Praticar o desapego é preciso

Em mais um dia de caos no trânsito, há quem associe a reforma da Hercílio Luz como uma solução para a mobilidade urbana de Florianópolis #sqn

Preciso perguntar qual o assunto do dia aqui em Florianópolis? Ora, se não é a tranqueira de hoje de manhã cedo provocada por mais um acidente na ponte Pedro Ivo Campos. Assim fica difícil encontrar outro assunto que não seja esse: somos reféns da falta de planejamento. Não se fez a conta certa levando em consideração o crescimento do número de pessoas que vem diariamente para a Ilha, do aumento no número de automóveis particulares e da fragilidade do nosso transporte público.

Dá até para dar um desconto para os motoristas envolvidos nos acidentes que detonam o caos matinal, ainda que em muitos casos a causa seja ou pura barbeiragem ou pura irresponsabilidade. Fico imaginando o estresse de quem entra na fila, que já é demorada normalmente, e custa a sair dela num dia como ode hoje. Nem um bom café na repartição nem um refresco na cantina da firma salvam!

No balaio de mais esse caos no trânsito de Florianópolis, uma coisa que não entendo é associarem a reforma e a posterior reabertura da ponte Hercílio Luz como uma ação fundamental para que se resolva o problema da mobilidade. Conta pro bonequinho, como diz o outro. A Hercílio Luz é um símbolo importante da cidade, mais do que um cartão postal, como já escrevi aqui. É forte o seu significado por ser a primeira ligação Ilha-Continente e de todo o avanço, crescimento e modernidade gerado por ela ao unir a cidade.

Flávio Tin/ND

Ponte não é a solução para a mobilidade

Mas daí a imaginar que a Hercílio Luz, com suas duas pistas, aberta para veículos leves, bicicleta ou apenas pedestres, seja no horizonte de Florianópolis ponta de lança na solução dos problemas de tráfego, é um pouco demais. Não será. 

Sou fã da ponte Hercílio Luz. E esta é a definição certa: fã. Fui e voltei muitas vezes a bordo do Fusca do meu pai, quando ainda era aberta ao trânsito. Passo fim de tarde na cabeceira insular admirando o conjunto da obra (Sol-Ponte-baía), escrevo sobre a Velha Senhora com frequência e ainda mantenho um álbum coletivo no Flickr para reunir só fotos da ponte. Tenho apego, mas em certos momentos, bate aquela sensação de que a nossa Ponte Velha já cumpriu sua missão – a verdadeira missão, que fique claro, e não a missão refletida no dinheiro envolvido em suas reformas.

É tanto rolo que dá realmente vontade de radicalizar e praticar o desapego 100%: esqueçam a reforma e um abraço. A imagem da ponte já está mais do que arranhada. Obrigado Hercílio Luz pelo empreendedorismo, mas é hora de partir para outra. Se preservá-la como se deve, com respeito também ao dinheiro público, não é ou nunca foi viável, paciência. Que sejam tomadas as medidas para evitar riscos de queda simplesmente ou se parte para o desmonte com posterior construção de uma outra obra que seja sim de “utilidade funcional” para o trânsito da cidade. Confesse: com todo respeito pela nossa história, não dá vontade de ver isso acontecer?

Do jeito que a ponte está, fica parecendo aquele resto de construção ou aquela caixa de fios, cabos e parafusos que a gente guarda em casa porque “um dia vai precisar”. E não precisa nunca. Um dia a gente vai precisar da Hercílio Luz para ir e voltar da Ilha para o Continente, do Continente para a Ilha. Só que não, né?

Sejamos honestos com a história da Hercílio Luz.