Proibição da pesca industrial não interfere no preço da tainha em Florianópolis

Atualizado

A suspensão da pesca industrial da tainha na safra de 2019 não está interferindo no preço desse pescado, até o momento, em Florianópolis. A decisão foi estabelecida no começo do mês por meio de liminar do TRF4 (Tribunal Regional Federal) a pedido do MPF (Ministério Público Federal) do Rio Grande do Sul, e ratificada por outra desembargadora do mesmo Tribunal, no último dia 11.

Marizan João Maria diz que menor oferta não afetou o preço da tainha – Flavio Tin/ND

Mesmo resultando em menor quantidade de pescado disponível para o consumo, em alguns locais, os preços até baixaram. Segundo Marizan João Maria, que trabalha em uma das bancas de peixe do Mercado Público no Centro da Capital, a menor oferta não implicará na elevação do preço. “Como é um produto perecível, ou vendemos ou jogamos fora”, explica.

O vendedor afirmou ainda que a pesca industrial acaba ajudando a pesca artesanal. “Quando chega a época da desova, a tainha sai da lagoa, porque esse é o ciclo da natureza. De lá ela vai para o mar e quando há barcos de cerco, a parte do cardume que escapa acaba vindo para a costa. Com vento sul e frio ela também vem para descansar e escapar das correntes. Como não há pesca industrial este ano e fez pouco frio, a pesca artesanal está bem fraca, mas esperamos que no ano que vem seja melhor”, analisa.

Na peixaria onde Marizan trabalha, o quilo da tainha fresca estava sendo vendido a 11,99 reais. Pouco mais à frente, outra banca vendia o quilo do mesmo produto a 9,99 reais. “Abaixamos um real desde a semana passada”, informou Jorge Serratini, entre uma venda e outra.

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Preço atrativo

Entre as pessoas se aglomeravam no balcão, a aposentada Cecília Goes Torquato escolhia uma bela tainha sem ova, com mais de dois quilos, para fritar. “O preço já baixou, está bom, e a tainha está muito gostosa, já comprei várias vezes este ano”, diz a moradora da Lagoa da Conceição.

Cecília Torquato aproveitou o preço baixo para levar uma tainha para casa – Flavio Tin/ND

Mesmo com o movimento, Serratini afirma que as vendas de forma geral estão bem devagar e também atribuiu o fato à demora da chegada do frio e à proibição da pesca em alto mar. “Como não fez muito frio desde o começo da safra, em maio, e não tem barco de cerco, deu muito pouco peixe até agora”, afirmou.

Nem mesmo a onda de frio que derrubou as temperaturas no Estado nesta quarta-feira animou o vendedor. “Tomara que chegue [tainha], mas são só dois dias de frio e no fim de semana já tem previsão de calor”, lamenta Serratini.

Mais de 700 pescadores sem trabalho

A medida que suspende a captura  feita por embarcações de grande porte preocupa e desagrada as centenas de pescadores que trabalham na atividade. De acordo com o Sindipi (Sindicato dos Armadores e das Indústrias de Pesca de Itajaí e Região), são 32 embarcações e cerca de 700 pescadores que estão impedidos de trabalhar por conta da proibição.

Para o coordenador da Câmara Setorial do Cerco, Agnaldo dos Santos, a maior revolta é porque não só os pescadores, mas também a indústria, os comerciantes e até os consumidores estão sendo prejudicados. “Os sonares mostram que há bastante peixe e agora que está esfriando seria uma boa oportunidade de fazer as capturas”, lamenta.

Segundo Agnaldo, a instituição discorda da acusação do MPF, que entrou com ação no TRF4 alegando que  o sistema de controle online (SisTainha) e em tempo real das cotas de captura de embarcações de grande porte não funciona. “Funciona e estamos tentando derrubar essa liminar na justiça”, declara. “A pesca industrial favorece a artesanal e a anilhada e o município de Itajaí acaba perdendo as exportações de ovas e pescado. O país precisa aumentar o consumo de peixe, e agora que poderia haver fartura do produto, não podemos pescar”.

Espécie em risco

De acordo com o pedido de liminar, o MPF questionou a capacidade de captura dos barcos licenciados, por haver informações inconsistentes enviadas ao governo sobre locais e períodos de pesca ao longo dos últimos meses.

O órgão também entende que esse tipo de atividade pode colocar a espécie em risco e entrou com ação civil pública em 16 de maio depois que a União atribuiu este ano uma cota de 1.592 toneladas de tainha para a modalidade de cerco/traineiras, à qual ainda acrescia tolerância de 20%.

Na liminar, o MPF pede que a União aplique à frota industrial de cerco o abatimento de 100% da cota (cota zero) em 2019, por haver pescado duas vezes e meia a cota de tainha atribuída no ano passado.

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