocorrer apenas no final do inquérito.

O delegado Paulo de Deus, que é titular da Dpcami, confirmou que o caso da Mariana não é isolado e que já investigou outros casos de violência sexual cujas vítimas foram dopadas ou abusadas sob o efeito de álcool em festas que ocorreram na mesma região, no Norte da Ilha.

Troca de delegados

A vítima reclamou ainda sobre a troca de delegados na condução do inquérito. “O primeiro delegado e escrivão saíram do caso. Entrou uma delegada e ela saiu de férias por 30 dias. Os depoimentos que dei foram todos deturpados, minha data de nascimento está errada”, diz um dos trechos do texto publicado por Mariana.

Segundo a polícia, o depoimento foi registrado em uma delegacia no Norte da Ilha. O delegado do bairro iniciou os procedimentos, mas encaminhou o inquérito para a Dpcami, que é especializada em crimes sexuais. Quem recebeu o inquérito na Dpcami foi o delegado Felipe Odara Rezende de Aquino, que, no meio do caminho, acabou sendo transferido para o Detran. Foi quando a delegada Caroline Pedreira assumiu a investigação.

O BO foi registrado no dia 16 de dezembro, um domingo. O estupro teria ocorrido na festa que começou na noite anterior (15). O laudo toxicológico que atrasou foi entregue à delegada em meados de abril. A vítima, segundo a polícia, foi ouvida mais uma vez por Caroline, quando o inquérito já estava na Dpcami. Ainda conforme a polícia, o depoimento foi acompanhado da psicóloga da unidade.

“Drogas do estupro”

Vestido utilizado na noite em que o crime ocorreu – Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

No texto publicado no Instagram, Mariana cobra uma resolução do caso ao mesmo tempo em que torna pública a angústia vivida ao longo desses cinco meses e os resquícios físicos e psicológicos deixados pela violência sofrida. Ela conta que após fazer o exame de corpo de delito, precisou tomar um coquetel de remédios para evitar doenças sexualmente transmissíveis.

“Os efeitos colaterais eram tão fortes que me faziam vomitar. Eu tinha que me forçar a aguentar (o medicamento) de duas a três horas (no estômago) para não cortar o efeito. Para isso, eu engolia meu próprio vômito”, descreveu.

A jovem também contou sobre os pesadelos que atormentam o seu sono e sobre as dores físicas que ficaram nos dias posteriores à agressão.

Mariana afirma que tomou apenas uma dose de Gin, cujo registro ficou em sua comanda, e que fez questão de comprar a bebida no bar da casa “por segurança”. No texto, ela fala sobre “droga do estupro”, também conhecida popularmente como “boa noite, Cinderela”.

“Que fique claro: uma pessoa que está dopada ou bêbada não tem condições de dar seu consentimento, ficando altamente vulnerável, por isso são chamadas de “drogas do estupro”. Não existe culpa para violência sexual”, destacou a vítima.

A polícia afirma que pretende concluir o inquérito dentro do prazo estendido pela Justiça, de 90 dias, que encerra em 11 de agosto.

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