20 crianças e adolescentes estão na fila de espera por leito psiquiátrico em SC

Quando Arthur* amanhece violento em meio aos surtos, a mãe, Nise*, corre até o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Itajaí, no Litoral Norte, para pedir ajuda. O menino de 10 anos diagnosticado com esquizofrenia precisa de acompanhamento contínuo para que os medicamentos sejam administrados conforme a sua necessidade.

No mundo ideal, nos momentos de surto, ele seria internado em um leito de saúde mental destinado a crianças e adolescentes. Só que na vida real não é bem assim que funciona.

Arthur gosta de desenhar caminhões – Foto: Arquivo pessoal/ND

A fila de espera de 20 crianças e adolescentes por leitos psiquiátricos em Santa Catarina atrasa o tratamento e piora a qualidade de vida do garotinho.

O dado foi obtido via Lei de Acesso à Informação pela Secretaria de Estado da Saúde. A informação é do dia 2 de outubro e pode ter alterado até a publicação desta reportagem. 

Na primeira vez em que Arthur foi internado, os pais esperaram três meses até conseguirem um leito pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Hoje, há 14 leitos disponíveis para crianças e adolescentes em Santa Catarina. A única unidade de saúde que oferece esse serviço é o Hospital Infantil Doutor Jeser Amarante Faria, em Joinville, no Norte do Estado.

Quem mora nos outros extremos do estado, como no Oeste, por exemplo, precisa deslocar mais de 600 quilômetros até a unidade especializada. 

Atuação da Justiça em 25% das internações

Das 285 internações ocorridas em 2018, 25% foram forçadas por decisões judiciais (o que corresponde a 71 casos). Além disso, a diretoria técnica da unidade hospitalar confirmou que 73 pacientes foram deslocados de outros municípios para Joinville.

Marieta*,  mãe da menina Clarice*, 13 anos, que mora em Lages, na Serra de Santa Catarina, distante 340 quilômetros de Joinville, foi uma das que recorreu à Justiça.

A medida foi tomada após três semanas de espera para internar a filha que sofre de depressão aguda e tentou suicídio em julho. “Era um momento muito triste nas nossas vidas e piorou muito por causa da falta de vaga”, contou. 

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Outra mãe que vive o drama diário pela falta de vagas é Aurelia* que vive em São José, na Grande Florianópolis. A filha, Sylvia*, que hoje tem 13 anos, recebeu diagnóstico de transtorno de humor em 2018 e já passou por três internações após ter sido constatada ideação suicida (pensamentos e planos de morte).

Na segunda vez em que a menina Sylvia precisou ser encaminhada ao hospital, como não havia vaga em Joinville, foi parar na área de isolamento do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis – de onde conseguiu fugir.

Após dois dias na unidade, outra criança precisou ocupar o leito dela e Sylvia foi transferida para a ala de ortopedia. Só que a estrutura não é adequada para receber crianças com transtornos mentais. 

“Na prática, essa história de setembro amarelo e de prevenção ao suicídio não existe. Eu tive que ficar do lado dela 24 horas por dia, do contrário, ela sairia correndo de tão ansiosa que estava. Houve um dia em que amarraram os braços e as pernas dela e do lado havia outras crianças”, denunciou Aurelia.

Cristina Pereira – Foto: Anderson Coelho/ND

Transtorno bipolar e depressão entre as internações

Divulgado pela área pediátrica do Hospital Infantil de Joinville, o boletim epidemiológico revelou que a média de duração de cada internação em 2018 foi de 13 dias, assim como a média de idade dos pacientes foi de 13 anos.

Pouco mais da metade das vagas, o equivalente a 55%, foi ocupada por meninos.

O diagnóstico revela ainda que quase metade dos 285 pacientes internados em 2018 sofriam de Transtorno Afetivo Bipolar, Transtorno de Humor ou Depressão. 

Veja os detalhes no gráfico abaixo: 

Falta de leitos resultou em inquérito

No município em que Marieta vive, na região Serrana, o Ministério Público instaurou inquérito para investigar os motivos da inexistência do serviço de saúde mental. O procedimento começou em 2011. 

À época, a administração do Hospital Infantil Seara do Bem já havia dado sinal positivo para a implementação de 10 vagas para crianças e adolescentes. Mas cinco anos se passaram sem que a construção fosse realizada.

Se a ala estivesse pronta, os pacientes não precisariam viajar mais de 300 quilômetros para serem internados em Joinville. 

“[A distância] acaba trazendo mais dificuldade e sofrimento. Eu cuido sozinha da minha filha e quando ela foi internada precisei deixar meu filho de 8 anos com outras pessoas. Foram 20 dias dentro do hospital longe do meu pequeno e do trabalho”, contou.

Em junho deste ano, após a Secretaria de Estado da Saúde descumprir dois prazos para assinatura de convênio que resultaria na construção de ala psiquiátrica, a Justiça bloqueou R$ 1,7 milhão das contas do Estado.

Só então, o Hospital Infantil Seara do Bem e a Secretaria firmaram convênio. A promessa é de que a estrutura fique pronta até setembro de 2020.

OMS recomenda 11,3 leitos para cada 100 mil habitantes

Levando em conta as vagas disponíveis para adultos somadas aos 10 leitos para menores de idade em Joinville, Santa Catarina possui 307 leitos. A determinação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de que haja 11,3 leitos para cada 100 mil habitantes.

Se fosse levar a risca essa determinação, o Estado precisaria mais do que dobrar as vagas e promover a oferta de 806 leitos. 

Embora os dados ajudem a dar um parâmetro sobre a situação, não indicam especificamente a abrangência de atendimento direcionado à crianças e adolescentes.

Como a demanda é constante, algumas vagas de adultos acabam sendo preenchidas pelos menores como medida de emergência.

Segundo a presidente da Associação Catarinense de Psiquiatria, Lilian Lucas, as crianças não podem esperar.

“Quando há um surto, a espera por atendimento ideal pode aumentar a gravidade do quadro clínico e, por consequência, provocar mais dor e sofrimento”, destacou. 

A coordenadora do Núcleo Estadual de Saúde Mental, Caroline Galli Moreira, afirma que os profissionais de todos os setores são capacitados para atender da melhor forma os menores e prevenir o avanço dos transtornos.

“É importante dizer que há uma crescente no número de casos e que o Estado trabalha para atender todos bem”, ponderou.  

Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria conta com 14 leitos de saúde mental – Foto: Mariana Luiza dos Santos/HJAF

Sem previsão para abertura de leitos na Capital

Na Grande Florianópolis, o único hospital que oferece atendimento psiquiátrico é o Instituo de Psiquiatria de Santa Catarina, em São José. A unidade oferece 160 leitos para adultos. Não há, no entanto, ala específica para criança e adolescente. 

Para reverter o cenário, a Secretaria de Estado da Saúde trabalha na construção de um projeto que prevê abertura de oito leitos psiquiátricos no Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis.

Embora o hospital não conte com ala especializada em saúde mental, os profissionais foram capacitados e prestam atendimento em casos de emergência. Só que ainda não há previsão de início das obras. 

Famílias pedem criação de ambulatório especializado

Moradora de São José, na Grande Florianópolis, a mãe Aurelia defende a ampliação do serviço. Ela e outras mães se uniram e reivindicaram via Defensoria Pública a construção de um Ambulatório Multidisciplinar voltado para crianças e adolescentes.

O psiquiátra do Hospital Infantil Doutor Jeser Amarante Faria, Daniel Rufato, faz coro ao apelo das mães e afirma que o ambulatório ajudaria no tratamento dessas crianças, uma vez que receberiam atendimento especializado.

“Algumas unidades de Caps (Centro de Atenção Psicossocial) não conseguem atender os casos mais sérios, que são exatamente os que acabam precisando de internação”, destacou.

A troca de medicamentos também seria mais eficaz por meio da clínica especializada. A rotina de sete remédios por dia da filha de Aurelia mal permitem que a menina se mantenha de pé.

“Ela não tinha qualidade nenhuma de vida e tomava muita medicação. Por isso, precisou voltar para o hospital. Se tivesse o ambulatório, o médico que cuida dela no hospital ia cuidar dela fora também”, observou a mãe.

Caps é solução paliativa para casos graves

Hoje, quando as crianças saem da internação são encaminhados aos Caps (Centros de Atenção Psicossocial) que fazem parte da política pública de assistência social administrada pelos municípios.

Lá, um médico, nem sempre especializado, acompanha a mudança do medicamento. O paciente também recebe atendimento psicólogo. Porém, as mães reclamam de demora no atendimento.

Quando recebeu alta em setembro, Sylvia, a filha de Aurelia, por exemplo, esperou 30 dias para ser atendida novamente.

Em dezembro de 2017, o Ministério da Saúde anunciou medidas para fortalecer o atendimento no SUS e atualizar a Política Nacional de Saúde Mental. 

Entre as alterações apresentadas está a criação dos ambulatórios e integração com o serviço municipal oferecido pelo Caps. A medida foi reforçada em Nota Técnica publicada em fevereiro de 2019. A política, no entanto, foi fortemente criticada por outros pontos relacionados à internação compulsória. 

Nomes fictícios*

Por se tratar de crianças em tratamento e por uma escolha das famílias entrevistadas, os pacientes e as mães não foram identificados nesta reportagem e tiveram seus nomes substituídos por personagens históricos que também sofreram com problemas de saúde mental.

Arthur Bispo do Rosário: foi um artista plástico brasileiro diagnosticado com esquizofrenia. Ao longo de sua vida, produziu quase mil obras de arte. Não há informações sobre a mãe dele.

Nise da Silveira: médica psiquiatra brasileira reconhecida mundialmente por sua contribuição à psiquiatria. Ela revolucionou o tratamento mental no Brasil. “Só os loucos e os artistas podem me compreender” é uma das suas frases mais famosas.

Clarice Lispector: Uma das maiores escritoras do país, a ucraniana naturalizada brasileira desenvolveu depressão e depressão pós-parto na vida adulta.

Marieta Krimgold Lispector: nome traduzido da mãe de Clarice Lispector. Em Russo, seu primeiro nome era “Mania”.

Sylvia Plath: uma das maiores poetas norte-americanas do século passado, sofreu de depressão durante toda sua vida.

Aurelia Plath: mãe da poeta Sylvia Plath.

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