Servidão

Sou servidor público, e falarei em defesa daqueles servidores que, como eu, buscam dar o seu melhor, incomodado com alguns comentários que, devido ao péssimo atendimento de alguns despreparados em servir, generalizam todos os outros servidores que cumprem sua função, sabedores de suas obrigações e seus direitos.

A minha mãe sempre me falava que a gente nunca deve permitir que uma pessoa saia da nossa frente pior do que quando chegou. Eu descobri, há algum tempo, que minha mãe reproduzia uma frase de Madre Teresa de Calcutá, que para mim, é um exemplo de servidão. É claro que nos dias atribulados em que vivemos, num tempo de competição e onde as pessoas confundem egoísmo com amor próprio, onde a gente só vê o próprio umbigo, e que se eu for feliz ótimo, se não for eu quero que o outro se dane, é claro que num tempo assim a frase de Madre Teresa soa antiquada, imprópria, mas é algo que deveria ser pensado com mais profundidade.

Como servidor público, tento não ser demagogo agora, tento atender ao público que frequenta e procura os serviços onde trabalho. Trabalho com a literatura, com a poesia, com a palavra. A palavra é minha matéria prima, então, é com ela que recebo as pessoas que entram na Biblioteca Pública Rolf Colin e tento inseri-las. Eu não me importo se quem vou atender é algum integrante  da Academia Joinvilense de Letras ou o artista de rua que entra sujo e cabisbaixo. Para mim, se estão na biblioteca, podem ser recebidos com uma palavra mágica: Bom dia, ou antes ainda, porque tem bons dias que vem precedidos de obrigatoriedade, então, às vezes, a gente nem precisa dar bom dia, a gente ri, faz um gesto gentil, e a pessoa então se integra.

Somos servidores públicos porque escolhemos. Uns pelos benefícios, outros pela estabilidade, mas todos, independentemente das escolhas, somos os responsáveis por fazer a cidade se movimentar. Somos pequenas engrenagens que fazem a roda girar. O servidor cuida do seu filho enquanto você trabalha, apresente para eles história e magia. O servidor deixa sua calçada limpa, roça a beira do rio, lhe entrega o remédio, lhe dá injeção, lhe auxilia no meio da tenebrosa burocracia, traz comida para você quando está internado, cozinha nas escolas, atende famílias carentes, ajuda aqueles que estão a procura de apoio psicológico e emocional. O servidor é responsável pela manutenção da qualidade dos alimentos que chegam à sua mesa, ensina a primeira palavra, da mais fácil à mais difícil, insere o mundo da matemática na sua infância, e apresenta a história de homens e de cidades para o cidadão.

Servir ao público é uma honra para mim, é o ato mais cristão mesmo para os não cristãos. Então, eu encaro o meu trabalho como um ato de amor. Quando eu entrei, sabia das minhas dificuldades, que é difícil lidar com as mudanças de humor do público, mas, se eu não soubesse disso, teria escolhido outra profissão, mas eu me contento em servir, eu gosto de servir, tenho na realidade um extremado gosto em fazer o outro ficar bem, porque nele eu melhoro.

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