São Paulo, 9 de dezembro de 1978

Como era bom escrever e receber cartas

O título pode induzir o leitor e a leitora, especialmente aqueles que me acompanham em uma década de escrita, a imaginar mais uma viagem no tempo. E não deixa de sê-la, mas a data 37 anos recuada é apenas um ponto de partida. Ela era o tradicional cabeçalho de uma carta, daquelas que escrevíamos numa era pré-email. Arrisco-me a dizer que ali pelos primeiros dias de dezembro de 1978 eu tenha enviado minha última carta pessoal. A destinatária era minha namorada – hoje esposa –, o endereço a rua Roberto Martin em Rio Negrinho e o conteúdo, mais curto que o normal, apenas informava sobre o dia em que eu embarcaria para as férias de fim de ano. Claro que não faltou todo aquele delicioso floreio de um coração perdido de amor, saudoso das semanas sem vê-la. Digo que aquela pode ter sido a última carta pessoal porque, já no ano seguinte, mudei-me cá para plagas de serra abaixo. Então, pela proximidade, as idas serra acima eram mais frequentes; nos demais dias, o telefone substituía as cartas.

Pelos anos subsequentes, a pequena distância dispensava a comunicação escrita com a família, que eu mantivera nos quase quatro anos como paulistano circunstancial. Cartas, então, só quando o trabalho exigia, ou aquelas bobagenzinhas que eu enviava para a seção do leitor da revista Placar. Nada parecido com as primeiras missivas que redigi na vida, ainda com a incipiente letra da infância, para minha mãe, já moradora da metrópole paulista. Eram duas ou três cartas por ano, nos intervalos entre as vindas de mamãe a Rio Negrinho. Depois, no brevíssimo período morando na chiquérrima esquina das ruas Riachuelo e São Francisco, no Centro de Curitiba, talvez apenas duas cartas: uma tradicional para mamãe, informando da vida em república de estudantes, e outra para papai, reclamando da dura vida em república de estudantes – e anunciando minha decisão de ir morar em São Paulo.

Lá, sim, na Pauliceia Desvairada, minha produção literária foi prolífica. O alto custo das ligações telefônicas tornava mais acessíveis os selos colados nos envelopes. Enchi alguns daqueles blocos com a figura de uma aeromoça na capa, relatando as aventuras paulistanas. Os destinatários eram tia Maria (que compartilhava a leitura em família), meus amigos Líbero e Roberto (o xará Tramontini, vizinho de rua), uma ou duas eventuais ocupantes temporárias do coração e, a partir de julho de 78, pelo menos uma vez por mês, a dona definitiva. A utilização dos blocos era concluída na metade do tempo normal, pois cada carta tinha uma folha de papel-carbono por baixo; então, no final, ficava meio bloco com as cópias (que, lamentavelmente, perdi, assim como toda a correspondência recebida).

A partir de meados dos anos 90, a internet encurtou distâncias e tornou a carta pessoal um ícone do passado. A palavra que, para nós do vigésimo século, representava tão somente uma saca de quinze quilos, virou um ícone da comunicação moderna. Os nascidos sob o signo da arroba (@) nem imaginam como era a sensação de abrir um envelope com moldura verde-amarela, de um lado o seu nome, do outro o de uma pessoa querida. Lá dentro, em letra caprichada, as últimas notícias de casa, da cidade, quem tá namorando quem, os casamentos, nascimentos…

Até cartas de rompimento eram mais emotivas, pessoais. Não essa bagunça de hoje, que o destinatário nem dá bola e ainda mostra pra todo mundo.

Sem mais, um beijo.