Taxistas de Florianópolis são pressionados a trabalhar em dias de quarentena

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“Eu estou trabalhando porque não quero perder o carro, mas dá medo”. A declaração é de Sérgio*, de 62 anos. Taxista que opera o veículo de outra pessoa há mais de seis anos, ele se vê pressionado a trabalhar mesmo sendo do grupo de risco do novo coronavírus.

Segundo o profissional, se deixar de rodar pelas ruas de Florianópolis e região, o dono do carro que trabalha pode demiti-lo. 

Taxistas afirmam serem pressionados a trabalhar na quarentena – Foto: Anderson Coelho/ND

Desde que o decreto do governador Carlos Moisés determinou a suspensão de serviços para conter o avanço da doença, o movimento caiu. Mas Sérgio continua se arriscando enquanto aguarda a próxima corrida.

O ponto em que ele trabalha, perto de um shopping da Capital, está fechado e as corridas diminuíram cerca de 70%. 

Durante os dias de isolamento social, apenas serviços essenciais como hospitais, empresas e órgãos de segurança, mercados e postos de combustíveis estão abertos. 

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Do outro lado, com medo de contrair a Covid-19, Luiz* deixou de trabalhar, mas teme perder sua renda. “Eu não estou trabalhando, mas sei que vou perder o emprego, pois o dono do carro está me ligando toda hora para eu ir trabalhar”, conta o homem de 53 anos que tem problemas de saúde e também integra o grupo de risco. 

Sérgio e Luiz fazem parte dos profissionais de táxi de Florianópolis que não possuem veículos próprios e trabalham com carros de outras pessoas. Ambos pagam uma taxa pelo uso do carro ao proprietário da placa.

Portaria da prefeitura

Foto: Anderson Coelho/ND

Para tentar minimizar os riscos dos profissionais, a prefeitura de Florianópolis divulgou uma portaria na quinta-feira (26) recomendando que motoristas acima de 60 anos, tanto permissionários quanto condutores auxiliares, não exerçam as atividades durante o período de quarentena. 

No documento, a secretaria municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano orientou também o uso de máscaras, luvas descartáveis e álcool gel. A pasta também foi questionada sobre os profissionais que estão sendo pressionados a trabalhar, mas não houve retorno à reportagem do nd+.

O sindicato dos taxistas também foi procurado e informou que sugeriu medidas de prevenção aos que optarem por trabalhar. Segundo o dirigente da categoria, Volmir Antônio Victor, são os taxistas quem devem escolher por parar ou não. 

“O que nós do sindicato temos orientado, e até onde eu tenho conhecimento, é que está trabalhando quem optou por trabalhar. E quem decidiu por parar  também está sendo respeitada sua decisão. A orientação é de livre escolha e será respeitada a decisão de cada um”, disse. 

Autônomos também se arriscam 

Willis Herculano Barbosa é autônomo e dono do carro que trabalha. Segundo ele, desde o decreto assinado pelo governador foi assinado, as corridas diminuíram por conta do shopping estar com as portas fechadas e a parcela do veículo, que venceu no dia 20, até o dia 23 ainda não havia sido paga. O ponto em que Willis trabalha fica em um shopping.

Com o cenário de crise ainda maior, o catarinense de 39 anos – 15 destes como taxista – já pensa em mudar de profissão. Ele segue trabalhando e, por enquanto, atende funcionários de algumas empresas abertas, além de clientes de anos.

“Acho que não vou mais ter condições de trabalhar como taxista daqui a pouco. Mas nesse momento eu estou preocupado com as outras pessoas por problemas psicológicos” disse.

Davi Cabral, auxilar administrativo da Associação de Taxistas de Florianópolis e Região, também enxerga a crise. Segundo ele, os profissionais têm uma remuneração diária e acabam não tendo reserva para enfrentar a pandemia em casa. Por isso, muitos se arriscam.

“Muitas vezes eles não fazem um planejamento financeiro e não têm ideia de como vai ser o fim do mês, e aí vão pra rua. Mas, na medida do possível, a gente orienta a lavar as mãos mais do que normal e ter um cuidado maior com a higiene dentro dos carros”, afirmou.

Auxílio

Na última terça-feira (24), o prefeito Gean Loureiro (DEM) anunciou medidas para tentar minimizar a crise que os profissionais autônomos enfrentam. A prefeitura decidiu fornecer um auxílio mensal de R$ 100 para profissionais autônomos. 

Foto: Anderson Coelho/ND

A ajuda de custo é exclusiva para a compra de alimentos e produtos de limpeza, sendo proibida a aquisição de bebidas alcoólicas ou cigarro, por exemplo. Para a manutenção desse benefício, a prefeitura vai destinar cerca de R$ 200 mil por mês.

Na Câmara Federal, os deputados aprovaram na quinta-feira um projeto que prevê o pagamento de R$ 600 a trabalhadores informais por três meses. A proposta do governo era de R$ 200. O texto segue para o Senado e ainda precisa ser sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

* A pedido dos entrevistados, os nomes foram mantidos em anonimato. 

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