Protesto contra violência lembra assassinato de jovem no Norte da Ilha, em Florianópolis

Vidros estilhaçados da barbearia localizada na estrada Anarolina Silveira Santos, no bairro Vargem do Bom Jesus, via de acesso à Vila União, no Norte da Ilha, atingida pelos disparos que mataram Johnny Ribeiro, 27 anos, no dia 3 de novembro, foi o cenário da manifestação pelo pedido de paz. A mãe da vítima, Bianca Jaqueline Ribeiro, que veio de Canoas (RS) para organizar o protesto na manhã desta sexta-feira (10). O grupo era pequeno, mas o ato chamou a atenção de quem passou pelo local.

Protesto no Norte da Ilha - Flávio Tin/ ND
Familiares, amigos e moradores da região participaram do protesto – Flávio Tin/ ND

Bianca segurava um cartaz com a foto do filho e mensagens de carinho e saudades: “O cara mais boa gente que todos conheceram. Te amo”. Amigos da família ficaram em frente ao local onde ocorreu o assassinato.

O crime ocorreu no final da tarde do dia 3. Johnny foi à barbearia, que fica ao lado de um bar, para usar o Wi-Fi porque estava sem internet em casa. Ele trocava mensagens com a mãe quando um veículo ocupado por quatro homens passou e atirou nas pessoas que estavam no local. Atingido por vários tiros, Johnny morreu na hora. Outras três vítimas sobreviveram.

Os disparos teriam sido feitos por integrantes da facção criminosa paulista PCC (Primeiro Comando da Capital) contra rivais do PGC (Primeiro Grupo Catarinense). Johnny não pertence a nenhuma das facções. “Estava na hora errada e no lugar errado”, disse a mãe.

Bianca lembrou que dizia ao filho sair daquele lugar o mais rápido possível, pois não gostava do ambiente. “Ele respondeu que já ia embora e a conversa na rede social terminou sem a frase ser concluída”, disse. Ela não conseguiu mais entrar em contato com o filho e entrou em desespero. Depois foi comunicada sobre o caso e no dia seguinte, veio para Florianópolis para preparar a cremação de Johnny. “Ele adorava Florianópolis. Nasceu no Rio Grande do Sul, mas viveu mais de 20 anos na Vargem do Bom Jesus. Trouxe um bebê para Florianópolis e agora estou retornando com a urna dele. Esta guerra não era dele, estamos pedindo paz e protestando contra a omissão do Estado”, afirmou.

Protesto Norte da Ilha - Flávio Tin/ ND
Ato foi realizado no local onde ocorreu a morte do jovem – Flávio Tin/ ND

Violência cresce na região

Durante o protesto, moradores do bairro denunciaram a violência e revelaram que as duas facções são separadas pela SC-403. No lado esquerdo da rodovia fica o Morro do Mosquito, reduto do PCC, e no lado direito está a comunidade do Papaquara (Vila União), dominada pelo PGC. “Todas as noites as duas facções trocam tiros. Até já apreendi a diferenciar estampidos de fuzil e de pistola”, contou um funcionário público, natural de São Paulo, que veio para Florianópolis fugindo da violência paulistana.

Agora ele pretende retornar para sua cidade natal. O funcionário público não quis se identificar com medo de represália. Ele contou que a violência na região ficou mais intensa após a chacina na Vila União em maio deste ano, quando quatro integrantes do PGC foram atingidos por tiros de fuzil e submetralhadora.

Desenterrando corpos

“Este ano já desenterramos seis corpos no meio do fogo cruzado. Isto jamais aconteceu em Florianópolis”. A frase é do delegado da Homicídios, Ênio de Oliveira Mattos, e serve de alerta sobre a guerra urbana que a cidade vivencia por conta das duas facções rivais que disputam o domínio pelo tráfico de drogas. Na última quarta-feira, a polícia desenterrou no Morro do Mosquito Rafael João Correa, 29, e Jonas Nascimento dos Santos, 24, mortos na Costeira do Pirajubaé.

Até a tarde desta sexta-feira (10), Florianópolis registrou 138 mortes violentas. Deste total, são 118 homicídios dolosos por arma de fogo, arma branca e alguns casos a pauladas e pedradas; seis latrocínios; cinco lesões corporais seguida de morte e nove confrontos com a polícia.

Apesar de Florianópolis ter o maior efetivo policial, o maior número de batalhões e mais delegacias especializadas em relação aos demais municípios catarinenses, os homicídios não param de crescer. O prenúncio do que estaria por vir ocorreu nas primeiras horas de 2017, quando a turista gaúcha e professora de yoga Daniela Soares foi assassinada, por engano, com um tiro, no Papaquara.

Ela estava no Norte da Ilha e acionou um aplicativo para chegar mais rápido na casa de um familiar no Continente. Mas, o marido errou o caminho e entrou em uma área conflagrada pelo tráfico de drogas. Segundo a polícia, Papaquara e o Morro do Mosquito são as duas localidades mais violentas do Norte da Ilha. 

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