Rodoviando

Primeiro, o prédio foi uma concessionária da Ford. A torre, símbolo augusto da construção que esquina a Max Colin com a Doutor João Colin, foi apelidada de mamadeira. Era um padrão seguido pelo mundo todo, como uma logo arquitetônica que a Ford exportou mundo a fora. Era o início da globalização, isso em meados dos anos 20 do século passado. A concessionária fechou em 1968, e depois, por dois anos, transformou-se na Rodoviária de Joinville.

Ah, deixa eu me apresentar, meu nome é Rose, eu estava lá na coluna Coisas Duo Amor, mas agora, tenho uma nova missão, falar das coisas de Joinville. Da Joinville de hoje e de antigamente. Mas será mesmo que as coisas de antigamente são tão de antigamente assim? Acho que não, porque na memória de muita gente, o que aconteceu naquela rodoviária é ainda presente na mente de muita gente!

A história que contarei é de um jovem engenheiro que veio trabalhar na Tupy, quando o bairro Boa Vista ainda era um distrito da cidade. Ele não acostumou-se com a umidade da cidade da chuva, tinha vindo do oeste de São Paulo, mas até decidir ir embora, apaixonou-se, e de forma tão grande por uma professora de pedagogia, que estendeu-se aqui, suportando seus problemas respiratórios.

Naquela época a comunicação não era como a de hoje, tudo era mais difícil, a ansiedade vivia cheia de si. Ele partiria num ônibus que sairia para São Paulo às 14h, ela estaria em sala, a despedida não podia dar-se como ele queria, mas ao menos não veria aquela carinha triste que ela fazia quando lhe faltava algo, e naquele caso, lhe faltaria o ânimo, sentia que alguma coisa era arrancada dela.

Sem telefone, sem nada, na escola viram sua tristeza, e uma amiga resolveu substituí-la por uma hora. Do Boa Vista ao centro de bicicleta em uma hora. Ela saiu à toda. Vinha depressa. Enquanto isso, ele lá, no lado de fora, olhando a torre de vidro, imaginando ela lá em cima, ele ali em baixo, cantando Solamente una Vez, espirrando sem parar por causa da rinite, e chorando, engraçado até, porque era saudade antecipada pela amada que ficaria e a rinite endiabrada que iria embora.

Às duas e dez ela veio cruzando a esquina. Caíra da bicicleta na altura do Mercado Municipal. Nunca havia falado tanto palavrão: era uma lady. Entrou chorando na Rodoviária, aliviou-se quando percebeu que o ônibus havia atrasado. Ele estava de costas. Ela veio com tudo, deu um abraço gigantesco. Caíram nas graças do público. Foram aplaudidos, ouviam inclusive uma música, enquanto o ônibus buzinava, chamando pelo passageiro atrasado. Ele foi até a porta. Voltou. Assoou o nariz. Disse que aguentaria mais uns meses. Mas já passaram-se 40 anos, e ele continua aqui, morando junto a ela lá no bairro Boa Vista, assoando o nariz desde então, concluindo que antes aquela alergia que a falta de alegria que teria se tivesse embarcado naquele ano 70. Tem certeza disso quando passeia com ela por aí, pra cima e pra baixo. Dia desses viram o prédio da antiga rodoviária, que depois virou prefeitura, e que agora é um mero depósito, imponente, ainda que mal conservado. Ele pediu para entrar com ela. Subiram na escadaria da torre. E lá de cima, pela milionésima vez em seus 72 anos disse: Você sempre foi a minha melhor viagem!          

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