SC Transplantes atinge recorde de doações de órgãos em junho

A doação de órgãos ainda é assunto tabu para milhares de famílias no mundo inteiro. Mas que, graças às equipes das CIHDOTTs (Comissão Intra Hospitalar de Órgãos e Tecidos para Transplantes), presentes em todos os hospitais com mais de 80 leitos, conforme prevê a portaria 1.752/05, do Ministério da Saúde, está aos poucos sendo desmistificado. Exemplo deste trabalho já pode ser sentido em Santa Catarina. No mês de junho, a SC Transplantes conseguiu atingir o recorde de 25 doações de órgãos no estado. O número é equivalente ao total conquistado em 2000, quando a entidade iniciou os trabalhos.

Carlos Junior/ND

Sala onde a enfermeira Fabiana comunica família sobre morte de paciente e sugere a doação de órgãos

“Acabamos o semestre muito bem. O melhor modelo de gestão de doações é espanhol, e a nossa estrutura foi montada com base neste modelo. Na Espanha, a média é de 35 doadores por cada milhão de habitantes, e pela parcial do primeiro semestre fechamos com 28 doares por milhão de habitantes em Santa Catarina”, afirma o médico Joel de Andrade, coordenador SC Transplantes. É ele quem destaca o trabalho fundamental dos coordenadores das CIHDOTTs, enfermeiros e médicos responsáveis em conversar com as famílias de possíveis doadores após a confirmação da morte encefálica, ou por parada cardiorrespiratória.

Neste último caso apenas para doação de tecidos (córneas, pele ou osso), e não órgãos. De acordo com Andrade, o trabalho destes coordenadores não é de pedir, ou solicitar que a família faça a doação. “É sempre uma oferta, a gente oferece para a família a possibilidade de doar os órgãos e ajudar outras pessoas. Tem famílias, inclusive, que descrevem a doação como o único exemplo positivo com a perda do parente”.

O médico explica que os profissionais das CIHDOTTs primeiro devem observar como a família do doador reage à morte. Por exemplo, caso eles usarem o verbo no presente para se referir ao parente falecido não é hora de realizar a abordagem. “Eles precisam checar como a família absorve a notícia. Quando eles começam a falar do doador usando o verbo no passado é porque estão aceitando a realidade”. Depois que a família autoriza a retirada dos órgãos, começa o trabalho para encontrar um receptor compatível na lista de espera.

“Os pacientes de Santa Catarina tem a preferência, mas se não houver ninguém compatível o órgão é encaminhado para outro estado”, diz Andrade.

Joinville tem 1/3 de pacientes na fila de espera por transplante

Em Santa Catarina, 1.070 pessoas aguardavam por transplante de órgão até o mês de maio. As maiores demandas são para córnea e rim, 488 e 390, respectivamente. Conforme o médico Joel de Andrade, 1/3 deste pacientes é joinvilense. Ele estima que entre 350 a 400. No município, profissionais com os enfermeiros Ivonei Bittencourt e Fabiana Marcoski são os responsáveis por conversar com as famílias de pacientes que sofreram morte encefálica e convencê-los a fazer a doação de órgãos.

Bittencourt pertence ao CIHDOTT do Hospital São José, unidade com mais possibilidades de doações no estado. É pra lá que seguem a maioria das vítimas de acidentes de trânsito e violência na região Norte. Até maio, o São José ocupava o segundo lugar no ranking de doadores no estado, atrás somente do Hospital Santa Isabel, em Blumenau. Foram 19 notificações de mortes encefálicas e cinco doações. Em junho, e nestes primeiros dias de julho, ainda não houve doadores.

“Temos que acompanhar a família desde o inicio, quando já existe suspeita de morte encefálica. São feitos três testes até confirmar o óbito e é importante estarmos juntos”. O momento da abordagem, de acordo com Bittencourt, acontece quando ele percebe que a família já está na fase se aceitação da morte.  Mesmo assim, não raramente, o processo esbarra em questões culturais. “É mais uma questão cultural que as pessoas projetam na religião. Tem pessoas que perguntam: – E se na outra reencarnação ele precisar dos órgãos, como vai ser?”, conta.

O enfermeiro, no entanto, garante que todas as religiões ocidentais são a favor da doação de órgão. E ressalta a importância do doador manifestar seu desejo ainda em vida.  “É fundamental as famílias conversam sobre isso, o doador expressar este desejo enquanto está vivo”. Bittencourt diz que seu trabalho no CIHDOTT é bastante difícil, mas com certeza compensador.

“Tem casos muitos difíceis, a gente também sofre junto com a família. Mas é um trabalho compensador. Existem pessoas que a gente vê morrendo enquanto espera pelo transplante, umas que morrem antes de conseguir”.

Histórias de vida e morte

A enfermeira Fabiana Marcoski está há quatro anos na equipe do CIHDOTT do Hospital Infantil Jesser Amarante Faria. Neste período testemunhou histórias emocionantes de pais que decidiram doar os órgãos do filho (a) morto para dar uma chance a outras pessoas. Ela recorda que em março ocorreu a maior doação da unidade. Foram os pais adotivos de um menino de nove anos, vítima de atropelamento, quem autorizaram a captação.

“A gente nem chegou a abordá-los, foi a mãe do menino que nos procurou e manifestou o desejo de doar os órgãos. O modo como ela chegou ao hospital, falava com a gente, infelizmente já sabíamos que o quadro dele acabaria evoluindo para morte cerebral, nos emocionou. Foi a doação mais fácil, e ao mesmo tempo mais complicada”. No mês passado, outra situação bastante difícil comoveu a enfermeira.

Ainda na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital em Jaraguá do Sul a mãe do menino Djonatan Eduardo Klitzke, de oito anos, vítima de um soterramento de terra em Guaramirim, autorizou a retirada dos órgãos do filho. “A gente entrou em contato com a CIHDOTT de lá e não foram nem eles quem conversaram com ela, organizaram tudo para que o pai do menino fosse dar a notícia. Os dois decidiram juntos doar os órgãos do filho”.

Fabiana explica que em caso de doador menor de 18 anos é necessária a autorização de ambos os pais. Porém a da mãe é ainda mais importante. A enfermeira e os outros integrantes da CIHDOTT acompanham todo o processo de doação, desde a retirada dos órgãos a liberação do corpo para a família. “É importante estar sempre em contato com a família, mantê-los informados. O trabalho é bastante difícil, abordar alguém logo depois da morte de um filho, um afilhado. Tem uma carga psicológica muito intensa”.

Em junho foram feitas duas doações de órgãos no Hospital Infantil, uma a mais do que neste primeiro dias de julho. No ranking estadual de doadores, a unidade ocupava até maio a 24° posição.

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