Seis meses após incêndio, famílias de vítimas reclamam de omissão do Flamengo

Atualizado

Seis meses após um incêndio de grandes proporções nas instalações do Ninho do Urubu deixar dez atletas mortos e três feridos, a maioria das famílias das vítimas fatais ainda não foi indenizada pelo Flamengo e as negociações estão travadas.

Por enquanto, o clube entrou em acordo só com os familiares de Athila Paixão e Gedson Santos, além do pai de Rykelmo Souza – a mãe do jogador segue sem acordo com a diretoria da equipe.

Incêndio deixou dez mortos no centro de treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro – Reprodução/Record TV

O Estado conversou com Rosana Souza, mãe de Rykelmo, e com as outras sete famílias que ainda não foram indenizadas. Pais e mães dos garotos divergem quanto à possibilidade de um acerto financeiro. Alguns estão otimistas em resolver a situação sem ir à Justiça, outros não veem dessa forma, como é o caso de Rosana, que já entrou com um processo judicial contra o clube. Um ponto, no entanto, une todos eles, conforme disseram ao Estado: a omissão e o descaso do clube na questão.

“O Flamengo está irredutível e as famílias estão indignadas com sua diretoria pela ausência total de diálogo. Estão se sentindo abandonados”, diz o defensor público do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Pacheco.

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Assim que as mortes foram confirmadas, a Defensoria Pública e o Ministério Público do Rio foram chamados pelo Flamengo para ajudar num acordo. O clube, porém, que paga ajuda mensal de custo de R$ 5 mil às famílias, não concordou com a proposta apresentada na ação coletiva e passou a negociar individualmente com cada uma delas.

Estabelecendo parâmetro de indenização a partir de uma das famílias, o clube se fortaleceu para não negociar valores superiores com os demais. Valores não são revelados porque há uma cláusula de confidencialidade.

No momento, o defensor, que representa a família do lateral Samuel Rosa, garante que não há outra opção a não ser a via judicial. “O único caminho que temos é o do judiciário. É péssimo porque é uma ação que não vai durar menos de 10 anos”, lamenta Pacheco. À frente da Defensoria Pública, ele e o MP do Rio entraram com ação dias após a tragédia pedindo o bloqueio de R$ 57 milhões das contas do Flamengo, mas a Justiça ainda não deu uma resposta ao caso.

O principal motivo para que as negociações estejam emperradas é a espera pela resolução do inquérito da Polícia Civil que investiga os responsáveis pelo incêndio. Recentemente, o MP do Rio não denunciou os dez indiciados no caso, incluindo o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello, e solicitou que o inquérito retornasse à 42.ª DP do Recreio dos Bandeirantes para que as apurações fossem aprofundadas. O prazo estipulado pelo MP vence no início de setembro.

“O clube tem tratado o assunto com distância, sem intenção de resolver a questão”, afirma o advogado Henrique Wolff, que representa a mãe do volante Jorge Eduardo. De acordo com o advogado Alexandre Soares, defensor contratado pela mãe do zagueiro Arthur Vinícius, a diretoria do Flamengo não o procurou sequer para fazer uma oferta. “Caso não tenha acordo, a Justiça será o caminho”, diz.

Outro lado

Ao Estado, o vice-presidente geral e jurídico do Flamengo, Rodrigo Dunshee, afirmou que, após a tragédia, o presidente Rodolfo Landim colocou um staff grande à disposição das famílias, que os advogados do clube estão em contato direto com os representantes legais dos familiares e a proposta aceita por duas famílias e o pai de Rykelmo também foi apresentada para os representantes legais dos outros familiares.

Segundo Dunshee, “o passo inicial para que as conversas resultem num acordo é as pessoas entenderem que, embora o Flamengo seja responsável, ele não teve culpa e intenção de prejudicar ninguém”. Ele se mostrou otimista quanto à possibilidade de consenso entre as partes.

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