Preservação e fé caminham juntas em São Francisco do Sul

Peças do Museu de Arte Sacra são usadas pela igreja e pela comunidade os rituais da Semana Santa

Na noite desta Sexta-feira da Paixão, quando os fiéis levarem em procissão pelas ruas de São Francisco do Sul a imagem que representa o corpo de Jesus Cristo, estarão carregando uma peça de museu. Literalmente. A imagem do Senhor Morto, assim como o pálio que a protege durante a caminhada e diversas peças usadas no ritual fazem parte hoje do acervo do Museu de Arte Sacra de São Francisco do Sul, criado em 2013 para preservar peças que fazem parte da história da Igreja de Nossa Senhora da Graça, que remonta ao século 17. Mas nem por isso deixaram de fazer parte da vida da comunidade. Em ocasiões como a Semana Santa, por exemplo, as peças saem de seus expositores, voltam para a igreja e reassumem seu papel nos atos de fé. “Muitas peças ainda são usadas nessas ocasiões especiais”, revela o museólogo e diretor do museu, Giovanni Lemos.

Rogério Souza Jr/ND

Imagem do Santo de Chagas, um “santo de roca”, está no acervo

Aberto em maio do ano passado, o Museu Diocesano de Arte Sacra Padre Antônio Nóbrega reúne mais de 800 peças (cerca de 150 em exposição e o restante na reserva técnica) usadas ao longo dos últimos três séculos nos rituais litúrgicos. São alfaias (peças variadas de ritual), imagens, indumentárias litúrgicas, entre muitas outras peças, divididas em dois setores: o primeiro que retrata a missa e o segundo que enfoca as imagens e procissões.  “O museu é uma forma de conservar estas peças que inspiram as pessoas ao sagrado”, explica o padre Edson Alves Viana.

No acervo, constam indumentárias dos séculos 18 e 19, bordadas e pesadas, como era costume na época. “Um padre usava quase 20 quilos de roupa em cima dele”, afirma o museólogo, referindo-se aos momentos solenes. Em uma época em que as missas eram rezadas em latim e o padre ficava de costas para os fiéis e liam o evangelho, as sacras, com os trechos impressos , tinham um papel de destaque nas celebrações. No acervo do museu é possível ver um conjunto delas, de diferentes épocas e formas, algumas impressas em alto relevo.

Muitas das peças ainda estavam em uso até a abertura do museu e a comunidade ainda mantém com elas um vínculo afetivo – e de fé. Para retirá-las e colocá-las em exposição foi preciso fazer um trabalho de convencimento da necessidade de preservá-las, já que muitas são bem antigas e fragilizadas pelo tempo. Mas em ritos especiais, como os da Semana Santa, elas voltam para seus lugares originais.

A imagem do Senhor Morto, por exemplo, esculpida em um tronco só, toda policromada e datada do início do século 19, fica no museu durante todo o ano, mas na Semana Santa reassume seu lugar original, dentro da igreja. “As pessoas têm uma relação muito forte com estas peças. Elas entram na igreja e questionam: ‘tal santo não está mais na igreja’”, comenta Giovanni.

Algumas pessoas ainda vão ao museu, não para admirar o acervo e conhecer um pouco mais da história local, mas para rezar para seus santos de devoção, que agora estão em outro espaço. Um exemplo é a imagem de São Francisco das Chagas, um santo “de roca” (só tem a cabeça, os braços e os pés entalhados em madeira e pintados. O restante do corpo, que fica oculto pela vestimenta, não é esculpido) datado do início do século 19. “Alguns chegam e dizem: ‘Eu queria falar com o santo’. A gente respeita”, relata o museólogo. Ao afastar as vestes, é possível ver debaixo do manto várias fotos e bilhetes com pedidos de graças colocados pelos devotos.

A presença dos fiéis também foi importante para tornar o museu uma realidade. Giovanni lembra que o desejo de criar o espaço era antigo, vinha desde os anos 70 e teve um primeiro capítulo nos 80, quando o atual diretor de patrimônio, Carlos José Pereira, o Kiko, montou uma exposição para sensibilizar a comunidade para a necessidade de preservar o acervo (que muitos desconheciam) e a própria igreja, que com o passar dos anos e reformas foi sendo descaracterizada. A ideia, porém, ficou parada por anos.

Em 2003, houve a exposição “Arte sacra – um símbolo de devoção” e o projeto começou a ser montado. Em 2011, a exposição “Arte Sacra – a beleza que evangeliza”, novamente trouxe o assunto à tona. A partir de então foi feito o levantamento do acervo e montado o projeto atual, que foi viabilizado com recursos do Programa Monumenta, do Ministério da Cultura. Algumas das peças ainda se encontravam em uso. Outras estavam guardadas em um baú, sob os cuidados do Kiko e foram restauradas e colocadas em exposição. “Estavam em um baú que o Kiko guardava na paróquia”, Mas tão bem escondido que ninguém encontrava”, brinca o museólogo.

Arquitetura faz parte do museu
O museu, porém, é mais amplo que o acervo. Ele inclui o próprio espaço onde está sediado, nas salas laterais da Igreja de Nossa Senhora da Graça, uma área que ao longo dos tempos era reservada ao uso das ordens religiosas e de onde elas podiam assistir à missa – as duas laterais apresentam aberturas para o altar-mor. O museólogo Giovanni Lemos explica que a primeira das ordens a integrar o local foi a dos Jesuítas, a quem se deve a elevação da igreja a paróquia, em 1665. Nessa época, a igreja já existia, mas em proporções menores. A eles se seguiram a ordem Franciscana e as irmãs da Divina Providência. “O museu é composto não só do acervo com os objetos de arte sacra, mas também pela arquitetura, pela própria igreja e todo esse legado religioso”, define Giovanni Lemos.

Esta arquitetura revela as diversas épocas de construção da igreja, erguida em etapas. Logo na primeira sala de exposições chama a atenção a largura da parede do prédio principal, erguido no final do século 17 em pedra, barro, conchas e cal: 70 centímetros. Somente a segunda torre, a mais nova, construída em 1957, tem paredes de tijolos. Ao longo do caminho é possível ver a parede nova do altar (também em tijolos) e pintura-mural que ornamentava o altar por volta dos anos 30. Em outro trecho aparece a parede em taipa, da parte mais antiga da construção – de meados do século 17. Giovanni explica que o altar antigo era feito de taipa, com madeira armada. “O barro secou, mas a estrutura original se mantém. Este altar nunca foi mexido”, revela.

Na segunda sala, um “arcaz” em jacarandá, um móvel específico para guardar as alfaias religiosas, permanece no local. Pesado e feito em uma madeira hoje rara, não foi possível retirá-lo nem para restaurar e o museólogo estima que ele tenha sido montado no local.

Para quem quer conhecer
Museu Diocesano de Arte Sacra Padre Antônio Nóbrega de São Francisco do Sul
Onde fica: anexo à Igreja Nossa Senhora da Graça (praça dr. Getúlio Vargas, 180)
Quando: de terça-feira a domingo, das 8 às 17h
Quanto: R$ 3

Procissão do Senhor Morto
Sexta-feira da Paixão – 19h, com celebração na Igreja de Nossa Senhora da Graça, via-sacra e procissão do Senhor Morto

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