Família de Angelina, na Grande Florianópolis, mantém os jovens na lavoura

Para encontrar a casa do produtor de mandioquinha que é exemplo de inovação na lavoura e que abriga um raro exemplo de permanência de todos os filhos no campo, é preciso pedir informações procurando pelo “Nelson da Madalena”. Também serve buscar pelo Nelson Hames de Rio Fortuna, comunidade em Angelina que concentra alguns dos maiores produtores do valorizado tubérculo em Santa Catarina.

Cercada por morros forrados de plantações, a casa rosada dos Hames abriga a história de uma família apaixonada pelo trabalho na lavoura. Seguindo o exemplo do pai, que abriu a estrada que daria origem à comunidade há 63 anos e que ganhou um título como agricultor modelo durante o governo de João Figueiredo (que esteve à frente do país entre 1979 e 1985), Nelson, 56, passou a ser a cobaia dos experimentos na cidade.

Fotos Rosane Lima/ND

Nelson (sentado) ao lado da mulher Madalena, com a neta Emanuelli no colo e os filhos Lucas (à esq.) e Isac, mostram os certificados conquistados

Com cerca de dez cursos de formação e após ser escolhido em 1997 pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) para implantar o primeiro cultivo de mandioquinha (que alguns chamam de batata-salsa e, outros, de batata-baroa) com a então inovadora técnica do plantio direto na palha, Nelson serviu de inspiração para o filho Isac, de 29 anos. 

Primeiro, o rapaz estudou mais que o pai. Isac concluiu o segundo grau, enquanto Nelson estudou até a quarta série do ensino fundamental – e em um tempo em que algumas professoras chegavam a ficar ausentes por meses da escola. Depois, ele fez cinco cursos relacionados com a atividade que sustenta a família. 

Para Nelson, que trabalha há 50 anos com a terra, não existe satisfação maior do que ver os três filhos seguirem na agricultura – além de Isac, Cleusa, 31, e Lucas, 18, também acreditam na qualidade de vida que só é possível no contato direto com a terra. Mas Nelson também fala com orgulho dos diplomas dos cursos feitos por ele colocados na parede da casa e da vocação em inovar. “Tudo que é novidade, cai para mim. Mas tenho orgulho de fazer isso porque gosto muito da profissão”, explica.

Mandioquinha multiplicou a renda da propriedade

Garantia de renda até três vezes maior que a de outras culturas tradicionais da região, como o feijão, a abóbora ou o milho verde, a batata-salsa foi implantada na propriedade de Nelson Hames em 1997 pela Epagri com o estímulo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

A plantação de batata-salsa é a principal fonte de renda da família Hames

“Recebi 250 plantas de Brasília para começar com tudo isso no município. No ano 2000, mais ou menos, eu já tinha 50 mil plantas na minha propriedade”, conta Nelson.

Impedido de seguir trabalhando no plantio e na colheita desde dezembro do ano passado, quando a saúde ficou mais fragilizada com a identificação de quatro hérnias de disco – duas na parte superior da coluna vertebral e outras duas na base -, Nelson atualmente apenas administra a propriedade.

Com a ajuda dos filhos, ele conseguiu ver a terra comprada do pai, hoje com 86 anos, produzir este ano 400 caixas de 32 quilos do produto até o fim de julho. Até dezembro, ele acredita que a propriedade renderá mais 300 caixas. 

Nelson utiliza três dos 10 hectares da propriedade para o plantio – o restante ele mantém preservado, incluindo três nascentes, uma para ele e outras duas para Isac e Lucas.

A vantagem da mandioquinha em relação a outros cultivos é que ela pode ser colhida a partir do nono mês e até um ano após o plantio. “Dá pra gente escolher quando colher, aproveitando quando o preço está um pouco melhor”. 

Vídeos feitos pela Epagri e por equipes de reportagem televisiva já fizeram com que a experiência de Nelson fosse vista em 12 países, incluindo México, Japão, Estados Unidos e a Alemanha. E ele deu palestras em várias cidades, incluindo um congresso sobre o plantio direto na palha em Foz do Iguaçu. 

Além da batata-salsa, estrela da produção, Nelson complementa a renda familiar com a venda de couve-flor, repolho, brócolis, feijão, abóbora e milho verde para a merenda escolar do município e para o Ceasa de Florianópolis, além de comercializar algumas cabeças de gado para corte. 

A necessidade fez a família buscar soluções e inventar

Antes da batata-salsa tomar conta da propriedade de Nelson Hames e dos filhos, o agricultor teve que enfrentar a tentação de abandonar a lavoura. Há 20 anos a esposa dele, Madalena, pensou em se mudar para a região de Brusque, para onde a família dela foi tentar a vida em fábricas.

“Eles vinham nos visitar de Fusquinha e a gente não tinha nada. Mas um agrônomo veio aqui em casa e fez todas as contas do quanto a gente ia gastar para ter na cidade tudo o que tínhamos aqui. Foi aí que eu comecei a adotar a tecnologia no campo”, revela Nelson. 

A reação dele veio através de cursos, mas a virada mesmo ocorreu com o plantio direto na palha e com o cultivo da batata-salsa. Com o plantio direto a palha e outros tipos de forração (como aveia e nabo-forrageiro), protegem o solo, evitando que ele resseque como no modo tradicional, quando a terra fica descoberta e é arada. Para comparar, com o plantio direto o solo pode ficar até 15 dias sem chuva, enquanto no plantio tradicional a resistência é de cinco dias.

No meio da proteção dos restos da cultura anterior são feitos buracos na terra e plantada a batata-salsa. “Com essa técnica precisamos de 50% da mão de obra normal, e conseguimos o mesmo de economia na adubação, além de que não temos erosão (o plantio é feito em morros para aproveitar melhor o sol)”, explica Nelson. 

Para fazer os furos na terra protegida com a palha, Nelson, um primo e Isac criaram um rolo-faca (implemento agrícola puxado por tração animal). Eles gastaram R$ 500 no invento. “Como não encontramos uma máquina como a gente precisa, a necessidade fez com que trabalhássemos dois anos para adaptar as peças e fazer ela funcionar”, conta. 

A maior parte do projeto foi de Isac que, segundo o pai, desde os cinco anos de idade mostrava a vocação para ser inventor e resolver problemas mecânicos: “Um dia a minha mulher chegou em casa e encontrou ele com diversos carrinhos de fricção que ele tinha todos quebrados com um martelo. Ela perguntou por que ele tinha feito isso, e ele respondeu que era porque estava procurando o motor deles. Hoje ele conserta quase tudo, de centrífugas até roçadeiras. A gente tem que se virar como pode”.

Nelson repassa para os filhos os valores que aprendeu com os pais. Um deles foi o de valorizar o trabalho: “Não ganhei nada do meu pai. Comprei a minha terra pagando aos poucos para ele. E os meus filhos estão fazendo o mesmo”. O outro é o respeito e a fé.

Nelson lembra da primeira roça dele, quando ele tinha quase seis anos. Era um domingo de manhã e ele pegou uma enxadinha para plantar feijão em um pedaço de terra de 1,5 metro quadrado. “Na terça-feira a minha mãe perguntou o que era aquilo, e eu expliquei que havia plantado no domingo. Ela era muito religiosa e me fez arrancar tudo porque eu deveria saber que no domingo não se trabalha”.

Internet começou a contribuir para melhorar as vendas

A batata-salsa de Nelson Hames e dos filhos é vendida para São Paulo e Curitiba. A principal concorrência da produção da Grande Florianópolis é a produção de Minas Gerais e do Paraná. Com internet instalada na comunidade há três meses, Nelson e Isac já sentem a diferença que a tecnologia pode trazer como apoio para o produtor.

Com o computador em mãos, Isac comemora o fato de a tecnologia ajudar ele, a mulher Mariane, o pai Nelson e o irmão Lucas

A Festa da Mandioquinha-Salsa promovida na comunidade desde 2007, quando Nelson ganhou o segundo lugar em qualidade comercial do produto que apresentou naquele ano, garantiu R$ 20 mil para a comunidade conquistar uma antena para pegar sinal de celular e, há três meses, a implantação da internet. No próximo dia 24 a comunidade de Rio Fortuna promoverá mais uma edição da festa. 

Atualmente, Nelson está conseguindo vender a caixa com 32 quilos do produto por R$ 30. No ano passado, na mesma época, ele conseguiu entre R$ 80 e R$ 100 por caixa. O preço estava inflado porque as outras regiões produtoras estavam passando por dificuldades.

Para saber como está a cotação para a venda, ele procurava informação com o Embrapa e telefonando para pelo menos três compradores que ele tem há mais de cinco anos. “Daí tenho uma média do preço e decido se vou segurar um pouco para vender. Mas com a internet eu vou poder me comunicar melhor e saber como está o mercado em Minas Gerais, por exemplo”, projeta Nelson.

Além de vender o tubérculo, Nelson comercializa cerca de 400 mil mudas por ano para todas as regiões de Santa Catarina e do Paraná. Elas são entregues pelos Correios ou pela Reunidas ao custo de R$ 0,05 a unidade. E na comercialização das mudas a internet já fez diferença. “Consultei o preço das mudas em outros lugares e vi que eu podia ter um preço mais competitivo. Também já recebi algum pedido pela internet”.

Herdeiros projetam futuro na lavoura

O filho Isac começou na lavoura aos 10 anos e diz que sempre sentiu prazer de trabalhar na terra. No ano passado, ele participou do programa SC Rural, onde aprendeu durante nove semanas a importância do planejamento e projetou um plano para o futuro da própria propriedade.

“Vi que precisamos trabalhar com todos os custos mais a fundo. E notei que a internet é indispensável para aprendermos algo novo. Como no caso da máquina que inventamos, foi na internet que tive algumas ideias de como poderíamos fazer”, conta Isac.

Por ter cursado o SC Rural, Isac conseguiu comprar um notebook com 50% do valor subsidiado pelo Programa Jovem Rural nas Asas da Inclusão Digital da Secretaria da Agricultura com recursos do Fundo de Desenvolvimento Rural. “Fizemos uma pesquisa com três orçamentos e fazendo a compra de até R$ 2,5 mil, recebemos um ano de carência e três anos para pagar metade do valor”, conta Mariane Hames, junto da sobrinha Emanuelli, de três anos. 

Pensando no futuro, Isac e Mariane planejam trabalhar com o plantio de hortaliças em até cinco anos – hoje eles cultivam apenas fumo e mandioquinha. “Para isso, precisamos conseguir mercado, abrindo oportunidades. Tenho certeza que se a gente fizer um bom trabalho, os filhos que a gente vai ter também vão ficar na terra. Porque a população aumenta e ela nunca vai deixar de consumir alimentos”, projeta. 

Programas incentivam jovem a ficar no campo

O principal desafio das políticas públicas atualmente é o de estimular a permanência dos jovens no campo. Das quatro propriedades de excelência visitadas pelo ND para esta série de reportagem, apenas na dos Hames foi possível encontrar todos os filhos da família convictos para permanecer trabalhando na lavoura.

De acordo com o engenheiro agrônomo Ditmar Alfonso Zimath, diretor de Extensão Rural e Pesqueira da Epagri, o envelhecimento da população, o êxodo e a dificuldade do jovem e das famílias em se manter no campo e lidar com a sucessão familiar nas propriedades fazem parte dos desafios do setor.

Com o objetivo de apresentar alternativas que atendam as perspectivas e anseios dos jovens que estão no campo e transformá-los nos protagonistas das comunidades rurais é que o governo do Estado implantou o programa SC Rural sob responsabilidade da Epagri.

Implantado em 2013, o programa busca formar 300 jovens entre 18 e 29 anos de idade por ano. “A inclusão digital é uma das ações de destaque. Laboratórios de informática foram implantados. Ali muitos jovens têm o seu primeiro contato com equipamentos de informática e a rede mundial de computadores”, explicou Zimath em um artigo sobre o projeto.

De acordo com Júlio César Mello, coordenador de Assistência Técnica e Extensão Rural da Epagri na Grande Florianópolis, cerca de 70% dos jovens que já participaram do programa tem computador em casa. “Faz toda a diferença o jovem que participou do programa voltar para a propriedade da família com um projeto para ser implantado ali e ter um acompanhamento virtual da Epagri. Os jovens estão pedindo para que essa mudança aconteça”.

Economia