Recomeço dos venezuelanos: imigrantes deixam país de origem em busca de novos sonhos em SC

Florianópolis e Santa Catarina entraram na rota do maior fluxo migratório em curso no mundo: a diáspora venezuelana. Relatório da OIM (Organização Internacional para Migrações) da ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que em julho de 2018 o Brasil havia recebido 50 mil venezuelanos. “Estima-se que 1 mil venezuelanos vivam atualmente em Florianópolis. Vieram forçadamente, por conta da situação de penúria do país vizinho, para recomeçarem suas vidas”, diz Luciano da Silva Filho, coordenador do Crai/SC (Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante).

Imigrantes venezuelanos em Florianópolis - Flávio Tin/ND
Imigrantes venezuelanos em Florianópolis – Flávio Tin/ND

Os imigrantes (os que entram em um país estrangeiro com o objetivo de residir ou trabalhar) e refugiados (pessoas que escapam de perseguições ou conflitos armados e cujo status garante uma série de direitos estabelecidos por tratados e convenções globais) vêm por conta própria, caso dos retratados nessa reportagem, a maioria com educação superior, ou são acolhidos por meio de iniciativas do poder público e das igrejas Católica (Cáritas-SC) e Evangélica (Embaixada do Reino de Deus, em Balneário Camboriú). “O foco principal deles no início é o mercado de trabalho, para a partir daí reestruturarem a vida familiar. As maiores urgências são idioma, emprego, acesso aos serviços públicos de saúde e educação e principalmente as revalidações dos diplomas”, relata o secretário executivo da Cáritas-SC, Gelson Nezi.

Três aspectos são unânimes entre os venezuelanos ouvidos pelo ND: a gratidão genuína ao povo e às instituições brasileiras; as boas referências prévias de Florianópolis nos quesitos segurança, estabilidade e oportunidades de emprego, que determinaram a escolha da cidade como destino de vida; e o fato de sete deles trabalharem num call center em espanhol de uma grande empresa de comércio eletrônico, que abraçou com o poder público uma parceria para a empregabilidade de imigrantes qualificados. Muitos tropeçam no português no início, mas aos poucos se acomodam pelas semelhanças linguísticas (com o espanhol) e as afinidades culturais latino-americanas.

Para os que desejarem colaborar com os venezuelanos, tanto o Crai quanto a Cáritas-SC acolhem voluntários que ministrem aulas de português, organizem ações de geração de trabalho e renda e articulem mobilizações junto à população, entre outras iniciativas. Empresários também podem se acercar à temática com o intuito de desenvolverem e implantarem ações de empregabilidade sustentável.

Comida para os filhos

“Vim para o Brasil pelas dificuldades em comprar comida para meus filhos de cinco e dois anos. Eles ficaram com minha mãe, a quem sempre envio dinheiro para que nada falte. Devido à escassez de alimentos, perdi 20 quilos. Cheguei a Florianópolis há um mês, por recomendação de compatriotas em Boa Vista (RR). Apaixonei-me pela cidade e trarei minha mãe e filhos em 2020. Moro no albergue municipal, no Centro, e vendo picolés em Açores e Pântano do Sul. Estou muito satisfeita e com o tempo quero alugar um apartamento por conta própria”.

Andreína Contreras, 30 anos, de Barcelona, dava aulas de educação comercial em um colégio católico - Flávio Tin/ND
Andreína Contreras, 30 anos, de Barcelona, dava aulas de educação comercial em um colégio católico – Flávio Tin/ND

Dificuldades na Venezuela

“Trabalho como vendedor de picolés (paletas mexicanas) em Açores e Pântano do Sul. Saí da Venezuela pela escassez e por não conseguir alimentar meus filhos de três e dois anos. Trabalhei em Boa Vista (RR), por um ano numa loja de ferragens. Eles estão lá com minha esposa e sogra. Quero trazê-los para Florianópolis. O salário médio na Venezuela dá para comer por dois dias. Amigos não conseguem remédios para doenças como a malária. Espero uma solução de curto prazo para a crise no país, embora não creia que Maduro vá entregar o governo”.

Josué Gascón, 25, de Ciudad Guayana, ex-instalador de linhas de alta tensão para a estatal elétrica Corpoelec - Flávio Tin/ND
Josué Gascón, 25, de Ciudad Guayana, ex-instalador de linhas de alta tensão para a estatal elétrica Corpoelec – Flávio Tin/ND

Em busca dos sonhos

“Queria realizar meus sonhos. Terminar a faculdade era difícil, pelas greves. O que eu ganhava só dava para comida e transporte. Saía às 3h para fazer fila no supermercado. Vim com meu marido, de ônibus e avião, por Roraima e Amazonas. Adoramos o Brasil e a solidariedade do povo. Aqui não se encontra a xenofobia que há em outros países. Trabalho num call center em espanhol de uma grande empresa de comércio eletrônico. Só volto para Caracas se Maduro cair. O que se vive na Venezuela é um pesadelo”.

Gusmary Bustamante, 28, de Caracas, ex-estudante de idiomas modernos e professora de inglês

Preços sobem todo dia

“Tive que abandonar o curso faltando apenas o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Uma vez esperei horas na fila do supermercado e chegou detergente. Quem come detergente? A cesta básica distribuída pelo governo venezuelano alimenta uma pessoa por duas semanas, e deve ser retirada por meio de coletivos cidadãos chavistas, que costumam ser usados como instrumento de barganha e coerção política. O Brasil é uma terra linda, cheia de oportunidades. O que aqui se enxerga como entrave, para nós é oportunidade. Na Venezuela, os preços sobem de manhã, à tarde e à noite. Se não gastar o dinheiro na hora, se desvaloriza”.

Francisco Martínez, 28, de Caracas, ex-estudante de serviço social e marido de Gusmary

Projetos no Brasil

“Sou jovem e tenho projetos a materializar. Quando percebi que meus clientes iam embora da Venezuela e os negócios diminuíam muito, decidi sair também. Minhas metas só mudaram de país. Há no Brasil um mercado de moda muito bom para explorar. Vi pessoas sendo baleadas ao meu lado em manifestações. Eu enfrentava as forças repressoras, queria a liberdade do país. Minha mãe ficou na Venezuela. É próspera, trabalhadora e vive bem para as circunstâncias. Sem luxos, isso acabou para todos os venezuelanos.
A deterioração foi se dando aos poucos. No início, não percebíamos. Logo começaram as desapropriações, a inflação foi se agigantando e a economia se arruinando”.

Reinyera Mujica, 29, de Caracas, tinha uma empresa do ramo de moda e estilo

Em busca de comida

“Emigrei para prover comida para meus filhos, que chegaram a comer só arroz uma vez ao dia. Minha esposa e eles estão na República Dominicana. Trabalhei em Boa Vista (RR) por um ano, numa loja de ferragens a R$ 20 ao dia. Era isso ou nada. Ao chegar a Florianópolis, eu e um grupo de amigos dormimos uma semana na rodoviária. Trabalho como arrumador num conceituado hotel e em breve quero me reunir com a família na República Dominicana. O Brasil é um país forte no continente, e aqui se pode comprar de tudo”.

Edwin Armas, 28, de Caracas, ex-funcionário de uma empresa de alimentos confiscada pelo governo chavista

Receio com a burocracia

Decidi sair quando, durante o parto de meu último filho, tive uma hemorragia e não havia no hospital anticoagulante. Parte do útero teve de ser removida e quase morri na mesa de cirurgia. O povo brasileiro me parece mais solidário, tolerante e menos preconceituoso que outros. Mas a revalidação do diploma universitário é burocrática e as coisas para o imigrante não são fáceis. A crise na Venezuela gerou polarizações difíceis de superar. A reconstrução social levará tempo. A linha dura de Bolsonaro com Maduro convém à política interna da Venezuela, mas temo que muitos direitos referentes à migração serão violados”.

Merlina Ferreira, 35, de Maracay, psicóloga e professora universitária - Flávio Tin/ND
Merlina Ferreira, 35, de Maracay, psicóloga e professora universitária – Flávio Tin/ND

Demissão e fome

“A chegada de Chávez ao poder em 1999 marcou o início de um processo de coerção e perseguição aos empregados que divergiam da cartilha chavista. Fui um dos 18 mil despedidos por ele em fevereiro de 2003, sem direito à indenização. A perseguição continuou. O governo passava às empresas uma lista com os números de identidade dos despedidos em 2003, para que não nos contratassem. As que não obedeciam eram desapropriadas. No Brasil, trabalhei como ajudante de cozinha e de jardinagem. Dormi na praça e cheguei a passar fome. Meu filho nasceu no Brasil, sou apaixonado por Santa Catarina e não cogito voltar à Venezuela. Os brasileiros são receptivos e solidários, e quero abrir o meu restaurante um dia”.

Johnan Castillo, 46, de Maracaibo, ex-segurança patrimonial na estatal de petróleo PDVSA - Flávio Tin/ND
Johnan Castillo, 46, de Maracaibo, ex-segurança patrimonial na estatal de petróleo PDVSA – Flávio Tin/ND

SERVIÇO

Crai: Rua Tenente Silveira, 225 – Ed. Hércules, sala 01, Centro; Tel.: (48) 3665-4322

Cáritas Santa Catarina: Rua Deputado Antônio Edu Vieira, 1.524, Pantanal; Tel.: (48) 3234-7033

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