Safra da tainha não atinge expectativas e pescadores artesanais ficam no prejuízo em SC

Nesta quarta-feira (31) se encerrou a safra 2019 da tainha em Santa Catarina. Os lanços ficaram aquém das expectativas iniciais, trouxeram prejuízos para pescadores artesanais e não movimentaram a economia catarinense como de costume.

O principal motivo apontados pelos pescadores como sendo responsável pelo fracasso foram as condições climáticas. “Faltou frio e faltou vento sul” nas palavras de Chinho, pescador da Barra da Lagoa, em Florianópolis.

Praias da Lagoinha, Ingleses, Barra da Lagoa e Praia Brava foram onde ocorreram os maiores lanços de tainha na Capital – Anderson Coelho/ND

A expectativa da Fepesc (Federação dos Pescadores do Estado de Santa Catarina) no início da temporada era de uma das melhores safras da história, fazendo uma projeção de capturar 2,5 mil toneladas de tainha com a pesca artesanal.

Após um início fraco da safra, a expectativa foi reduzida para 2 mil toneladas. Agora, com o final do período, o resultado foi decepcionante para os pescadores artesanais. Apenas 1.157 toneladas de tainha foram capturadas, ficando abaixo inclusive dos números de 2018, quando foram capturadas 1,2 mil toneladas e já foi considerado um ano fraco.

Captura foi pulverizada

Para Ivo da Silva, presidente da Fepesc, 2019 sem dúvidas foi uma das piores safras de todos os tempos, mas se houve algo de bom nesta temporada, foi a melhor distribuição dos peixes.

“É uma avaliação razoável, apesar do número abaixo da expectativa foi uma pesca pulverizada, que atendeu a maioria das comunidades de Santa Catarina. Os lanços não se concentraram em um único lugar como tradicionalmente acontece na Barra da Lagoa, Bombinhas, praia do farol de Santa Marta e Passo de Torres. Além desses lugares tradicionais ocorreram bons lanços também em , São Francisco do Sul, Camboriú, Palhoça, Garopaba e Imbituba”, explicou Ivo.

No ano de 2019, o local onde ocorreram mais lanços e se capturou a maior quantidade de tainhas foi Florianópolis. Na Capital destacam-se as praias da Lagoinha, Ingleses, Barra da Lagoa e Praia Brava. Bombinhas e Laguna, no farol de Santa Marta, também foram locais onde ocorreram bons lanços.

Prejuízo para pescadores e também nas peixarias

Com os números de captura tendo ficado bem abaixo do esperado, muitos pescadores relataram prejuízos. Proprietários de peixarias também se queixaram.

Camboriú, São Francisco do Sul, Palhoça, Garopaba e Imbituba foram cidades com bons lanços – Elias Gotaski/RICTV

Para o presidente da Fepesc, os pescadores foram os mais afetados porque apostaram na temporada, uma vez que a expectativa era alta. Os pescadores artesanais investiram, por exemplo, em pequenos barcos e esses recursos não foram recuperados.

Para Laurentino Benedito Neves, o “Chinha”, pescador da Barra da Lagoa, a decepção foi grande. Ele afirmou que em 2018 capturou 50 toneladas de tainha e com a expectativa alta para 2019, fez um investimento de R$ 22 mil em redes de pesca. O resultado foi de apenas 18 toneladas de tainhas capturadas e o dinheiro aplicado para a pesca não foi recuperado.

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Em Santa Catarina, além do aspecto econômico, a pesca da tainha é também um importante elemento cultural e social. Para Ivo da Silva, apesar das grandes diferenças culturais, é possível se recuperar economicamente com a safra de outros peixes.

“Não foi o esperado no aquecimento da economia. Além da safra ser importante para a economia dos municípios, ela é uma das pescas sociais mais importantes do país, com a participação da comunidade. Em vários municípios de Santa Catarina a população acompanha a pesca e ajuda a puxar a rede, envolvendo um aspecto econômico, cultural e social. A safra da anchova deve suprir a insuficiência da tainha, mas não é social e cultural como a tainha, apenas econômico. O pico da anchova é entre setembro e outubro, mas já está bem avançado. A expectativa é que ao menos economicamente vai suprir a tainha”, afirmou Ivo.

Qualidade dos peixes, ao menos, superou expectativa

Apesar do número de peixes bem abaixo da previsão, ao menos em termo de qualidade do produto as expectativas foram alcançadas. A boa condição do pescado é um consenso entre pescadores, vendedores e o presidente da Fepesc.

As pessoas envolvidas na pesca artesanal em Santa Catarina concordam que nas redes chegaram peixes de corso, gordos, saborosos e de muita qualidade.

Para Flavio Junior Martins, proprietário de uma peixaria no Mercado Público de Florianópolis, os peixes deste ano estavam 100%. Ivo da Silva e Chinha também destacaram os atributos dos pescados catarinenses e afirmaram que apesar de a tainha ter chegado tarde, estavam rosados, bonitos e saborosos. Apenas alguns que já haviam desovado não apresentavam uma qualidade satisfatória.

Liberação tardia da pesca industrial afetou vendas

Para os donos de peixarias, a percepção geral é de que a temporada foi decepcionante. Os proprietários acreditam que a liberação tardia da pesca industrial foi o principal fator que fez com que as vendas de tainha não atingissem as expectativas econômicas.

Esperança para recuperação econômica dos pescadores é com safra da anchova – Vera Lúcia Rocha

O proprietário de peixaria, Flávio Junior Martins, comentou inclusive que pela primeira vez na sua vida viu a peixaria ficar sem tainha no mês do maio. “Isso nunca existiu de ficar sem peixe no mercado, foram três dias seguidos sem tainha”, reclamou.

Para o comerciante, sem dúvidas a fraca temporada da tainha quebrou a economia da peixaria no período. Flavio afirmou que a procura pela tainha sempre existe e é muito grande, porque Florianópolis respira o peixe, mas nesta temporada a oferta não foi tão grande quanto a procura. O comerciante afirmou que sem volume, não foi possível abaixar o preço em relação aos anos anteriores.

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