Revisitando Joinville 5 – Dormindo num palacete, na década de 70

             Não ficaria em Joinville, nem tinha ouvido falar nada sobre ela, mas os problemas naquela noite em minha ida para o sul do Estado me fizeram adentrar na cidade, pela Rua XV de Novembro, era 1970. Começou com a bagunça na estrada, o Brasil tinha ganhado a Copa e todo mundo estava em polvorosa, o movimento na estrada me mantinha acordado, até que um acidente que engarrafou tudo me obrigou a mudar os planos. E o que era azar, virou sorte.

            A melhor maneira de se conhecer uma cidade é se perder nela, e foi me perdendo, que fui encontrando, pelas ruas iluminadas pelo vapor da luz, um encantamento em mim que só tinha sentido quando menino. Vindo do norte do país, senti o contraste. Não era só diferente, era bonito! O traçado da rua, em curvas indo em direção ao centro, era bonito. Os jardins daquela época, cheio de madressilvas, eram bonitos. Os casarões conservados, imponentes, antes de chegar no centro, eram como os dos roteiros turísticos. Ao passar em frente a fábrica da Antarctica, pensei: é daqui que saem aquelas maravilhas!

            Cheguei ao centro, me perdi um pouco, aproveitei para fazer umas fotografias, minha Máquina Love, apesar de descartável, imprimia as fotos na hora e eu ia montando um álbum imaginário. Arcos, madeira, balcões, afrescos, enfeites: eu pensei que veria aquela arquitetura apenas na Europa, e estava ali pertinho! Perguntei para um flaneur onde eu poderia passar a noite tranquilo, e ele me recomendou, da esquina onde eu estava, o Hotel Joinville, e então dali apontou-me o hotel, e na hora eu me senti como se chegasse em Paris, porque o Hotel Joinville era um palacete com todo o requinte que eu havia imaginado ainda guri, lendo livros de Contos de Fadas…

            O Palacete Schlemm, inaugurado em 1932, é um prédio de 4 andares, somando o sótão, que encanta os moradores e os visitantes da cidade, há muitas décadas. Hoje, degradado, mostra marcas do abandono, porém, mesmo assim, impressiona. Quando inaugurado, foi residência da família Schlemm na parte de cima, lojas de diferentes gêneros no piso térreo, e um hotel de referência na cidade, nos outros andares. Tinha corredores suntuosos, porém, não havia banheiro nos quartos, eram usados de forma social, e coletiva. Na sua fachada, há duas máscaras esculpidas pelo mestre joinvilense da escultura, o senhor Fritz Alt. Uma máscara representa Minerva, deusa da sabedoria, e a outra Mercúrio, deus do comércio. A Minerva simbolizava a família que ali morava, e Mercúrio, os negócios que prosperavam sob seu teto. Imagino Fritz Alt levando as máscaras para serem anexadas na estrutura. Ele lá embaixo, olhando para cima, tirando medidas, o olhar orgulhoso, as máscaras assistindo ao movimento das ruas, acompanhando o desenrolar da cidade e antevendo o tempo se avolumando sobre o espaço.

            Bem, dormi naquela noite em Joinville, queria poder mostrar para meus familiares do Piauí, naquele inverno de 1970, que estava na Cidade dos Príncipes, sendo tratado como parte da realeza. Da janela eu via uma árvore, o correio que ficava na praça onde hoje fica o Ipreville, um coreto lindo e rodeado de plantas onde hoje existe apenas um chafariz desligado, onde antes eu via flores de inverno e agora só vejo limo. O palacete continua ali,  sem função em ser hotel ou em ser prédio, as máscaras ainda observando a cidade e, chorosas, se perguntando o porquê de não receberem nenhuma maquiagem. Bem, pelo menos a de Minerva, que dizem que, quando toda a cidade dorme, ela olha para Mercúrio e sussurra: Acordei! Peloo menos é assim que acontece nos palacetes dos Contos de Fadas!

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