Santa Catarina é único estado sem indicado para posto no BRDE

No dia 24 de março de 1961, em sua primeira reunião com governadores na figura de presidente da República, em Florianópolis, Jânio Quadros acertou os ponteiros para a criação de um banco que fosse capaz de fazer com que o desenvolvimentismo nacional também pudesse chegar aos três Estados do Sul. O movimento foi encabeçado pelo gaúcho Leonel Brizola (PTB), que com apoio do catarinense Celso Ramos (PSD) e do paranaense Ney Braga (PDC) conseguiu convencer o governo federal a criar o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul).

Renato Mello Vianna, diretor administrativo do BRDE - Divulgação/ND
Renato Mello Vianna, diretor administrativo do BRDE – Divulgação/ND

Tendo como primeiro presidente o ex-governador Aderbal Ramos da Silva, ao longo de seus 58 anos de existência, o BRDE tem funcionado como principal braço do desenvolvimento nos três Estados do Sul. O banco surgiu como um contraponto ao Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, que concentrou investimentos nas indústrias automobilísticas e eletroeletrônicas do Sudeste.

Formada por cinco membros, a diretoria do banco é composta por um representante indicado pelo governador de cada Estado, um de escolha comum ou por maioria de indicação dos governadores dos três Estados e um indicado pela União. A diretoria e presidência do órgão são ocupadas em sistema de rodízio, cujos mandatos encerram em fevereiro deste ano.

A nova diretoria deve tomar posse em março, e apesar de os governadores Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, já terem acenado com suas indicações, o govenador catarinense Carlos Moisés (PSL) não tem previsão de quando deve divulgar a indicação catarinense para a cadeira.

Dos três governadores eleitos, Moisés foi o único que não citou o BRDE em seu plano de governo. Enquanto Ratinho Júnior elencou propostas para o desenvolvimento regional através da requalificação e reorganização do sistema paranaense de fomento, incluindo o BRDE, e o governador Eduardo Leite fala em incrementar financiamentos para o setor produtivo por meio do banco, em Santa Catarina, até o momento não há sinais de como a Casa D’Agronômica vai se utilizar da estrutura.

Notório saber indispensável

Há 12 anos no BRDE, o ex-deputado constituinte Renato Mello Vianna lembra que a cadeira destinada aos membros da diretoria exigem muito mais do que conhecimento técnico. São a expertise e a experiência pública que têm trazido ao banco resultados invejáveis.

“Em 12 anos, o patrimônio líquido do BRDE passou de R$ 835 milhões para R$ 1,1 bilhão. Só de ICMS, para os três Estados, nesse período foram R$ 3,8 bilhões”, aponta Vianna, que está prestes a encerrar seu ciclo à frente da instituição onde atualmente ocupa o cargo de diretor administrativo.

“Espero que ele [o governador Moisés] entenda que o banco é um indutor do desenvolvimento para Santa Catarina. No Estado, o BRDE tem uma história na agricultura, na indústria, no serviço, na geração de energia limpa e também na infraestrutura. O que esperamos é que siga assim, sendo o braço do desenvolvimento do Estado”, emendou.

Entre 2004 e 2008, Santa Catarina foi o sexto maior Estado a receber recursos do BNDES, que aportaram por aqui através da mediação do BRDE, ficando atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Ceará e Maranhão.

Mesmo assim, Vianna lembra que a atual diretoria tem trabalhado para diversificar seu leque de recursos. Até 2017, o BNDES representava 93% dos investimentos do banco. No ano passado, com esforços para novas captações, o banco conseguiu recursos do Fundo do Turismo, de fontes externas e ampliou os aportes da Caixa Econômica e do Finep.

Financiando o desenvolvimento do Sul

Veio do BRDE, por exemplo, a linha de financiamento para início das operações da WEG, de Jaraguá do Sul, que hoje é uma das maiores fabricantes de equipamentos elétricos do mundo. Na década de 1980, o banco viabilizou a implantação do polo petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul, e atualmente destina 60% de seus investimentos no Paraná às cooperativas agropecuárias. Em Santa Catarina, o BRDE investiu pelo menos R$ 300 milhões na área de tecnologia e inovação, permitindo a instalação do Sapiens Parque, no Norte da Ilha.

Em 2013, no maior investimento da história, o BRDE aplicou R$ 240 milhões na instalação da fábrica da BMW em Araquari, em um plano de 48 meses para recebimento. Até mesmo uma das turbinas da binacional Itaipu foi adquirida com recursos do banco. Em 2018, o balanço financeiro da instituição apontou um lucro de R$ 178,5 milhões, 18% maior que o projetado para o período e 46% maior que o conquistado em 2017.

Em Santa Catarina, os maiores investimentos são direcionados aos municípios, que tiveram acesso facilitado aos recursos do banco com os programas Avançar Cidades e Fundam. “Nesses programas conseguimos chegar aos 295 municípios do Estado”, diz Vianna. O segundo setor que mais financia com o banco é o agroindustrial. Energia, indústria de transformação e comércio também estão entre as principais contratações. Em 12 anos, o BRDE gerou 675.700 empregos nos três Estados. Em Santa Catarina foram 168 mil indiretos e 33.606 diretos.

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