Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Tato e outros sentidos

Ler uma crônica num jornal de papel ou no tablet digital? Ir à praia para ler, sob o guarda-sol, as notícias ou um romance num impresso ou num eletrônico?

Os tempos correm em trilhos movediços, há bruscas mudanças nos costumes e nos intervalos se instalam os períodos de transição, como nas novas aposentadorias.

Tudo tem o seu tempo debaixo do sol, já dizia o Ecclesíastes. O escritor Otto Lara Resende, por exemplo, sustentava que ler um jornal tinha os seus ritos. Como não gostava de computadores e a eles resistiu até a morte, jamais leu um texto nas ditas “redes sociais”.

Era um legítimo “das antigas”. Para ele, o escrito devia chegar de manhãzinha em sua casa, sob a fresta da porta, na forma de um desejável intruso, um arauto ou um meirinho, com cheiro, propiciando o tato epitelial com o papel.

Quanto ao livro – apesar de informado de que Margareth Mitchell, autora de “…E o Vento Levou”, já podia ser lida em E-books – precisava do tato consumado com o livro tradicional, dócil no passar das páginas, como se tudo fosse uma carícia ou uma despudorada bolina intelectual.

E havia os cheiros, claro. Mais do que o tato, o olfato. É do livro impresso, feito com papel e cola, que o mundo há de sentir falta. O escritor americano John Updike, antes de partir desta para outras dimensões , mediu a saudade que sentiria do tradicional artefato:

– Um livro se encaixa normalmente na mão humana, num aconchego sedutor, quer tenha capa de pano, de papel ou sobrecapa acetinada. Seu peso repousa no dedo mindinho da mão direita por horas a fio, sem que ele dê sinal perceptível de cansaço, enquanto o polegar mantém abertas as páginas para que os dedos da outra mão possam consumar a carícia de virá-las.

Eis-me aqui de volta à crônica e ao jornal impresso, com cheiro e tudo. A crônica, aliás, continua viva como um “descompromisso”, um coloquial literário, aquele recadinho que cabe assim em pouco mais de 50 linhas. É um lero-lero livre e “desinteresseiro”, embora o nosso primeiro cronista, Pero Vaz de Caminha, não tenha perdido a chance de nele encaixar um pedido nepotista:

– Não poderia o senhor, meu Rei, perdoar meu sobrinho Jorge Ozouro, que foi injustamente desterrado para a Guiné, acusado de haver se apropriado daquilo que “próprio não lhe era”?

O cronista morreu antes de saber do perdão. Até para isso a crônica já serviu. De “habeas corpus” para o primeiro sobrinho beneficiado pelo Brasil recém-descoberto. O primeiro caso de nepotismo explícito, muito antes dos netinhos de Sarney e dos filhotes de Lula e Bolsonaro.

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Sérgio da Costa Ramos