Saúde mental na infância: depressão afeta crianças e adolescentes

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Pode começar com uma apatia ou uma mudança súbita de comportamento. O isolamento e a agressividade também são características comuns. Estes sintomas são usados para descrever uma doença que tem crescido cada vez mais entre crianças e adolescentes brasileiros: a depressão. O quadro não tem diagnóstico fácil e necessita de tratamento com equipes multidisciplinares.

O número de casos de depressão infantil no mundo dobrou na última década – Foto: Pixabay

Estima-se que no mundo mais de 300 milhões de pessoas tenham depressão. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o país que mais sofre com a doença nas Américas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. São 11,5 milhões de brasileiros afetados pelo problema de saúde.

No caso de crianças e adolescentes o número de novos casos também preocupa. O índice mundial de crianças de 6 a 12 anos diagnosticadas com depressão passou de 4,5% para 8% na última década segundo a OMS.

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Até 1970 não havia estudos sobre a depressão em crianças e adolescentes. Os casos eram tratados como raros ou inexistentes. “O que não existia era o diagnóstico, mas provavelmente a doença já se manifestava em diversos pacientes”, afirma a psicóloga Fernanda Baggio Gasperin.

Fernanda, que também é neuropsicóloga, fala em três fatores principais que podem ajudar a identificar a doença: a frequência e intensidade dos sintomas e o prejuízo causado pela mesma aos pacientes. Ela alerta ainda para a importância da prevenção.

“Assim como você vê que seu filho está com dor de dente e o leva para o dentista, quando ele apresenta sintomas de problemas psicológicos você deve procurar ajuda”, diz Fernanda.

Por se tratar de um distúrbio mental, a depressão não pode ser diagnosticada por meio de testes e exames laboratoriais. A avaliação é feita por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, neurologistas e outros profissionais da saúde.

O que baliza os diagnósticos dos profissionais da área é o “Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”. Ele elenca algumas características da doença como as  mudanças súbitas de comportamento, transtorno de déficit de atenção, hiperatividade, baixa autoestima, tristeza, medo, distúrbios do sono e baixo rendimento escola.

O texto fala também que as crianças podem apresentar sintomas físicos como dores de cabeça, abdominais, diarreia, falta ou exagero no apetite, insônia, irritabilidade, agressividade ou passividade exagerada e choro sem razão aparente.

Já quando se fala nas causas da doença diversos fatores podem influenciar. A falta de uma estrutura familiar sólida, casos de abuso sexual ou violência, perdas de entes e predisposição genética são algumas das causas que podem levar a um quadro depressivo.

Pesquisa apresenta sintomas da depressão em crianças

Um estudo realizado pelas pesquisadoras Rosana Simão dos Santos Calderaro e Cristina Vilela de Carvalho tentou mostrar as manifestações depressivas em crianças de três a dez anos. Intitulada “Depressão na infância: um estudo exploratório”, a pesquisa foi realizada na cidade paranaense de Paranavaí.

Foram realizadas atividades com nove crianças onde se tentou mostrar a maneira como a depressão se manifesta. Uma delas era Gustavo*. O comportamento agressivo do menino não era entendido pela família. Quando os primos chamam Ivone dos Santos* de “vó”, Gustavo* ficava confuso. Para o menino de três anos, a avó é sua mãe.

Ele nasceu em um presídio e não teve mais contato com a mãe depois de deixar o confinamento. O comportamento agressivo e as mudanças súbitas de humor foram os primeiros sinais de que algo não estava certo. A criança de três anos passou a isolar e colocar em risco sua integridade física.

Outro caso relatado pelo estudo é o de Vitor*. O menino de cinco anos agride os colegas de escola, não participa das atividades propostas pela professora e se joga no chão quando contrariado. Ele ainda apresenta comportamento de automutilação, batendo a cabeça na parede repetidamente e dizendo que não presta.

A pesquisa publicada em 2009 na revista científica “Psicologia em Estudo”, concluiu que a depressão na infância precisa ser diagnosticada de forma correta, não qualificando outros fatores ou doenças que estejam associadas. Outra conclusão que o texto faz é que pais, educadores e profissionais de saúde devem estar alerta aos sintomas apresentados pelas crianças.

Alunos da rede municipal de Florianópolis criam curta sobre a depressão

“Você não se esforça o suficiente”, “Sorria! Você não tem problema, você é só um adolescente”, “Isso é apenas tristeza passageira”. As frases fazem parte do curta-metragem dos  estudantes Vitor Sagás, João Luís de Souza e Bruna Duprat sobre depressão na adolescência.

O projeto foi realizado no ano passado, quando os três estudavam na Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho, nos Ingleses.  O curta era uma atividade da aula de Artes Visuais e foi proposta pela professora Juliana Evangelista da Silveira.

A ideia surgiu quando os alunos estudavam arte contemporânea, trabalhando questões atuais e de seus cotidianos. “Eu queria que eles confrontassem o que sentiam e pudessem representar por meio da arte”, explica Juliana.

O tema depressão foi escolhido pelo grupo de alunos que teve liberdade para produzir o trabalho.

O trabalho será exibido na Mostra Municipal de Artes, que ocorrerá em diversas regiões de Florianópolis nos dias 16, 23, 24, 29, 30 e 31 de outubro.

* Os nomes foram trocados para evitar a identificação das crianças envolvidas 

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