Santa Catarina é o terceiro estado brasileiro com maior taxa de incidência de hepatite C

A hepatite C é uma doença infectocontagiosa causada pelo vírus C (HCV) e atinge, principalmente, adultos acima de 40 anos. Quando a infecção persiste por mais de seis meses, o que é comum em até 80% dos casos, há a evolução para a forma crônica da doença. Cerca de 20% dos infectados cronicamente pelo HCV podem evoluir para cirrose hepática e cerca de 1% a 5% para câncer de fígado. Portanto, pode ser fatal.

Testagem para detectar vírus das hepatites está disponível no SUS - Altemar Alcantara/Fotos Públicas/Divulgação
Testagem para detectar vírus das hepatites está disponível no SUS – Altemar Alcantara/Fotos Públicas/Divulgação

Segundo dados do MS (Ministério da Saúde), entre todas as hepatites (A, B, C e D) a do tipo C é que possui maior número de notificações e que mais causa mortes. Em 2015, foram 2.028 mortes em todo o país causadas pela doença, contra 451 óbitos pelo tipo B e 24 pelo tipo A.

Conforme a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina), Santa Catarina é o terceiro estado brasileiro com maior taxa de incidência de hepatite C, ficando atrás apenas do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Atualmente, 164 pessoas recebem atendimento pelo SUS em todo o Estado, segundo a gerente de Vigilância das DST/Aids e Hepatites Virais da Dive, Dulce Maria Brandão de Castro Quevedo. 

Santa Catarina apresentou 9.702 casos da doença entre os anos de 1999 a 2016, com uma taxa de detecção de 17,1/100 mil habitantes, contra a taxa nacional de 7,1/100 mil habitantes. Houve um salto no número de casos no Estado de 2014 (680) para 2015 (1.400), recuando um pouco em 2016 (1.165). Já o número de óbitos por hepatite C, como causa básica, foi de 722, no período de 2000 a 2015 em todo o estado. No mesmo período, os tipos A, B e D registraram, respectivamente, 18, 299 e 15 mortes.

No ano passado, a taxa catarinense caiu para 12,3/100 mil habitantes, contra a taxa nacional de 11,9/100 mil habitantes. De acordo com a médica infectologista da Dive, Aline Vitali Grando, o que chama a atenção é o fato de Florianópolis ter uma taxa de 33 casos para cada 100 mil habitantes, contra os 12,3 da média estadual. A médica afirma que a maior proporção dos casos, em termos  de transmissão, é por uso de droga intravenosa. “Enquanto no Brasil a contaminação por essa via é de 13%, nos casos de hepatite C, em Santa Catarina 26% se infectam por esse meio”, explica.

Já nos casos de hepatite B, a maior quantidade de casos está no interior e no Oeste do Estado, com grande número de trasmissão vertical (de mãe para filho, quando está grávida ou no parto) e maior proporção de novos casos acima dos 30 anos de idade. O conrole, segundo a médica, é feito durante o pré-natal e com vacinação.

A gerente da Dive, Dulce Quevedo, afirma que as capitais brasileiras apresentam taxas acima dos índices estaduais, e que em Florianópolis a detecção é de 33 casos para cada 100 mil habitantes. A capital catarinense também registrou aumento no número de casos de hepatite C entre 2014 e 2015, saltando de 114 para 265. Nesse período, o número de mortes causadas pela doença também subiu, de cinco em 2014 para 11 em 2015, de acordo com dados do MS.

Capital vai reforçar vacinação de adultos

A gerente de Vigilância Epidemiológica de Florianópolis, Ana Cristina Vidor, afirma que há várias causas possíveis para o município apresentar taxa tão acima da média nacional (33 contra 11,9 casos/ 100 mil hab). Em 2016, foram registrados 534 casos de hepatite C, segundo informações da Vigilância. 

Segundo a gerente, uma das causas pode ser a facilidade de acesso ao diagnóstico, já que existe disponibilidade de testes rápidos nas unidades de saúde e forte monitoramento para evitar subnotificação. “Mas devemos lembrar que Florianópolis também é uma das capitais com maiores detecções de sífilis e HIV, doenças que, assim como as hepatites (em especial a B) são de transmissão sexual”, diz Ana.

“A situação não é nova, mas nossa capacidade de sensibilizar a população para hábitos de prevenção e quebrar a cadeia de transmissão destas doenças não tem sido efetiva. Ainda há muita resistência ao uso rotineiro do preservativo e muitas pessoas não acreditam, apesar das campanhas, no risco que pequenos hábitos do dia a dia (como o compartilhamento de lâminas de barbear ou frequentar salões de beleza ou estúdios de tatuagem sem alvará sanitário, por exemplo) podem ter na transmissão de hepatites”, avalia. Além disso, como essas doenças deixaram de ser novidade, as pessoas tendem a não se preocupar mais.

Por conta disso e para alcançar a meta de eliminar a doença até 2030, algumas estratégias municipais têm sido revistas. A ideia é reforçar a capacidade diagnóstica, especialmente na população que não costuma frequentar as unidades de saúde, como os jovens, as pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, entre outros. Embora as hepatites possam atingir qualquer pessoa, o diagnóstico nessas populações é mais difícil pelo distanciamento entre seus hábitos e as rotinas das unidades de saúde.

Outra medida é a avaliação de formas mais efetivas para mudar os hábitos da população, intensificando a orientação e fiscalização de serviços que possam facilitar a transmissão de hepatites (salões de beleza, estúdios de tatuagem, etc). E, ainda, ampliar a vacinação contra a hepatite B em todas as faixas etárias. “A vacina contra a hepatite B está disponível em todas as unidades de saúde para crianças e adultos, permanentemente, mas várias medidas têm sido adotadas para resgatar a cobertura vacinal das crianças e intensificar a vacinação dos adultos”, afirma a gerente da Vigilância, Ana Vidor.

As estratégias estão alinhadas ao plano nacional, mas o município deve reforçar as medidas de prevenção, que também são essenciais para o controle das doenças. Para Ana, a valorização do preservativo como importante aliado da prática sexual com maior segurança e a adoção de hábitos saudáveis devem ser incluídos em todas as atividades rotineiras.

“Embora acreditemos que muitas pessoas tenham hepatites e ainda não saibam, a verdade é que a facilidade diagnóstica é uma realidade”, diz Ana. A testagem de hepatite foi expandida para as unidades de saúde em Florianópolis em 2014, mas ainda deverá contar com campanhas de sensibilização da sociedade e parcerias com organizações que permitam atingir grupos populacionais que não costumam procurar os centros de saúde rotineiramente.

A Secretaria municipal de Saúde deve reforçar a divulgação e realização dos testes rápidos e a vacinação de adultos em 28 de julho, Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais. “Neste momento de vulnerabilidade também para o sarampo, devemos aproveitar a sensibilização da população para o assunto e colocar as vacinas da população adulta em dia. Esperamos que, com o apoio da imprensa e sensibilização da população, mais pessoas procurem por estes serviços”, reforça a gerente.

Teste rápido para hepatites virais pode ser feito nos postos de saúde - Altemar Alcantara/Fotos Públicas/Divulgação
Teste rápido para hepatites virais pode ser feito nos postos de saúde – Altemar Alcantara/Fotos Públicas/Divulgação

Plano nacional de erradicação 

O Brasil anunciou em julho o Plano Nacional para Eliminação da Hepatite C até 2030, com a oferta de tratamento para todas as pessoas infectadas, independente do grau de comprometimento do fígado. Em parceria com estados e municípios, o objetivo é simplificar o diagnóstico, ampliar a testagem e fortalecer o atendimento às hepatites virais.

As metas estão alinhadas com as da OMS (Organização Mundial de Saúde), que prevê a redução de 90% dos casos e de 65% das mortalidades associadas às hepatites, até 2030. O maior desafio brasileiro deve ser a busca das pessoas diagnosticadas que ainda não estão em tratamento e das não diagnosticadas.

Segundo Dulce Quevedo, o enfrentamento das epidemias de hepatites virais, sobretudo a epidemia da hepatite C, exige uma política bem estruturada de saúde pública. “Medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento universal seguramente conferem ao nosso país papel de destaque na luta pela eliminação dessa doença em todo o mundo”, analisa.

Ela explica que estado e municípios estão fazendo ações de diagnóstico precoce através de testes rápidos com foco nas populações prioritárias (acima de 40 anos). “O diagnóstico precoce é uma das principais ações a serem realizadas para que o tratamento ocorra o mais breve possível”, avalia.

A doença também pode estar associada com a infecção do vírus HIV (Aids), porém, nos últimos dez anos há redução no percentual de coinfecção, segundo a gerente da Dive. “Entre as regiões brasileiras, a região sul é a que apresenta a maior proporção de indivíduos coinfectados, 12,7%. E vale ressaltar que o paciente com Aids fica mais suscetível a outras doenças”.

Panorama da hepatite C no Brasil

Em 2017, a taxa de incidência da doença no Brasil foi de 11,9 casos para cada 100 mil habitantes. Foram 40,1 mil casos novos de hepatites virais em 2017, sendo 24,4 mil de hepatite C.

Para 2018, a meta é diagnosticar 30 mil pessoas, a partir de 2019, e 40 mil ao ano até 2030. Para aumentar o diagnóstico, o Ministério da Saúde distribuiu 12 milhões de testes em 2017; destes, 9 milhões foram para hepatite C. A meta é testar 100% do público prioritário até 2030.

Dados divulgados pelo MS no Boletim Epidemiológico Hepatites Virais 2018 revelam que o número de óbitos devidos a doença vem aumentando ao longo dos anos em todas as regiões do Brasil. De 2000 a 2016, foram computados 50.179 mortes associadas à hepatite C. Destas, 54% (27.103) tiveram essa infecção como causa básica da morte.

Entre as regiões brasileiras, a maior parte dos óbitos por hepatite C ocorreram no Sudeste (56,7%), seguidas do Sul (23,6%), Nordeste (10,7%), Norte (4,7%) e Centro-Oeste (4,2%). O número de mortes por hepatite C no último ano foi 60% maior entre o público masculino do que o feminino.

Saiba mais sobre a doença

A transmissão do vírus HCV pode ocorrer por meio do compartilhamento de objetos como agulhas e seringas, lâminas de barbear ou de depilar, instrumentos para uso de drogas, materiais de manicure, escovas de dente ou materiais para confecção de tatuagens e colocação de piercings. A contaminação por via sexual entre parceiros heterossexuais é muito pouco frequente, porém, entre homens homossexuais e na presença da infecção pelo HIV (vírus da Aids), a possibilidade de transmissão também deve ser considerada.

O diagnóstico das hepatites virais pode ser realizado através de exames de sangue. “No que diz respeito às hepatites B e C, o SUS (Sistema Único de Saúde) disponibiliza os testes rápidos, que fornecem o diagnóstico em poucos minutos. Esses testes podem ser feitos nas unidades de saúde em todos os municípios”, explica Dulce Quevedo, da Dive.

Ao contrário das hepatites A, B e D, não há vacina para o tipo C. O tratamento é feito com antivirais de ação direta, disponível no SUS desde 2015. As taxas de cura são superiores a 90% e todos os pacientes são tratados, independente do grau de lesão do fígado.

O surgimento de sintomas em pessoas com hepatite C aguda é muito raro. Entretanto, os mais comuns são:
– cansaço;
– tontura, enjoo e/ou vômitos;
– febre;
– dor abdominal;
– pele e olhos amarelados;
– urina escura e fezes claras.

Por se tratar de uma doença silenciosa, é importante consultar um médico regularmente e fazer os exames de rotina que detectam todas as formas de hepatite. O diagnóstico precoce da doença permite um tratamento mais eficaz e está disponível nos postos de saúde, pelo SUS.

Os tipos de hepatite

As hepatites virais se dividem nos tipos A, B, C e D.

O tipo A é transmitido pela água e alimentos contaminados e há registros de surtos recentes de transmissão pelas práticas sexuais oral-anal. A doença pode ser prevenida com uma vacina, disponível no SUS. Em crianças, a imunização está disponível a partir de 15 meses e abaixo dos cinco anos de idade.

A hepatite B é a segunda causa de óbitos entre as hepatites virais e sua transmissão ocorre por sangue contaminado, sexo desprotegido, compartilhamento de objetos cortantes e de uso pessoal e por transmissão vertical (da mãe para o feto no útero ou recém-nascido durante o parto). A prevenção é feita com vacina disponibilizada no SUS. Em crianças, são quatro doses, e em adultos que não se vacinaram na infância, são três doses.

O tipo C é líder no número de mortes entre todos os tipos de hepatites virais. A transmissão se dá por sangue contaminado, sexo desprotegido, compartilhamento de objetos cortantes e de uso pessoal. A incidência é maior em adultos acima de 40 anos. Não há vacina. O tratamento é feito com antiviral de ação direta, com chances de cura acima de 90%.

A hepatite D, ou Delta, é causada pelo vírus D (HDV) que depende da presença do vírus do tipo B para infectar uma pessoa. As principais medidas de proteção são a vacinação contra a hepatite B, uso da camisinha em todas as relações sexuais, não compartilhar de objetos de uso pessoal.

Mais conteúdo sobre

Estado

Nenhum conteúdo encontrado