Moradores do bairro Vila Nova sofrem com a faltade qualidade da água, em Joinville

Nascentes da região da Rodovia do Arroz e Estrada Blumenau sofrem fenômeno químico natural que as contamina com metais pesados

Fotos: Fabrício Porto/ND

Fabrício Porto/ND

Na propriedade do agricultor Ingoberto Altrak, água de poço só para limpeza e banhos

Contaminadas com ferro, enxofre, magnésio e coliformes fecais, as águas das nascentes de rios e poços que abastecem as propriedades e são consumidas pelos moradores da Rodovia do Arroz, no bairro Vila Nova, há décadas prejudicam a saúde. Há 15 anos, o agricultor Ingoberto Altrak, 58 anos, presidente da Amaesb (Associação de Moradores e Amigos da Estrada do Sul e Blumenau), precisou fazer uma cirurgia no intestino. A causa das hemorragias que obrigaram a intervenção cirúrgica, segundo seu médico, foi a contaminação da água. Em busca de uma solução, no próximo dia 16, a associação se reúne com a Companhia Águas de Joinville para voltar a debater a expansão da rede de água para cerca de 80 famílias da área rural.

Todos os meses, Ingoberto gasta, em média R$ 100,00 para comprar água mineral para consumo e preparo da comida. Morador da Rodovia do Arroz há 28 anos, ele só começou a se preocupar com a qualidade da água depois da doença. “Tinha muito sangramento e tive que operar o intestino. Foi tirado mais de meio metro. O médico disse que era da água e aí a gente começou a batalhar mais forte pela rede, mas nunca veio”, conta. Mesmo tendo dois poços na sua propriedade, o agricultor eventualmente fica sem água dentro de casa. “Já chegaram a secar os dois. E agora que está um tempo sem chover, tem um secando de novo. E olha que um poço tem dois metros e, o outro, dois metros e meio de profundidade”, detalha.

Em análise laboratorial, Ingoberto constatou o que outros vizinhos também já comprovaram: a água que sai dos poços está carregada de ferro e de outros metais pesados, um fenômeno natural que ocorre na região. A aposentada Nadir Beninca Zermiani, 63, usa água de poço para tomar e preparar a comida, mas limita o uso do líquido que chega de uma nascente à limpeza da casa e a outras atividades domésticas. “A água vem do morro e a gente tomava antes, mas meus netos passaram mal algumas vezes e começamos a cuidar. A do poço a gente fez análise e é água boa, só que pode não ser sempre assim, e não vai durar para sempre também. Precisamos de água potável”, pondera.

 Ordival Macoppi mostra a cor da água que sai do poço da sua propriedade: imprópria até para a agricultura

Reivindicação já tem mais de 60 anos

De acordo com o agricultor Ordival Macoppi, 63, pedidos para que a água potável seja levada à região são feitos ao poder público desde os anos 60. “Em 1953, a gente tomava água das valas, que ainda eram limpas, tirava para fazer comida e lavar roupa. Hoje, essa água é imprópria para consumo”, reforça.

O poço da sua propriedade precisou ser lacrado porque análises clínicas apontaram contaminação por metais pesados e coliformes fecais. “Foi um poço aberto pela Cidasc (Companhia Itegrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina), com 72 metros de profundidade, e a água é imprópria até para lavar roupa e para a lavoura. Eu pego água ali no Arroz Vila Nova. A gente usa cerca de 5 mil litros por semana”, conta.

A filha Vanessa Macoppi, primeira secretária da Amaesb (Associação de Moradores e Amigos da Estrada do Sul e Blumenau), afirma que nesse ano a entidade já se reuniu duas vezes com a Companhia Águas de Joinville para continuar cobrando a expansão da rede. “Aqui perto temos a cachoeira do Piraí, que abastece mais de 30% da cidade, e não temos água potável. A associação está revisando a adesão para levar para a Águas de Joinville. E eles vão fazer um levantamento técnico”, informa. 

Companhia fará projeto

Márcio Ravadelli, diretor de operação da Companhia Águas de Joinville, afirma que a entidade tem interesse em atender ao pedido que beneficiará as famílias da Rodovia do Arroz, mas afirma que precisa vencer trâmites legais. “Precisamos fazer um projeto, mas antes estamos atualizando o cadastro da comunidade a pedido da Vanessa. Até a esta semana, uma equipe deve ir a campo analisar e aí poderemos ter ideia de quanto tempo leva para fazer o projeto”, explica.

Como a Companhia bancaria 75% do investimento e as famílias teriam que pagar uma contrapartida de 25%, Márcio pediu para a Amaesb (Associação de Moradores e Amigos da Estrada do Sul e Blumenau) verificar novamente quem tem interesse efetivo de ligar-se à rede, caso ela seja implantada. “Com o projeto pronto, se aprovado, eu acredito que a contratação e execução leve seis meses”, completa.

Fenômeno é natural

A contaminação da água na região segundo Valério Schiochet, presidente da Fundação Municipal de Desenvolvimento Rural 25 de Julho, é causada por um fenômeno natural. “Vem do próprio solo, a formação dele tem mais ferro do que o normal. Por isso todos os laudos feitos pelos moradores apontam a toxidez de ferro”, informa.

Vanessa Macoppi, primeira secretária da Amaesb (Associação de Moradores e Amigos da Estrada do Sul e Blumenau), complementa que a contaminação por coliformes fecais ocorre porque a região não tem rede de esgoto sanitário. “Cada um tem a sua fossa, mas o saneamento básico não chegou aqui”, alerta. “E a contaminação de ferro e enxofre está em todo o lençol freático”, acrescenta.

Participe do grupo e receba as principais notícias
de Joinville e região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Notícias

Loading...