Sistema de resort é exemplo de tratamento e reutilização de esgoto no Santinho, em Florianópolis

Estação construída no início da década de 1990 no Costão do Santinho é um modelo jamais seguido pela Casan

Flávio Tin/ND

Técnico em saneamento acompanha o tratamento diariamente

Nem tudo está perdido no Norte da Ilha, outrora “galinha dos ovos de ouro” do turismo em Florianópolis. Enquanto Cachoeira do Bom Jesus, Ponta das Canas, Jurerê, Daniela e Ingleses, praias vizinhas à poluída Canasvieiras, tentam sobreviver à crise do esgoto que aniquila riachos e contamina praias, no Santinho existe uma luz no fim do túnel, ou, literalmente, luzes dentro da fossa. O banco luminoso, conjunto de 45 lâmpadas emissoras de raios ultravioleta confinadas em caixa vedada de concreto, é a etapa final do sistema operacional da estação de tratamento do Costão do Santinho, investimento de R$ 1,8 milhão que reverteu a imagem do empreendimento diante da opinião pública, inclusive da comunidade tradicional e ambientalistas de Florianópolis, que questionavam o licenciamento de empreendimento em área de preservação permanente, entre as dunas e o remanescente de mata atlântica do morro das Aranhas, na década de 1990.

Mais do que isso. Dimensionada para carga diária de 5.000 pessoas, 150% acima do número de funcionários e hóspedes que utilizam diariamente os banheiros e cozinhas do complexo, a estação de tratamento atende com sobras 2.000 hóspedes e funcionários e reduz em pelo menos 800 metros cúbicos de esgoto despejados na rede pluvial do bairro. Consequentemente, é menor também o risco de contaminação da lagoa do Jacaré, um dos ecossistemas preservados entre as dunas, e do mar do Santinho.

E é exemplo de sustentabilidade no momento em que vem à tona o resultado de quatro décadas da omissão histórica do poder público e da exploração comercial criminosa dos recursos naturais da Ilha em nome do desenvolvimento econômico da cidade. Tecnologia utilizada desde 1991, a luminosidade ultravioleta não integra o sistema convencional de tratamento de esgoto da Casan (Companhia Catarinense de Água e Saneamento).

Eficiência vinculada ao permanente monitoramento técnico

Na estação do Costão do Santinho, antes de esguichar com força pelas mangueiras utilizadas para irrigação de campos de futebol e de golfe ou, ainda, na lavação de calçadas e das áreas externas do complexo, os efluentes com 98% de pureza passaram por outras três fases – tanques de aeração, filtragem e decantação. Dali, o lodo residual segue para o leito de secagem e, depois de maturado, vira adubo orgânico também reutilizável nos jardins e gramados.

“Sem qualquer odor desagradável para funcionários e hóspedes”, ressalta o diretor de patrimônio e hospedagem Leonardo Eurico Freitas, 36 anos. No entanto, nada é inovador no sistema de esgoto do Costão, onde a eficiência está diretamente vinculada ao permanente monitoramento técnico e eletrônico da rotina operacional dos equipamentos. “E, principalmente, da dedicação em tempo integral da equipe [quatro técnicos residentes] responsável pelo setor de hidráulica do sistema”, completa Freitas.

Eficiência nem sempre percebida por quem pode desfrutar com conforto da natureza exuberante do lugar, mas que garante equilíbrio ambiental na última etapa da cadeia biológica do ser humano. E mantém o padrão internacional das diárias mais caras do mercado hoteleiro de Florianópolis.

“Seria viável em uma cidade”

A estação de tratamento de esgoto do complexo Costão do Santinho em nada se parece com a estrutura disponibilizada pela Casan nas demais praias do Norte da Ilha. Moderno e eficiente, o conjunto de equipamentos está capacitado para processar até 800 m³ durante o pico da temporada de verão, média que cai para 300 m³ no resto do ano.

De fora, o processo parece simples. A carga de esgoto diária do complexo é bombeada diariamente para tanques de aeração, com tratamento biológico para eliminação de maior parte das bactérias. Em seguida, os efluentes passam para a etapa de filtragem e percorrem labirinto de tubulação até chegarem à decantação, de onde o líquido segue para a última etapa de purificação, o banco de lâmpadas de ultravioleta, e escorre praticamente limpo e reoxigenado no outro lado – etapa não realizada no sistema da Casan.

O lodo residual é armazenado no leito de secagem e depois de maturado é processado até chegar a outro produto que começa a dar resultados nos jardins do entorno, por enquanto em caráter experimental: adubo orgânico. “A operação é cara, mas compensa pelos ganhos ambientais e seria viável em uma cidade”, garante Leonardo Freitas. Tudo com supervisão de duas consultorias externas – Laboratório QMC e Socioambiental.

Irrigação com água que passou pela estação

O monitoramento é diário. Todas as tardes, o técnico em saneamento Fernando de Souza, 33, mede parâmetros de oxigênio dissolvido, pH, nitrogênio, fósforo, sólidos suspensos, demanda química de oxigênio, cloretos, coliformes fecais e, por último, da placa de lâmpadas emissoras de raios ultravioleta que completa o processo. A 200 metros dali, equipes de jardineiros se dividem nas tarefas de irrigação dos canteiros floridos e do gramado do campo de futebol de 8.250 m², com padrão Fifa. Límpida e sem odor, a água é a mesma que entrou na outra ponta da tubulação e passou pelos quatro processos básicos da estação de tratamento de esgoto, ao lado do depósito de sedimentos sólidos, o lodo seco transformado em esterco orgânico para adubação das áreas verdes do complexo de um milhão de metros quadrados.

Inaugurado em dezembro de 1991 em área de preservação permanente entre as dunas e o costão das Aranhas, e duramente criticado durante a fase de implantação, o empreendimento adotou importantes ações ambientais. No contexto atual, com o sistema da Casan em colapso em Canasvieiras e Ingleses, a ETE é modelo de sustentabilidade.

“Somos visitados por alunos de escolas públicas e privadas da região”, emenda Leonardo Freitas. Em média, de 30 mil a 40 mil crianças participam por ano das atividades de educação ambiental do complexo, que incluem caminhada nas trilhas do morro das Aranhas.

Além do monitoramento minucioso e constante para permanente equilíbrio em todas as fases de tratamento, sem risco de sobrecarga e extravasamento, a equipe de manutenção é fundamental para garantir equilíbrio na operação diária. Quatro funcionários residentes coordenados por Souza são responsáveis pelo sistema hidráulico do complexo.

ESTRUTURA

Inauguração: Dezembro de 1991

Faturamento anual: R$ 100 milhões

Área total: 1 milhão m²

Área verde: 750 mil m²

Construção: 120 mil m²

Quartos: 900

Hospedagem: 14 vilas + hotel internacional com cem quartos

Média de hóspedes: 100 mil/ano (20% estrangeiros)

Restaurantes: seis

Funcionários: 950 efetivos

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