Startups manezinhas fazem sucesso na “Ilha do Silício”

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Florianópolis, que até poucos anos era sinônimo de praia e férias, está sendo redescoberta por outra característica. Para quem atua no mercado de tecnologia, a Capital também é reconhecida como a “Ilha do Silício”, referência ao “Vale do Silício”, no Norte da Califórnia (EUA) e maior polo global de TI (Tecnologia da Informação).

Exact Sales atende duas mil pessoas em parque tecnológico – Foto: Anderson Coelho/ND

Isso se deve à expansão de jovens empresas deste setor, as chamadas startups, e um crescente ecossistema (composto por universidades, parques tecnológicos e centros de inovação, fundos de investimento, programas de fomento a projetos, eventos etc.) que dá suporte a novos empreendedores.

Em cinco anos, o número de empresas de base tecnológica em Santa Catarina dobrou, passando de 6.179 para 12.274 entre 2013 e 2018, segundo a Acate (Associação Catarinense de Tecnologia). Cerca de 20% do total (2,4 mil) estão localizadas em Florianópolis.

Mesmo com pouco tempo de mercado, estas jovens empresas crescem de maneira acelerada. Mas qual o segredo das startups? Entender a “dor” de um mercado, desenvolver um serviço inovador por meio de tecnologia, validar e buscar um crescimento em escala, atendendo clientes dentro e fora do país.

É com esta receita que empresas manezinhas como a Involves, que desenvolve um software de gestão para trade marketing, cresceu em 10 anos de um negócio que envolvia apenas os sócios para uma companhia internacional, com cerca de 250 colaboradores.

Capacitação

“Florianópolis conta com um grande volume de profissionais com alta capacidade técnica. Os empreendedores locais criaram produtos que são muito fortes nos mercados nacional e internacional”, ressalta Marcelo Gracietti, CEO da Cheesecake Labs, startup especializada no desenvolvimento de aplicativos web e mobile.

Na visão dele, isso se fortaleceu ao longo dos últimos cinco anos, com a multiplicação de eventos, grupos e programas de capacitação e fomento a startups, além do apoio mútuo entre empreendedores.

Um exemplo é o grupo de Internacionalização criado pela Acate, que reúne empresas locais de TI que já trilharam o caminho das pedras para vender ao mercado externo.

Um dos líderes é Guilherme Coan, diretor da Involves: “O objetivo é consolidar uma cultura de internacionalização entre as empresas locais, contribuindo para que elas sejam mais competitivas e sustentáveis. Fazemos encontros mensais, debatendo temas como a contratação de estrangeiros e gestão de equipes fora do País.”

EXACT SALES

Um dos principais desafios das empresas catarinenses, antes da era digital, era conquistar os maiores mercados do país, o que demandava grande esforço comercial e presença física, encarecendo as operações.

Para as startups manezinhas, que nasceram em um ambiente totalmente online, a realidade é diferente. A Exact Sales, atende 2 mil clientes em um parque tecnológico, em Florianópolis.

“Hoje é muito mais fácil comercializar para outros estados e países. Atendemos grandes empresas do Brasil e temos também clientes nos EUA, Portugal, Suíça e Paraguai, que atendemos online. Isso reduz custos, a ferramenta fica mais acessível e percebemos que as empresas se adaptaram a esse modelo”, explica Théo Orosco, CEO e fundador da Exact Sales.

A empresa surgiu em 2015, com Théo e o sócio Felipe Roman, a partir de uma metodologia de “pré-vendas” que se transformou em um software utilizado por empresas que precisam prospectar e qualificar clientes aptos a serem abordados por vendedores.

“Identificamos no mercado que a principal razão para baixa conversão de reuniões em vendas era a falta de entendimento prévio sobre o cliente. A startup recebeu R$ 15 milhões, que será direcionado para as áreas comercial.

INVOLVES

Criada em 2009 por seis sócios e amigos que tinham duas bandas de rock em Florianópois, a Involves, viveu um ciclo de crescimento exponencial nos últimos anos, passando de um faturamento de R$ 2,1 milhões, em 2014, para R$ 27 milhões em 2018.

Para 2019, quando completa 10 anos de fundação, espera crescer 50% no faturamento – que deve bater na casa dos R$ 40 milhões – e está negociando a entrada de um fundo de investimento, com foco nos mercados do México e da Colômbia como base operacional.

“A internacionalização é uma das alavancas do nosso crescimento. Abrimos em março um escritório no México e estamos fazendo o mesmo agora na Colômbia. Atualmente, 11,5% de nossa receita vem de clientes de outros países”, diz o cofundador e diretor de Vendas, Guilherme Coan.

Mas a Involves não teria alcançado a América Latina se não tivesse dominado grandes indústrias com operação no Brasil. Entre os clientes, estão marcas como L’Oreal, Motorola, Ipiranga, Unilever e Samsung.

Neste ano, a empresa levou para São Paulo seu maior evento corporativo, que reuniu quase 2 mil pessoas ao longo de dois dias.

BUSCAONIBUS

A consolidação de Florianópolis como polo de empresas de tecnologia também acaba atraindo o interesse de profissionais e empreendedores de outros países.

Este foi o caminho que o engenheiro de software português José Almeida fez há uma década, quando fincou pé na Capital para transformar um projeto pessoal em uma empresa.

Ele é o fundador da BuscaOnibus, plataforma de informações rodoviárias pioneira no País, que agrega dados (horários, trechos e preços de passagens) de mais de 200 viações do Brasil e do Mercosul e que tem mais de 3 milhões de usuários por mês.

A ideia surgiu em viagem de mochilão percorrendo, de ônibus, o litoral brasileiro de Florianópolis a Fortaleza. O crescimento acelerado durante a época da Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 ajudou a empresa, com sede na Lagoa da Conceição, a se tornar parceira de grandes empresas internacionais como Decolar.com, BlaBla Car, Skyscanner e a gerar negócios para várias startups que surgiam neste mercado (como Guichê Virtual, ClickBus e outras).

Recentemente, a BuscaOnibus tem apoiado viações tradicionais – como o grupo JCA, o maior do país – a oferecer venda de passagens diretamente ao usuário final por meio da plataforma.

A empresa também tem crescido no mercado latinoamericano. Em abril, lançou a versão em espanhol e, desde a última temporada de verão, o volume de usuários hermanos cresceu cerca de 20%, comenta José Almeida.

CONPASS

Há 5 anos, o engenheiro Ivan Biava começou a participar de um pequeno grupo de jovens empreendedores que se encontrava mensalmente na Capital para falar sobre formas de desenvolver novas tecnologias e serviços inovadores para o mercado.

Foi a gênese do coletivo Floripa Startups, quen anos depois ajudaria a organizar eventos que reuniram até 500 pessoas na cidade, debatendo tendências e oportunidades.

Em 2015 ele fundou a Conpass, que desenvolveu um sistema automatizado que guia e ensina pessoas a utilizarem softwares corporativos. Em pouco mais de três anos, a empresa contabiliza mais de 300 clientes, entre eles grandes marcas da indústria de software como Totvs, Linx, Softplan, Vtex e Rakuten, entre outros.

Neste ano, a expectativa é faturar R$ 3 milhões e ultrapassar a marca de 5 milhões de usuários do sistema.

Segundo Ivan, 70% dos clientes está fora de Santa Catarina, inclusive, nos Estados Unidos. Neste início de novembro, ele embarca para o maior evento de tecnologia da Europa, o WebSummit, em Portugal, para ampliar as oportunidades internacionais de negócio da empresa, que conta com cerca de 30 funcionários e espera manter o crescimento acelerado nos próximos anos.

CHEESECAKES LABS

Desenvolvedora de softwares, plataformas digitais e aplicativos sob medida, a Cheesecake Labs nasceu internacional. Seu fundador, Victor Oliveira morava na Califórnia quando foi um dos primeiros engenheiros contratados pela Uber.

Na volta a Florianópolis para concluir o curso de Engenharia de Automação na UFSC, foi procurado por várias pessoas do Vale do Silício para desenvolver projetos. Com a demanda aquecida, decidiu criar uma empresa ao lado de amigos do curso.

60% dos clientes da Cheesecake são empresas internacionais, com sede nos Estados Unidos e Inglaterra. No ano passado, o faturamento foi de aproximadamente R$ 10 milhões – um volume que deve crescer 40% em 2019.

O número de funcionários também cresceu neste período: 22%, passando de 44 para 54 pessoas. Além disso, os aplicativos criados pela Cheesecake Labs já impactaram mais de 46,5 milhões de pessoas em diferentes países.

Para os próximos anos, o foco continua no mercado externo. “Nossos esforços ativos são para fora do país. O Brasil tem uma demanda bem grande também, mas nos EUA estamos começando a abordar startups mais maduras, que precisam escalar seus produtos”, comenta o atual CEO, Marcelo Gracietti.

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