Secretário Rauen ameaça mandar demolir escola em construção na Via Expressa Sul

Construção está embargada pelo município, mas as obras continuam sob responsabilidade do governo do Estado

Rosane Lima/ND

A obra foi embargada em fevereiro, mas operário continuam a edificação

Embargada desde fevereiro por estar numa AVL (Área Verde de Lazer), a obra da Escola Estadual Júlio da Costa Neves, na Via Expressa Sul, a obra continua em andamento. A área em questão deve servir para entretenimento comunitário e ter limite de construção de 10% do terreno. A discórdia coloca em lados opostos os governos municipal e estadual. Hoje serão colocados lacres ao redor do local embargado, com auxílio de fiscais da prefeitura e da Polícia Militar.

José Carlos Ferreira Rauen, secretário da SMDU (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano) explica que a obra é “clandestina” e que o Estado iniciou a construção sem autorização da prefeitura. “Eles ignoraram o município, nossas leis, o Plano Diretor da cidade”, disse. Garante que se houver mais um descumprimento a escola será demolida.

Já Karen Lippi de Oliveira, diretora de Infraestrutura Escolar da Secretaria de Estado da Educação, explicou que a expectativa do secretário estadual Eduardo Deschamps é que a construção tenha continuidade dentro do prazo de três meses estipulado pela União – que cedeu as terras. Ela lembra que um projeto de lei foi encaminhado à Câmara de Vereadores, solicitando a mudança do zoneamento de AVL para ACI (Área Comunitária Institucional. Cabe à Câmara de Vereadores votar, no próximo mês, para tentar resolver o impasse. Se aprovado, o projeto altera o Plano Diretor.

A situação atinge 280 estudantes. O governo do Estado teve a rapidez para desalojar os alunos da antiga sede, para que fosse construído o Elevado da Seta. Em um mês, eles foram realocados num antigo comércio, onde funcionava um açougue, uma barraca de caldo de cana, uma estrebaria, duas churrasqueiras e uma sala residencial. Mas a ocupação, que deveria ser provisória, perdura há seis anos. Metade dos alunos desistiu da instituição. Os que ficaram estão descrentes.

O improviso deveria ser resolvido num prazo de um ano, em 2007, mas a obra com 5,9 mil metros quadrados, às margens da Via Expressa Sul, já foi embargada três vezes. Rauen entende que a continuidade da obra é desobediência civil. “Caso se repita, irei pedir uma audiência de ação civil pública contra o secretário de Estado da Educação, que é responsável pela obra.”

Fotos Daniel Queiroz/ND

Alunos da antiga sede da escola se sentem desmotivados com a atual instalação

A saga pelo ensino

Cerca de 50 alunos, que estudavam na antiga sede, permanecem na escola localizada na Costeira do Pirajubaé. Alguns já se formaram, outros pediram transferência e muitos desistiram de estudar. A funcionária mais antiga da instituição – que não quis se identificar – disse que, em 2006, o número de alunos “era dobrado”.

Sabrina Rodrigues de Sá, Vinícius Coelho Elias e Izabela Franzoi, todos com 15 anos, estudavam na antiga sede, onde hoje é o Elevado da Seta – que liga o Centro ao Sul da Ilha. Os estudantes lembram que quando voltaram das férias tiveram que ir para o prédio improvisado. “Nos primeiros dias, tinha um cheiro forte de peixe, carne e camarão”, contou Vinícius.

“Na 4ª série, o teto da sala desabou”, contou Izabela. Depois da mudança, a menina pensou muitas vezes em pedir transferência, mas ficou pelo convívio com os amigos. “Aqui não tem quadra de esportes, nem espaço na biblioteca, temos aulas no refeitório. No laboratório de informática a internet não funciona, a gente perde a vontade de ficar aqui”, disse. “E no antigo colégio tinha uma quadra grande de futsal”, interferiu Sabrina.

Toda vez que chove, o pátio alaga e a educação física é cancelada. Algumas crianças vão para a Júlio da Costa Neves com galochas – botas de plástico. O pequeno Luan, seis anos, explicou: “É que tem muita água onde estudo.”

Pátio inundado faz algumas crianças irem à escola com botas de borracha

 “Vai ter balanço?”

Brincando entre as poças d’água, as crianças menores percebem a situação da escola. Priscila Silva, 11, contou que quando alguma bola bate, por acidente, no muro, ele balança. Na mesma ocasião, Natália Rodrigues, 8, que estava distraída, perguntou: “A escola vai ter balanço?” Os pequenos riram e Priscila logo explicou para a amiga: “Não, Natália, o muro é que balança!”

Muitas salas de aula têm a rede elétrica exposta, o teto próximo à cozinha está solto, muitas portas e janelas estão quebradas; e as maçanetas, enferrujadas.

Sabrina, Vinícius e Izabela estão na 8ª série e têm uma preocupação: “Aonde vamos nos formar, se aqui não tem salão, auditório e microfone?”

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