Série ‘Lei Seca’: crianças aprendem mais fácil sobre contexto social e respeito a valores

Não pode avançar no si­nal vermelho, é proibido esta­cionar na faixa amarela e tem que respeitar a vaga do idoso. Do alto dos seus sete anos de idade, as estudantes Valenti­na Druzina Hancki e Débora Prando da Silveira sabem de cor algumas regras básicas da boa convivência no trân­sito. Muito se fala que beber e dirigir é um hábito. Promover uma mudança desse paradig­ma passa pela educação e o respeito à coletividade. Quan­to mais cedo começar essa orientação, melhor.

Débora (à esq.) e Valentina sabem de cor as regras básicas da boa convivência no trânsito - Flávio Tin/ND
Débora (à esq.) e Valentina sabem de cor as regras básicas da boa convivência no trânsito – Flávio Tin/ND

A pedagoga e assessora de comunicação do Colégio Energia, Rose Linhares, afir­ma que é possível trabalhar a questão do trânsito desde a educação infantil. “Produ­zimos e trabalhamos com materiais lúdicos que repre­sentam os diversos papéis de cada um no trânsito: o poli­cial, o motorista, o pedestre, o sinal. É importante a criança olhar para a cidade, o entor­no, as placas, os sinais, desde pequena”, reforça a pedagoga com 35 anos de experiência.

A professora Letícia Mar­tins detalha que a fase da vida até os sete anos de idade é ide­al para se entender o contexto social e o respeito aos valores. “É a fase em que o cérebro está mais preparado para re­ceber essa informação. Não adianta chegar lá com 14 anos e querer incutir isso na cabe­ça deles, pois a mente estará preparada para outros atri­butos. O egocentrismo é uma característica muito presente até os sete anos. Se a criança não aprende a noção de cole­tividade, continuará achando que o mundo gira em torno dela”, explica.

O conhecimento adquiri­do pelas crianças nas escolas é repassado para a família. “Eles adoram as atividades e depois cobram dos pais a responsabilidade no trânsi­to. A sementinha que a gente planta aqui se potencializa em casa”, observa Letícia. 

Álcool e direção é tema delicado

Ao desenhar o que consideram boas práticas no trânsito, os colegas Samuel Karim e Felipe Barros Es­píndola, ambos de 9 anos, destacam o respeito às pla­cas e aos sinais. Eles nunca pegaram no volante, mas já sabem que é preciso dar a preferência ao pedestre e reduzir a velocidade ao passar no quebra-molas. “Às vezes, quando minha mãe fica muito irritada, eu falo: ‘calma, mãe, é só o trânsito’”, relata Felipe, revelando que seu aprendizado contagia toda a família.

Abordar temas delicados, como o risco de aci­dentes provocados pela mistura de álcool e direção, deve partir da iniciativa das crianças. “Espere apare­cer a oportunidade. Não precisa levantar o assunto em uma idade tão pequena. Mas, se ela perguntar, vale dizer que não pode beber e dirigir. Importante é começar com a curiosidade dela”, diz a pedagoga Rose Linhares.

Felipe destaca no desenho o respeito às placas e aos sinais - Flávio Tin/ND
Felipe destaca no desenho o respeito às placas e aos sinais – Flávio Tin/ND

No caso de estudantes adolescentes, o tom da con­versa é outro. Perto de chegarem à idade que permite tirar a carteira de habilitação, os amigos Diogo Alves Schmidt e Isadora Espindola, ambos de 16 anos, enxer­gam no carro o sonho de independência. Mais conscien­tes sobre os riscos de se associar bebida à direção, eles têm opinião formada sobre o rigor da nova Lei Seca.

“Acho que R$ 3 mil por uma multa é pouco. Uma vida custa muito mais que isso. A punição maior fun­ciona, porque pega na questão financeira”, observa Diogo. Isadora complementa: “Concordo com a puni­ção mais forte, mas em contrapartida é a cultura do brasileiro que tem de mudar. Ao invés da punição, de­veria ter mais educação, pois crianças e adolescentes serão os futuros motoristas. Vai ter mais resultado se a educação vier lá do começo, não só em relação ao trânsito, mas em tudo”.

Redução de acidentes é preocupação mundial

Preocupada com os altos índices de mortes no trânsito no mundo todo, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estabeleceu uma meta: reduzir em 50% o número de mortes e traumatismos causados pelo trânsito até 2020, com­parados a 2011. A medida incentiva que os países implementem medidas iden­tificadas em nível internacional, para tornarem as vias mais seguras.

Outra iniciativa que chama a aten­ção para o tema é o Maio Amarelo. Tra­ta-se de uma campanha com o objeti­vo de chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo.

Tanto as organizações governamen­tais quanto as privadas somam esfor­ços para modificar esses altos índices de acidentes. Para ter a mão um con­teúdo educativo em linguagem acessí­vel a crianças do ensino fundamental, o Observatório Nacional de Segurança Viária disponibiliza gratuitamente na internet (http://bit.ly/CartilhaEduca) cartilhas com o tema Educa: educação para mobilidade consciente. São nove livros para alunos e professores, com conteúdo aprovado pelo Denatran (De­partamento Nacional de Trânsito).

Alcoolemia autorizada para condutores - Infografia: Rogério Moreira Jr./ND
Alcoolemia autorizada para condutores – Infografia: Rogério Moreira Jr./ND

Como reduzir o número de acidentes ligados ao hábito de beber e dirigir

  • Determinação política para prevenção do álcool ao volante
  • Legislação clara
  • Implementação de boas práticas
  • Campanhas sobre a aplicação da lei
  • Conscientização para promover uma mudança de atitude
  • Punição rigorosa e imediata

Fonte: Beber e Dirigir – Manual de Segurança de Trânsito para Profissionais de Trânsito e de Saúde, da OMS

Sobre a nova Lei Seca

“Fico feliz porque estamos vendo uma nova geração com vontade de mudar e fazer diferente dos pais e avós.” – Marcos Brinhosa, instrutor e proprietário de autoescola

“Acredito que a lei, por si só, não melhora a situação. Ela deve vir com políticas públicas inteligentes e acertadas. A fiscalização, aliada à conscientização, sobretudo nas escolas, podem sim promover um impacto positivo na sociedade.” – Carlos Augusto Ribeiro, advogado criminalista

“Acredito que este tipo de alteração legislativa, embora bem intencionada, não atinge o propósito a que se destina, que é reduzir a ocorrência destes delitos de trânsito. Penso que o caminho correto, antes de se socorrer mais uma vez ao direito penal, seria investir pesado em educação para que as próximas gerações tenham consciência de que o trânsito é um espaço coletivo e que precisa ser compartilhado por todos!” – Deivid Willian dos Prazeres, advogado criminalista

 “O trânsito é presente na nossa vida. A abordagem sobre o trânsito nas escolas é de extrema importância. Deveria estar na grade ao longo de todo o período escolar, não só para formar condutores, mas como pedestres também. A PRF faz um trabalho com educação no trânsito, visita escolas, e faz também com condutores. Os adultos também mudam sua postura ao longo do tempo, não é só através da imposição, da multa.” – Carlos Possamai, inspetor da Polícia Rodoviária Federal

“Queremos que as pessoas entendam é que aumentou o valor da multa, das penalidades, mas nada disso vale tanto quanto uma vida. Queremos que as pessoas respeitem a vida e pensem no próximo.” – Maryanne Mattos, secretária municipal de Segurança Pública e comandante da Guarda Municipal de Florianópolis

“A lei brasileira tem um extremo rigor com a tolerância zero para a quantidade de álcool no sangue, ao contrário do que se vê em outros países. Acredito que uma fiscalização mais frequente e o investimento do poder público em educação e conscientização trariam mais resultado do que aumentar a punição”. – Raphael Dabdab, presidente Abrasel

Série “Lei Seca”

>> Entenda quais são os riscos da mistura álcool e direção

>> Mistura de álcool e direção prejudica vidas e a economia do país

>> Mudanças na legislação buscam reduzir crimes de trânsito e impunidade

>> Motoristas buscam opções para não dirigir depois da cerveja com amigos

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