CPI dos Radares vai ouvir tesoureiro do PSD sobre suspeita de caixa 2 na campanha de 2014

Investigação da Câmara de Vereadores apontou caixa 2 em campanha eleitoral do PSD

A declaração de um executivo da empresa Kopp numa interceptação telefônica da Polícia Federal foi o ponto de partida para ligar a apreensão dos R$ 100 mil, em setembro do ano no Rio Grande do Sul, com um esquema de caixa 2 para campanha eleitoral: “Escute o lance. Fotossensores, Sinasc e mais não sei o que lá. Fotossensores deu 50 mil, Sinasc deu 50 mil, o outro ‘tchosca’ lá deu 50 mil. Aí me encararam assim, dizia ‘a Kopp vai dar quanto?’. Eu disse ‘100 mil’.” A conversa de Décio Stangherlin, o Marinho, executivo da empresa de radares, com o funcionário da empresa Fabiano Barreto, é apenas uma das peças do quebra-cabeças sobre o destino do dinheiro apreendido com servidores públicos municipais, que segundo a CPI dos Radares serviria como caixa 2 de campanha.

Interceptação entre Marinho e Barreto, ambos da Kopp, sobre suposto pagamento de caixa 2

Passava das 9h30, quando o presidente Vanderlei Farias (PDT), iniciou a apresentação do relatório parcial da comissão que há 11 meses investiga os desdobramentos da Operação Ave de Rapina da Polícia Federal. Segundo o relator Ricardo Camargo, a comissão conseguiu novas provas, além do que já foi relatado pela PF, de que o dinheiro apreendido seria usado em campanhas eleitorais: “Os policiais rodoviários federais Luciano Cafruni e Douglas Panveck, que foram os que fizeram a apreensão, foram taxativos de que o dinheiro era para campanha da coligação do PSD em 2014”, afirmou Camargo.

Para sustentar a argumentação, o relator citou ainda tentativa frustrada de Júlio Pereira Machado, o Júlio Caju, em tentar justificar o dinheiro como doação de campanha, o que acabou não acontecendo. “Júlio tentou mediar junto ao tesoureiro do PSD em Florianópolis a legalização dos recursos que então era para caixa 2. Diante da apreensão dos R$ 100 mil, houve uma atuação de Júlio para tentar legalizar o dinheiro apreendido. Nos diálogos entre Júlio e Marinho isso fica claro”, emendou o relator, que pretende ouvir o tesoureiro do PSD na campanha de 2014 no próximo dia 28 de outubro.

Segundo apurou o relatório preliminar, os guardas municipais Júlio Pereira Machado e Adriano Melo ocuparam posições estratégicas na Diretoria de Operações do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) de onde direcionavam os contratos do Convênio de Trânsito (sinalização, semáforos e radares).

Agora, a investigação entrará em uma nova fase, restando pendente ainda apenas o depoimento de Eliseu Kopp, que por duas vezes legou doença e não prestou depoimentos. O relatório é preliminar e vai compor o relatório final dos trabalhos da comissão, que só será votado após o encerramento da comissão. Na semana passada, os vereadores aprovaram mais 120 dias para a nova fase da investigação.

Rastro do dinheiro

No dia 17 de setembro de 2014, uma quarta-feira, Júlio Caju, Jean Carlos Viana, então comandante da Guarda Municipal, e Theo Mattos, motorista terceirizado, foram flagrados com R$ 100 mil e um aditivo no contrato dos radares na cidade de Lageado (RS). Eles estavam sendo monitorados desde que deixaram a sede da empresa Kopp, em Vera Cruz (RS), quando foram parados pelos rodoviários federais.

Segundo afirmaram os policiais em depoimento na CPI, inicialmente, o grupo tentou comprovar que o dinheiro seria usado para compra de um terreno, em seguida informaram que se tratava de doação de campanha.

O depoimento de Júlio à polícia no dia da apreensão narra: “Que o valor da doação seria de R$ 100 mil, sendo que o valor foi proposto pelo próprio Marinho, pois era o valor que ele disse que poderia fornecer; que a coligação da qual o declarante participa não tinha conhecimento desta doação; que a intenção do declarante era chegar no diretório com o valor e fazer uma surpresa à coligação; que a formalização da doação e as respectivas declarações necessárias seriam feitas posteriormente; que o dinheiro não tinha destinação a nenhum candidato específico e seria utilizado da forma que a coligação definisse melhor; que perguntado porque o transporte do dinheiro se deu por via terrestre e não por uma transferência bancária, por exemplo, o declarante disse que decidiu pegar em espécie porque não sabia como seria o procedimento para efetuar um depósito.”

Segundo a CPI, os envolvidos não apresentaram nenhuma comprovação para o dinheiro.

Relatório da PF apurou que Júlio tentou justificar destino dos R$ 100 mil como doação, o que nunca aconteceu

PSD nega propina e Prefeitura diz que contratos foram rompidos

 Antônio Ceron, presidente estadual do PSD, nega que o dinheiro apreendido no Rio Grande do Sul em setembro de 2014 seja caixa 2 de campanha. “Toda a arrecadação do partido está registrada, não existe nada de propina, os envolvidos não trabalhavam na campanha”, disse. Ceron confirmou que o tesoureiro na época, José Carlos Oneda, prestará depoimento se convocado. “É natural que a Justiça busque a informação, mas não existe nenhuma ligação entre o partido e a apreensão do dinheiro”, finalizou.

Em nota, o prefeito Cesar Souza Júnior (PSD) se manifestou informando que “o contrato com a Kopp foi suspenso no dia 19 de dezembro de 2014. A partir desta data, o pagamento deixou de ser feito. Ato contínuo, o IPUF passou a emitir notificações à empresa solicitando informações sobre as suspeitas de irregularidades apontadas pela Polícia Federal. Em junho deste ano a procuradoria-geral do município exarou [escreveu] um parecer opinando pela rescisão unilateral do contrato, o que foi feito”, diz trecho da nota.

Sobre o contrato com a Sinasc, o município informou que o contrato também foi rompido e que o serviço é prestado pela empresa More, que venceu  a licitação realizada para pintura de sinalização.

Sobre os R$ 100 mil, a prefeitura informou que não teve absolutamente nenhum envolvimento com o pleito estadual.

Sobre o atraso na prestação de informações à comissão, a prefeitura informou que houve demora na entrega de apenas um documento, por razões de equívoco no trâmite interno, sem qualquer intenção de prejudicar os trabalhos da CPI.

Por fim, o município disse ser o maior interessado no esclarecimento das denúncias e suspeitas, e que o relatório preliminar “é peça de cunho absolutamente político.”

No próximo dia 28 de outubro, a comissão deverá colher depoimento do tesoureiro do PSD, José Carlos Oneda, e do secretário de Segurança e Defesa do Cidadão, Raffael De Bonna, atual gestor do Convênio de Trânsito. No dia 5 de novembro a comissão ouve o presidente do Ipuf, Acácio Garibaldi.

Investigação independente e complementar

A CPI dos Radares foi instaurada no dia 24 de novembro de 2014. Como base, a investigação se utilizou do inquérito policial 701/2014, que deu origem a Operação Ave de Rapina.

No entanto, segundo o relator, a operação buscou fatos novos através das oitivas e da coleta de documentos. “A partir da fala dos depoentes nós tivemos a possibilidade de tirar nossas próprias conclusões, nosso objetivo não é repetir a investigação da Polícia Federal”, disse Camargo.

No relatório parcial, os vereadores se concentraram na atuação dos operadores do esquema, Adriano Melo e Júlio Caju. O ex-presidente da Câmara, vereador Cesar Farias (PSD) não aparece na primeira parte do relatório.

“Não nos cabe aqui repetir a investigação, destacando que o conselho de ética apontou pela cassação de dois vereadores. A Justiça bloqueou a sessão. Portanto, estamos fazendo nosso papel. Estamos ampliando e mostrando que existem mais fatos relacionados à Operação Ave de Rapina”, disse Camargo.

Além de apontar o caixa 2 de campanha, a comissão também cobrou o andamento dos processos administrativos contra os servidores Júlio e Adriano, pediu a suspensão dos contratos de sinalização, semáforos e radares, este último segundo o município já encerrado de forma unilateral, além da confecção de uma lei que permita a publicação de todos os contratos do município em execução.

A comissão também encaminhou solicitações ao Ministério Público solicitando ações quanto à quebra de prazos por parte da Prefeitura, que teria atrasado ou deixado de prestar informações à comissão.

Propina surgia nos contratos de Trânsito

Segundo apurou a CPI, a empresa Artmil serviria como canal para escoar propina para servidores públicos. A empresa funcionaria como laranja, e mantinha inclusive um contrato com a empresa Kopp, por onde eram repassados R$ 20 mil mensais.

“Era uma empresa laranja. Eles não executavam nenhum serviço para a Kopp. Não conseguiram comprovar que prestavam serviço de radares no município. Questionados sobre quais eram as tarefas eles não conseguiram esclarecer nem que tipo de material é utilizado e não sabiam explicar quais eram as suas funções”, disse o relator.

Nos contratos de semáforos, radares e sinalização, o modus operandi de onerar o município e repassar ainda mais dinheiro público para empresas se daria através dos aditivos. Como exemplo, os vereadores citaram o caso da Sinasc, que recebeu aditivos nos contratos de sinalização, totalizando a cifra de R$ 5 milhões em pagamentos.

No caso do contrato dos semáforos, o relatório destacou a figura de Carlos Henrique Almeida, o Baiano, como peça chave nas investigações. Em depoimento, Baiano confessou que foi impedido de participar da licitação vencida pela empresa Focalle e para ser subcontratado teve que pagar propina a Adriano Melo.

Relatório parcial:

Dinheiro apreendido seria caixa 2 da campanha do PSD

Contratos de sinalização, semáforos e radares foram fraudados

Depoimentos policiais rodoviários não foram relatados pela PF

Depoimento de Baiano confirmou direcionamento de licitação

Artmil serviu como laranja e recebia R$ 20 mil mensais da Kopp sem realizar nenhum trabalho

Coligação partidária que teria recebido dinheiro foi formada pelos partidos PSD / PRB / PMDB / PR / PTB / PSC / PSDC / PROS / PV / PCdoB / PDT / DEM.

Números da CPI

26 depoimentos

36 horas

40 reuniões

9.500 páginas no processo

Denunciados por tipos de crimes na Justiça

César Faria (PSD) – Vereador e ex-presidente da Câmara. Corrupção passiva, fraude em licitação, peculato e organização criminosa.

Júlio Pereira Machado – Ex-guarda municipal e ex-diretor de operações do Ipuf. Corrupção passiva, fraude em licitação, peculato e organização criminosa.

Tiago da Silva Varela – Guarda municipal e ex-diretor de operações do Ipuf. Corrupção passiva, fraude em licitação, peculato e organização criminosa.

Adriano João de Melo – Guarda municipal e ex-diretor de trânsito do Ipuf. Corrupção passiva, fraude em licitação, peculato e organização criminosa.

Theo Mattos dos Santos – Motorista terceirizado do Ipuf. Corrupção passiva e peculato.

Eliseu Kopp – Empresário dono da Kopp Ltda. Corrupção ativa e organização criminosa.

Décio Stangherlin, o Marinho – Executivo da Kopp. Organização criminosa e corrupção ativa.

Fabiano Barreto – Executivo da Kopp. Organização criminosa.

José Norberto D’Agostini – Proprietário da Focalle. Organização criminosa, corrupção ativa, fraude em licitação e peculato.

José D’Agostini Neto – Proprietário da Focalle. Organização criminosa, corrupção ativa, fraude em licitação e peculato.

Walmor Nascimento – Proprietário da Artmil. Organização criminosa e corrupção ativa.

Davi Nascimento – Proprietário da Artmil. Organização criminosa e corrupção ativa.

Carlos Henrique Almeida de Lima, o Baiano (único dos denunciados que não havia sido indiciado pela PF) – Gerente da empresa HLI Astech, responsável por instalações eletroeletrônicas com sede em Florianópolis. Denunciado por organização criminosa, fraude em licitação, corrupção ativa e peculato.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Loading...