Primeira hidrelétrica de Santa Catarina está entregue à ação do tempo

Com mais de um século, a Usina Maroim, em São José, não tem planos de recuperação

Fotos Rosane Lima/ND

Prédio centenário está situado em local bucólico na Colônia Santana

Há quatro décadas seus serviços se tornaram desnecessários e suas turbinas foram silenciadas. Sem a atenção sequer de um zelador, a primeira usina hidrelétrica de Santa Catarina e a terceira do país, está à mercê do tempo e de vândalos. Enquanto projetos de revitalização e reformas não saem do papel ou da intenção dos gestores da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), a pequena hidrelétrica sucumbe à ferrugem, aos cupins e ao abandono.

O rio Maruim passa ao lado da usina desativada, no bairro Colônia Santana. Há muito suas águas não são mais represadas para garantir iluminação nas casas de moradores da Grande Florianópolis. Rachaduras surgem discretamente enquanto camadas de pó e teias de aranha se acumulam sobre os antigos equipamentos. Os furos no telhado de amianto, fruto do vandalismo, expõem à chuva maquinários que por décadas alimentaram casas e estabelecimentos comerciais da região. Água da chuva se acumula em baixo do prédio. Sem cuidados a edificação se deteriora. Sem atenção do Estado parte da história da energia elétrica de Santa Catarina e do Brasil sofre com a ação do tempo.

Do pequeno prédio em estilo inglês, construído às margens do rio Maruim, atrás da montanha Pedra Branca eram produzidos diariamente 0,62 kw, energia suficiente para atender uma média 7.000 consumidores de São José, Biguaçu e Florianópolis. Nos idos de 1950, a oferta se tornou insuficiente e para atender a demanda da Capital a Celesc recorreu à termoelétrica de Capivari. A pequena usina josefense foi útil por mais 22 anos até que fosse totalmente desativada, em 1972. Durante os 65 anos de atividade, a centenária hidrelétrica parava somente aos domingos pela manhã. Nesse dia os funcionários faziam a limpeza e desobstrução das comportas, bem como a manutenção das turbinas.

Projeto de reativação só no papel

Em 2011 gestores da Celesc se mostraram interessados em reativar a usina. Além da produção diária de energia o local seria transformado em museu e centro de visitantes. Também abrigaria um escritório da estatal para reuniões com investidores. Ao lado da turbina desativada seriam instaladas outras duas, mais modernas, deixando a centenária máquina apenas como item de decoração. O local seria introduzido no roteiro turístico de Santa Catarina. O investimento seria de R$ 8 milhões e estaria aprovado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Em 2011, o projeto estava em fase de análise ambiental na Fatma (Fundação do Meio Ambiente). O projeto seria executado até o final de 2012. Dois anos se passaram e os planos não se concretizaram. E para piorar a situação nem com o serviço de zelador a usina conta mais.

Célio Hnaul, 41, foi o último zelador da Usina Maroim, e seu contrato acabou

Ordem é abandonar

Nos últimos dois anos Célio Hnaul, 41 anos, cuidou da usina. Era pago pela empresa que prestava serviço de corte de grama para a Celesc. Ao fim do contrato de trabalho Hnaul permaneceu na moradia destinada ao caseiro. No entanto, desde março não zela mais pela hidrelétrica desativada. “Funcionários da Celesc disseram que era para abandonar tudo. Disseram que posso ficar aqui até quando quiser e que não contratarão mais ninguém para a função de zelador”, detalhou. Célio Hnaul, que ganha vida como roçador, ressalta que em 2013 poucos visitantes vieram até a usina Maroim. “A grama está bem cortada. Outra empresa foi contratada para o serviço. Mas o prédio histórico está abandonado”, lamenta.

Embora tenha morado mais de 50 anos em frente à usina, a aposentada  Maria Faustino dos Passos, 86, nunca entrou no prédio. “Nunca tive curiosidade. Acho que daqui uns anos vão desmanchar tudo. Vai ficar no passado”, acredita.  

A Celesc informou que tem projeto básico de repotenciação elétrica da usina, que passaria a produzir 1,4 megawatts diários. O custo das melhorias seria de R$ 6,5 milhões. No entanto, a estatal não continua com o projeto porque aguarda a conclusão da análise do inventário do rio Maruim, que se encontra em disputa pelas
empresas Topocon Projetos e Construções Ltda e Pequena Central Hidrelétrica Rio Maruim Ltda. Após a finalização do inventário a Celesc retomará o projeto junto a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). A Celesc informou por meio de sua assessoria de comunicação que não conta mais com o serviço de zeladoria fixa. Segundo a estatal, a manutenção e limpeza da usina são realizadas pela mesma empresa contratada para roçar o gramado no entorno da hidrelétrica desativada.

Raio-X da Usina Maroim

Construtora: Simmons & Saldanha

Inauguração: 25 de setembro de 1910

Governador: Gustavo Richard (1906-1910)

Potência: 0,62 kw

Tempo de funcionamento: 65 anos

Ano do fim da geração de energia: 1972

População atendida: Florianópolis, Biguaçu e São José

Número de consumidores atendidos até 1972: 7.000

+

Notícias